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251211_islandia2Islândia - Vicenç Navarro - [Vicenç Navarro, tradução de Diário Liberdade] 20 de dezembro de 2011. Este artigo descreve como o povo islandês se rebelou exitosamente frente às políticas neoliberais impostas pelo Fundo Monetário Internacional e a União Europeia.


A Islândia é um país de pouco mais de 300 mil habitantes. Não tem Exército. E, entretanto, derrotou os centros financeiros mais importantes do mundo com base em sua firmeza e vontade popular. Nos rankings de riqueza que periodicamente se publicam, a Islândia aparecia como um dos países mais rico do mundo, já que seu PIB per capita é dos mais elevados. E tudo isso se atribuía à enorme desregulação dos bancos, permitindo-lhes que o que quiserem, sem nenhum tipo de regulação, freios ou inibições. A Islândia era o paraíso do neoliberalismo. As políticas do governo islandês estavam orientadas para facilitar e dar boas vindas ao capital financeiro de outros países, como a Grã Bretanha e a Holanda. Isso conduziu a uma situação em que todo mundo se endividou, incluindo o Estado. A dívida pública passou ser 200 vezes o PIB do país em 2003 e 900 vezes em 2008. Tudo parecia ir bem até que estourou a crise financeira europeia. Então, a economia islandesa colapsou. Os três bancos mais importantes da Islândia, Landbanski, Kaupthing e Glitnir foram nacionalizados. E sua moeda desmoronou. Seu valor descendeu cerca de 85% em relação ao euro.

Este desastre financeiro foi a origem de uma revolução popular que mudou o rumo do país, até então governadas pelas elites familiares que haviam controlado o poder financeiro e político do país. Tal revolução popular recuperou sua soberania perdida. O governo, respondendo ao colapso, havia negociado um empréstimo de 3.5 bilhões de euros de várias fontes e países. Mas como condição, tanto o FMI como a União Europeia quiseram impor condições draconianas ao povo islandês, tal como está ocorrendo na Grécia, Irlanda, Espanha e Itália. Entre estas condições estava uma que exigia que cada cidadão na Islândia pagasse o equivalente a 100 euros por mês durante os próximos quinze anos a fim de pagar a dívida devida a tais bancos. A ideia de que a cidadania tinha que pagar o desastre criado como consequência do comportamento irresponsável dos bancos, que contaram com a cumplicidade do Estado, foi além do que o povo podia tolerar. A pressão das ruas – elemento chave na revolução popular – fez que o chefe de Estado, Ólafur Ragnar Grímsson, recusar a assinar a lei que exigia que a cidadania pagasse as dívidas privadas e públicas e que aceitasse a petição popular na qual se convocava um referendo para que a população expressasse sua opinião sobre a citada lei.

Os governos britânicos e holandês, em nome de seus bancos, bem como o FMI e a União Europeia, ameaçaram por todos os meios converter a Islândia na Cuba do Norte da Europa, isolando-a completamente, como havia ocorrido depois da revolução cubana. Mas a população respondeu que “se aceitavam a lei proposta pelas elites governantes, a Islândia se converteria no Haiti do Norte”. Em março de 2010 a população votou no referendo e nada menos que 93% rechaçou aquela lei. A raiva da população se traduziu em um movimento que exigiu responsabilidades civis e criminais aos responsáveis da crise financeira na Islândia, incluindo aquele que havia sido o primeiro-ministro da Islândia, bem como os presidentes dos três bancos que tiveram que ser nacionalizados. Todos eles terminaram nos tribunais, e não se exclui que terminem presos.

Fruto da indignação popular, também se exigiu que se fizesse uma Nova Constituição escrita, não pelo Parlamento, senão por uma Comissão Popular, formada por 25 cidadãos sem filiação política entre 522 adultos que haviam sido eleitos pela população. Está se elaborando o rascunho, e a comissão está recebendo comentários pela Internet. Quando o processo termina, será submetido ao Parlamento para sua aprovação.

Várias consequências podem se deduzir do dito até agora. Uma delas é que todas as previsões de “catástrofe” que ocorreria se o referendo fosse rechaçado – como foi –, provenientes dos centros financeiras, FMI e dos governos da União Europeia, foram ignorados, pois eram motivados para criar uma cultura do medo que servia aos seus interesses. A outra conclusão é que qualquer solução ao enorme problema criado pelos bancos estrangeiros e nacionais passa por recuperar a soberania por parte da população. A Islândia demonstra a necessidade de não delegar o poder popular a outras instituições que claramente mostrou que não representam os interesses da maioria da população.


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