Nos últimos dias, começaram os trabalhos para a operacionalização do chamado Acordo Internacional para Reforçar a União Econômica da UE (União Europeia) com o objetivo de aprova-lo até o próximo dia 1o. de março. Os 14 artigos do texto visam obrigar por meio de mecanismos jurídicos que as dívidas públicas dos países membros não superem os 60% do PIB e a que os gastos não superem os ingressos. Essas regras deverão ser incluídas nas constituições nacionais como o governo espanhol fez no mês de agosto. A redução da dívida deverá ser feita a um ritmo de 20% ao ano até atingir os 60%. A UE e o BCE (Banco Central Europeu), através da Comissão Europeia, controlarão os orçamentos públicos nacionais dos países deficitários. O controle destas regras será feito através de um mecanismo que será ativado automaticamente, mas que será regulado a nível nacional. Está condição demostrou as dificuldades enfrentadas pelo imperialismo alemão para impor o controle centralizado, sob o seu domínio, dos demais países.
Por que o acordo está fadado ao fracasso
O acordo está fadado ao fracasso devido, em primeiro lugar, ao altíssimo grau de parasitismo da economia capitalista. Os grandes detentores de capital, os especuladores financeiros, não conseguem extrair da produção as taxas de lucro obscenas que eles obtêm no mercado financeiro, simplesmente inventando títulos financeiros e apostando a favor e contra a possibilidade de bancarrota dos emissores dos títulos. Apesar da enorme propaganda relacionada com a suposta economia de "livre mercado", a dependência desses verdadeiros abutres dos recursos públicos é absoluta; sem eles todo o mercado financeiro mundial colapsaria imediatamente. Isto sem considerar que as grandes multinacionais imperialistas, que obtêm lucros mediante a superexploração dos trabalhadores dos países atrasados e a devastação dos recursos naturais, produzem para negociar os seus produtos nos mercados financeiros futuros e são dependentes das atividades especulativas. O mundo foi transformado num verdadeiro casino especulativo, e para este sistema decadente continuar funcionando é necessário que todos os recursos, humanos e materiais, da sociedade sejam direcionados para a ciranda financeira.
Após o colapso de 2007-2008, o imperialismo norte-americano tem despejado em torno de US$ 25 trilhões e o imperialismo europeu em torno de € 10 trilhões para salvar os especuladores imperialistas da bancarrota. Mas essas operações, batizadas com vários nomes sofisticados (TARP, TARF, QE 1, 2 e 3 etc), não têm conseguido tirar mais que alguns suspiros do capitalismo moribundo.
A economia capitalista estagnou. A zona do euro entrará 2012 em recessão. A economia norte-americana vive a pior crise da sua história. A China está à beira de enfrentar o estouro da bolha imobiliária que jogará muito combustível no verdadeiro incêndio que vive o capitalismo mundial. A suposta "blindagem" da economia brasileira ficou em frangalho; a economia parou já no terceiro trimestre deste ano e as perspectivas são altamente recessivas.
Os caixas dos governos, principalmente dos países imperialistas, estão quebrados. Somente quatro países secundários da UE atendem os requisitos apontados pelo tratado: Finlândia, Suécia, Estônia e Luxemburgo. Os países centrais estão endividados muito acima dos índices acordados, apesar de que os próprios índices são estatísticas oficiais manipuladas. Se considerarmos os vencimentos dos títulos públicos e privados que terão vencimentos nos próximos anos e os gastos públicos não provisionados (aposentadorias, saúde etc) todos os países das zona do euro já estão entre duas a cinco vezes acima desses valores e com tendência à forte piora.
A produção industrial da zona do euro caiu 0,1% em outubro com tendência a aumentar a sua contração em 2012. O euro foi cotado abaixo de US$ 1,30 pela primeira vez desde janeiro. Com a economia estagnada, a única maneira que os governos têm para pagar as suas contas, mantendo o seu objetivo principal, que é garantir gigantescos repasses de recursos públicos para que o punhado de especuladores que dominam o mundo continuem obtendo altíssimas taxas de lucro, é a emissão de títulos públicos, o corte dos programas sociais e investimentos produtivos através dos chamados planos de austeridade fiscal, o aumento dos impostos para os trabalhadores e o corte dos impostos para os especuladores. Mas, como o tem demostrado as experiências dos EUA e da Grã Bretanha essas medidas, que são profundamente recessivas, conduzem a uma única "solução" para evitar o imediato colapso do sistema: a monetização das dívidas, o que significa a impressão de papel moeda sem qualquer lastro produtivo.
Os verdadeiros objetivos do imperialismo alemão por trás do acordo
O verdadeiro objetivo do "novo" plano do imperialismo europeu é chegar aos indicadores econômicos acordados através da impressão de papel moeda, o que se materializa no aprofundamento dos ataques às condições de vida das massas trabalhadoras. O plano do imperialismo alemão é controlar a monetização da dívida em euros de maneira que ele próprio mantenha o controle dos países da zona do euro, e a partir deles de todos os países da Europa, que são o principal destino para as suas exportações de produtos manufaturados de alto e médio valor agregado. A perda de controle dos países europeus, principalmente com a saída dos países membros e a adoção de moedas locais, enfraquece esse domínio. Aumentando esse controle, através da maior centralização possível nas mãos dos organismos controlados pelo imperialismo alemão, principalmente o BCE, o aumento das emissões de papel moeda euro em grande escala poderia ser iniciado. A propaganda burguesa em relação à "responsabilidade" do governo alemão, o medo à hiperinflação por causa da experiência histórica dos anos 20 é completa falsidade, pois o imperialismo não tem alternativas: ou paralisia econômica com deflação, o que dificultaria manter os repasses de recursos públicos para os especuladores, ou a monetização da dívida. De fato, a segunda política já está sendo implementada mediante mecanismos indiretos: a injeção de altos volumes de dólares através do FMI (Fundo Monetário Internacional) e as últimas medidas do BCE que permitem os empréstimos a três anos a juros baixos para os bancos imperialistas obterem recursos baratos e comprarem imediatamente títulos públicos a juros altos. Sem dúvida um excelente negócio! Mas a sua viabilização, no cenário recessivo, depende de emissões de papel moeda que acarretam o risco de jogar o mundo na estagflação, que seria a estagnação econômica com inflação em direção à hiperinflação com depressão econômica.
O envolvimento do "setor privado" no resgate dos governos em bancarrota pedido pela chanceler alemã Angela Merkel, além da manobra demagógica, visa resolver os problemas dos mecanismos especulativos a curto prazo: evitar o disparo dos pagamentos dos CDS (credit default swap – seguros colaterais dos títulos especulativos) e manter o sistema especulativo funcionando. As perdas relacionadas com possíveis "descontos" seriam recompensados posteriormente através dos vários mecanismos que têm sido estruturados para esta finalidade. Mas, mesmo assim, tanto Merkel quanto Sarkozy e os principais representantes dos especuladores têm declarado que o "perdão" de 50% dos valores dos títulos públicos gregos foi uma exceção, mas que "nunca voltará a se repetir".
O imperialismo francês, devido à profunda crise que está enfrentando, tem ficado a reboque das políticas do imperialismo alemão.
