O preço do petróleo, assim como o das demais commodities (matérias primas), tem apresentado tendência à queda desde o aprofundamento da crise capitalista a partir do terceiro trimestre do ano passado. O preço do barril tipo Brent (leve) passou de um pico de quase US$ 130 para U$ 90 a US$ 95. O impacto vai muito além da perda de receita pelos países produtores, pois afeta a própria estrutura da especulação financeira.
A senilidade do capitalismo se manifesta a partir do final do século XIX e, de maneira intensa, a partir do século XX, pela abertura de um período de crise contínua e da crescente dificuldade para a extração de lucros da produção industrial que, no século XIX, conduzia às crises cíclicas. A crise aberta nos anos 1930 somente conseguiu ser parcialmente contida por gigantescos investimentos estatais que conduziram à enorme destruição das forças produtivas na Segunda Guerra Mundial. O período de pós-guerra, conhecido como “os anos dourados” do capitalismo dos países desenvolvidos (1948 até, no máximo, 1967), levou à crise mundial do petróleo de 1974, da qual o capitalismo não conseguiu se recuperar mais. A partir desse momento, diversos mecanismos especulativos foram se desenvolvendo aprofundando o parasitismo.
A calote generalizado que a administração Nixon deu em 1971, acabando com a conversibilidade do dólar ao ouro, foi mais um sinal de fraqueza e abriu o caminho para a especulação financeira em larga escala. Sem o padrão ouro, o mecanismo costurado e imposto pelo imperialismo norte americano para manter a ditadura do dólar passou a ser a comercialização do petróleo em dólares.
Os derivativos financeiros estão estruturados em cima dos petrodólares
Durante o auge do neoliberalismo, na década de 1990, o imperialismo desenvolveu os derivativos financeiros como o principal mecanismo especulativo em cima do qual são obtidas altas taxas de lucro. A comercialização de matérias primas e, principalmente, do petróleo, passou a ser feita (hoje, em torno de 65% do total) nas bolsas de mercadorias futuras.
Os países produtores, fundamentalmente os países do Conselho do Golfo Pérsico, liderados pela Arábia Saudita, vendem o petróleo em troca de papéis financeiros, em cima de preços estimados numa data futura. Altos funcionários da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) têm declarado várias vezes que o volume dos títulos que referenciam a comercialização real a superam em mais de 30 vezes.
Esses papéis, que são uma “derivação” do petróleo real, são agrupados em cestas, pelos bancos imperialistas, junto com outros papéis de diversas procedências (hipotecas, dívida pública, dívida privada, fretes, outras cestas de derivativos etc) e graus de podridão, e são comercializados cobrando taxas de em torno de 2,5% pelas transações. Além, disso são frequentes as manipulações dos índices e dos mercados para favorecer as apostas futuras. Os recentes escândalos da manipulação da taxa Libor por 30 grandes bancos e dos mercados de eletricidade nos EUA pelo JP Morgan são uma pequena amostra da “grandiosidade ética” do capitalismo atual. De fato, todos os mercados são manipulados, pois os mecanismos especulativos implementados somente se sustentam em cima do aumento contínuo dos preços.
Uma das maneiras que tem sido usada, no último período, para manter o preço do petróleo em alta é a ameaça de uma guerra com o Irã.
O que está por trás do fantasma do Irã?
O aumento das pressões do imperialismo sobre o Irã tem dois aspectos fundamentais envolvidos. Por uma parte, as contradições existentes entre o regime do aiatolás, que tem pretensões de potência regional o coloca em choque com a Arábia Saudita e Israel, principalmente, e também com a Turquia e as potências imperialistas.
Há várias evidências de que a questão da ameaça nuclear que o governo do Irã representa seria, em grande medida, fruto da propaganda imperialista. A própria iniciativa dos governos do Brasil e da Turquia de 2009 sobre um acordo onde a Rússia passaria a fornecer o urânio enriquecido, de fato, foi uma solicitação do próprio Obama a Lula e ao primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan, que acabou sendo contestado pelos setores mais direitas do governo norte-americano.
O conflito do imperialismo e os sionistas israelenses com o governo do Irã é real, mas ele é amplificado e tem se evitado, inúmeras vezes, uma saída negociada.
Qual seria então o grande objetivo do aumento das pressões sobre o regime dos aiatolás?
Em primeiro lugar, a possibilidade do fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa em torno de 35% da produção mundial de petróleo, e de uma guerra em larga escala na região têm sido os principais fatores que têm provocado a disparada do preço do petróleo. Quando o preço estava aproximando-se perigosamente (para as apostas dos especuladores nos mercados futuros) de US$ 90 o barril nas últimas semanas, a nova escalada das agressões e da propaganda contra o Irã conseguiu elevar o preço para em torno de US$ 95.
Como efeito colateral, essa política se encaixa como uma luva na política do governo sionista de Israel que, dessa maneira, justifica as ajudas militares que recebe do imperialismo norte-americano por um montante de, aproximadamente, US$ 1,5 bilhões anuais. Uma justificativa importante do fortalecimento da V Frota dos EUA, que está estacionada em Bahrein, é a questão do Irã. Uma nova manobra no Estreito de Ormuz, envolvendo oito navios de guerra, começou no dia 2 de julho.
As enormes compras de armas norte-americanas feitas pela reacionária monarquia saudita, também usa o Irã como pretexto, favorecendo às multinacionais do setor militar.
O próprio regime dos aiatolás, vítima das agressões imperialistas e sionistas, usa a escalada das ameaças como uma maneira de minimizar o acirramento das contradições sociais devido ao aprofundamento da crise capitalista no País, agudiçado pelas sanções, e à política repressiva do regime. A manutenção dos altos preços do petróleo tornou-se condição de sobrevivência do regime, pois dele depende em torno de 70% do PIB.
A Arábia Saudita é o fator fundamental que sustenta a base da especulação financeira
A monarquia saudita, que representa um dos regimes mais retrógrados do mundo, tem sido um dos principais baluartes da especulação financeira por meio do uso do dólar e dos mercados futuros de energia. A produção diária de 10 milhões de barris, de um total de 75 milhões que são comercializados no mundo, lhe garante o papel de regulador do mercado. A estabilidade do regime é, portanto, condição fundamental da escalada da especulação financeira.
Em março de 2011, a tentativa de organizar protestos contra o regime foi reprimida fortemente pela polícia saudita ao mesmo tempo que o rei Abdullah anunciava a alocação de SR 250 bilhões para a construção de 500 mil novas casas populares e o aumento de recursos para crédito imobiliário, como parte de um pacote de US$ 130 bilhões. O governo estima que exista um déficit de 1,5 milhões de novas moradias e aprovou recentemente uma nova lei de hipotecas que permitirá o estabelecimento de empresas especializadas que procurarão desenvolver a especulação imobiliária em larga escala, pois encontra-se esgotada em quase todos os países importantes em escala mundial.
