Entre os anos 2000 e 2011, a Rússia acumulou US$ 785 bilhões em superávits comerciais e o terceiro maior volume em reservas soberanas, que, hoje, supera os US$ 500 bilhões, em cima dos recursos provenientes do petróleo e do gás. Em 2011, eles representaram 40% do PIB. Adicionalmente, o chamado fundo de reservas acumula US$ 61 bilhões, e o fundo de bem-estar nacional US$ 88 bilhões.
De acordo com o informe semestral enviado ao Parlamento pelo banco central russo, os superávits deverão tornar-se déficits nas contas correntes em 2015. A previsão é que passe de US$ 79,9 bilhões em 2012 para US$ 25,2 bilhões em 2013 e -US$ 8 bilhões em 2015. O principal motivo é a esperada queda do preço do barril de petróleo para, pelo menos, US$ 104.
A última vez que a Rússia teve déficit nas contas correntes foi em 1997, o que, junto com reservas soberanas baixas, de US$ 20 bilhões, levou ao colapso do rublo em 1998.
A estabilização da Rússia após a crise de 1998
O Partido Rússia Unida, de Vladimir Putin e Dmitry Medvedev, conseguiu estabilizar o País após a crise de 1998; ganhou as três eleições gerais a partir do ano 2000 e passou a controlar o parlamento; estatizou uma parte importante das indústrias do petróleo e gás e aumentou as exportações de armas. O desemprego diminuiu de 55% da força de trabalho para 8% e a renda per capita aumentou de US$ 6 mil para US$ 18 mil anuais. Os trabalhadores com salários acima dos US$ 500 mensais passaram de 10% do total em 2004 para 40% em 2011.
Na década passada, principalmente em 2007, foram nacionalizadas várias empresas, que têm se tornado na base da política do governo e da burguesia nacionalista.
A economia russa ficou altamente dependente das exportações de petróleo e gás, possui as maiores reservas de gás natural do mundo, a segunda maior reserva mundial de carvão e a oitava de petróleo, matérias-primas que, junto com a metalurgia, a madeira e as armas, constituem 80% de suas exportações.
Somente as exportações de hidrocarbonetos representam em torno de 70% das exportações totais e em torno de 35% do PIB. Os impostos relacionados representam a metade do orçamento estatal.
Ao mesmo tempo, na década passada, foi legalizada a propriedade privada da terra, e foi iniciado o processo de ingresso da Rússia na OMC (Organização Mundial do Comércio), que concluiu no início deste ano, a reforma fiscal e a liberalização do setor financeiro. Essas medidas tinham como objetivo aumentar a participação na especulação financeira, o que se tornou particularmente crítico após o colapso capitalista mundial de 2007-2008, que provocou a queda dos preços dos hidrocarbonetos e do consumo.
A vulnerabilidade da Rússia perante a crise capitalista
O orçamento público consome 40% do PIB. Nos últimos anos, o estado tem aumentado a dependência do setor de hidrocarbonetos e das crescentes exportações de armas.
A maior parte das trocas comerciais da Rússia são realizadas com a UE (União Europeia), e a Europa é também o principal consumidor das matérias-primas russas como o gás. A UE é o maior parceiro comercial da Rússia, com 46,8% do total de transações comerciais em 2010, e de longe o maior investidor, com 75% do investimento estrangeiro direto, o que tem impactado o País devido ao aprofundamento da crise na Europa.
Com o objetivo de conter a crise capitalista nos dois anos seguintes ao colapso mundial de 2007-2008, o governo russo repassou US$ 200 bilhões o que lhe permitiu evitar (ou melhor, adiar) o estouro de bolhas financeiras, principalmente, da bolha imobiliária, em níveis críticos, como aconteceu em vários países da região, como Estônia, Letônia, Lituânia e Ucrânia.
As injeções de papel moeda, sem lastro produtivo, na economia, têm aumentado exponencialmente. Somente nas últimas duas semanas, foram RUB (rublos) 1,310 trilhões, ou US$ 42 bilhões, o que representa 2% do PIB (US$ 1,85 trilhões), em operações repo (recompra de títulos, principalmente, de títulos podres), aproximadamente, o mesmo percentual que o governo chinês injetou na economia recentemente (US$ 157 bilhões).
Esse tipo de operações têm fomentado a especulação financeira, o dinheiro injetado tem evaporado no sistema e nunca se materializou na forma de crédito de obras industriais de bens de capital que promovessem o crescimento industrial. Essas políticas visam fomentar os lucros dos bancos, por meio do financiamento da especulação imobiliária e do consumo com recursos públicos, do setor de armas e das grandes construtoras em cima de obras de infraestruturas.
Adicionalmente, os bancos tomaram emprestados, do banco central, RUB 1 trilhão em apenas uma semana a juros de 5,27%. Esses volumes e a recente abertura de um instrumento FX swap para dólares norte-americanos que reflete a nova política financeira do governo de injetar dinheiro podre em larga escala na economia e acelerar os mecanismos da especulação financeira. O aumento da inflação neste ano, de 6% ara 6,3%, já foi previsto pelo banco central. Também é provável que o rublo seja desvalorizado, o que aumentará as pressões sobre a inflação devido ao aumento do custo das importações.
A Rússia, como potência regional, tem exportado capitais a alguns países de menor importância da região, como por exemplo Chipre, ou como empréstimos para facilitar a compra de armas ou de obras de infraestrutura. Em 2011, o total alcançou US$ 81 bilhões, ou 5% do PIB. A expectativa futura é a queda para US$ 52 bilhões neste ano, e para US$ 15 bilhões em 2014.
O que está por trás do impulso à indústria de armas?
O governo russo tem impulsionado o desenvolvimento da indústria militar para dar novo fôlego à economia, impactada pela queda do consumo mundial e à enorme dependência dos hidrocarbonetos. Por meio da transferência tecnológica para o setor civil, o governo pretende desenvolver os demais setores da economia.
O orçamento previsto para o setor militar nos próximos 10 anos alcança RUB 23 trilhões, ou US$ 760 bilhões.
As exportações russas de armas aumentaram de, aproximadamente, US$ 8 bilhões em 2010 para US$ 12 bilhões em 2011 e a previsão este ano é que atinjam US$ 14 bilhões. Apesar da defasagem tecnológica em relação às principais potências imperialistas, o crescimento acelerado das exportações russas e o direcionamento dos investimentos do governo para o setor militar têm aumentado as contradições com as potências imperialistas, principalmente o imperialismo norte-americano, que, devido ao aprofundamento da crise capitalista, tenta manter o controle da especulação financeira, a qualquer custo, com o imperialismo britânico a reboque, e passou a disputar os mercados secundários de armas, além das grandes obras de infraestrutura e o controle das matérias primas.
Atuando como uma potência regional, a Rússia tem impulsionado a união aduaneira com vários países da região, o que já foi iniciado com a Bielorrússia e o Cazaquistão, e já representam 20% do PIB russo, assim como o fortalecimento da OTSC (Organização do Tratado de Segurança Conjunta) com vários países da região.
O calcanhar de Aquiles do projeto militar russo é a alta dependência dos recursos do petróleo. Para mantê-lo, perante a queda dos superávits comerciais, o governo será obrigado a cortar gastos sociais e investimentos produtivos para direciona-los ao setor de armamentos, o que transformará o plano de Putin em um fator de aceleração dos protestos sociais.
A crise do regime político
Vladimir Putin conseguiu vencer as eleições que aconteceram em março, como candidato do direitista Rússia Unida, com ampla maioria dos votos, em cima de promessas de aumentos salariais e do aumento dos gastos públicos. Para atender essas promessas, que somariam em torno a US$ 160 bilhões, o preço do barril de petróleo deverá ficar em, pelo menos, US$ 130. O cenário fica ainda pior, considerando também a promessa de criar 25 milhões de empregos bem remunerados e que as importações têm disparado devido ao processo de desindustrialização do País para priorizar os hidrocarbonetos.
O triunfo de Putin representou a vitória dos setores nacionalistas ligados à indústria de petróleo e gás, e de armamentos, que, pela própria atuação econômica, entram em choque com o imperialismo, principalmente com o imperialismo norte-americano. O uso de moedas diferentes do dólar para a comercialização, e ainda quando é feita fora dos mercados futuros de commodities, conforme tem sido feito pelo governo russo, põe em xeque a especulação financeira que tem esses mecanismos como pilares.
O aprofundamento da crise capitalista no País provocou grande protestos que poderão ser retomados no próximo período. Em dezembro de 2011, aconteceram os maiores protestos desde a queda da União Soviética, com 30 mil manifestantes em Moscou e 15 mil em São Petersburgo. Em fevereiro, novas manifestações reuniram 160 mil pessoas em Moscou apesar das temperaturas de -20oC.
Foto: Moeda russa.


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