As duas listas mais amplamente citadas sobre os ricos da China, as elaboradas pola revista norte-americana Forbes e o Relatório Hurun baseado na China, que foram publicadas o passado mês de setembro, revelam um salto quántico na riqueza acumulada polos maiores capitalistas do país, o que Hurun descreve como "ano recorde" para os mega-ricos.
O número de bilionários chineses quase dobrou os 4.000 no ano passado, a 7.500 este ano, de acordo com Hurun, que estivo a compilar durante os passados treze anos umha lista dos indivíduos mais opulentos do país. O que mais chama a atençom é o número de bilionários que acumulam sua fortuna em US$, que Hurun quantificou em 271 este ano, por cima dos 189 do ano anterior, e mais do dobro dos 130 do ano 2009. Estes dados confirmam que a China dispom hoje do segundo número mais longo de bilionários do mundo, depois dos Estados Unidos.
Esta é umha má notícia para a grande massa da populaçom que fica com um pedaço mais pequeno do bolo económico total. Os mil chineses mais ricos incrementaram sua riqueza pessoal em 20% desde o passado ano, enquanto o crescimento global da economia no país foi aproximadamente de 10%.
"Com um passo adiante os ricos estám crescendo mais que o próprio crescimento global da economia, o qual significa que os pobres se estám tornando mais pobres ainda", afirmou ao South China Morning Post o professor Hu Xiangdou, do Instituto de Tecnologia de Beijing.
É oportuno lembrar que na China há 150 milions de pessoas que ainda vivem com só um dólar diário.
"Apesar da atual crise financeira global, 2011 foi um ano recorde para os ricos da China", adverte o Relatório Hurun. A riqueza média das mil pessoas mais ricas dobrou para 5.9 bilhons de yuans desde há dous anos.
A lista Forbes conclui numha soma de chineses bilionários um tanto mais pequena, mas confirma a tendência geral. Estima o número de bilionários da China continental (isto é, os que ganham mais de um milhom de milhons de dólares) em 146, por cima dos 128 do ano passado. Calcula que o património líquido total dos 400 chineses mais ricos ascende a 459 bilions de dólares. Esta soma é mais de sete vezes o que o país gasta nos orçamentos para a saúde e quase duas vezes e meia mais do total que é destinado à educaçom.
Descontrolo de estímulos
Como assinala o Wall Street Journal, "os barons da propriedade e o setor da construçom alcançam as melhores posiçons" na nova lista de bilionários, beneficiados polas medidas de estímulos levadas a cabo e polos trilhons destinados a empréstimos fomentados polo estado e lançados para atalhar a recessom do ano 2008. Quatro dos dez maiores bilionários som promotores imobiliários, por cima dos dous do ano passado, enquanto 29 dos 50 principais dispunham de consideráveis negócios neste sector, conforme ao Informe Hurun. O preço da habitaçom teve um aumento de 140 por cento desde o ano 2007, expulsando fora do mercado a maioria da gente comum. Um brutal estado de cousas num país onde muitas poucas poíticas de protecçom social da vivenda foram levadas a cabo desde as privatizaçons do ano 1998. Como foi observado por um microblogger no Sina Weibo: "Metade das dez pessoas mais ricas encontra-se no setor imobiliário. Eles criaram escravos da habitaçom e estes escravos convertem-nos a eles em ricos".
Tanto a revista Forbes quanto o Relatório Hurun, nomeam a Liang Wengen, presidente de Sany Heavy Industry, como o homem mais rico da China com um património líquido de 70 bilions de yuans, ou 11 bilions de dólares americanos. Liang ascendeu do quarto lugar para o primeiro na lista de Hurun do ano passado.
Sany, com sede em Changsha, a capital da província de Hunan, dedica-se à fabricaçom de equipamento para a construçom e para o transporte de terras. Esta companhia tem por cima de 60,000 trabalhadores e uns lucros por vendas de 50 bilions de yuans o ano passado. "A subida de Sany reflete o aumento em alta do gasto em infraestruturas da construçom na China", comentou Forbes.
Junto a Liang, outros dous homens de negócios relacionados com Sany, passam a fazer parte da lista dos maiores ricos deste ano: Tang Xiuguo e Mao Zhongwu de Xiang Wenbo. Liang, Mao e Tang foram fundadores da companhia. Sany, está à espera de cotar na bolsa de Hong Kong, o que incrementaria sua fortuna ainda mais.
Ao mesmo tempo, aumentam os relatórios sobre o estresse financeiro dos governos locais assim como o risco da morosidade nos veículos de financiamento destes governos (LGFVs), que pediram emprestado muito dinheiro para financiar o enorme pacote de reformas estimulantes. A Oficina Nacional de Auditoria, reportou que a dívida total dos governos locais ascendeu, de apenas uma dívida insignificante em anos anteriores, a 10.7 trillons de yuans no final do ano passado, o que é equivalente a 27 por cento do PIB chinês. A agéncia de qualifiaçom de risco norte-americana Standard&Poor's prognostica que aproximadamente um terço destes empréstimos nom serám devolvidos.
Tal como todas as estatísticas oficiais na China, a figura de 10.7 trilions de yuans, é olhada como pouco fiável e poderia chegar a subestimar a verdadeira imagem. Alguns governos provinciais, desde entom, publicaram as suas próprias ratios de dívida pública sobre o PIB, e em todos os casos estes foram maiores que as figuras nacionais. A dívida pendente na província de Hainan no final do passado ano era de 46.4 por cento de seu PIB. A província de Liaoning, de acordo com um relatório de Caixin Online, evadiu no ano passado 85 por cento dos pagamentos em serviço da dívida. O relatório indica que 120 dos 184 veículos financeiros dos governos locais das províncias estám operando com perdas e quase metade tinha sérios problemas de liquidez.
A acumulaçom de dívida local, combinada com umha cambaleante economia mundial, assim como a perigosa bolha imobiliária, apontam para iminente ocorrência de grandes riscos para o sistema bancário chinês, na sua maioria público. Consecutivamente, isto significa que os cidadaos comuns, os trabalhadores e os pobres, terám que pagar em última instância a fatura das medidas de estímulos dirigidas na maioria dos casos ao esbanjamento dos investimentos ou construçons deficientes de qualidade inferior. A nossa advertência, naquele entom, no chinaworker.info, de que as medidas de estímulos na China beneficiariam principalmente as grandes companhias e os ricos, mais do que beneficiar a necessitada maioria, tem sido confirmada pola lista dos últimos ricos.
Super-ricos estám "bem conectados"
Em conseqüência, nom é surpreendente que muitos dos bilionários chineses som também "comunistas com características chinesas" isto é, membros do partido no poder. Este é o caso de Liang Wengen e Zong Qinghou, situados no primeiro e segundo lugar da lista dos maiores ricos deste ano. O website do Grupo Sany declara no perfil público de Liang Wenger que este foi eleito como representante no XVII Congresso Nacional do Partido Comunista da China, e representante do VIII, XIX, e da X Assembleia Popular Nacional da China. Ele também tem recebido vários prémios, incluído o "Trabalhador modelo nacional" , o "Melhor Empresário Nacional " e o "Construtor destacado de umha Sociedade Socialista com características chinesas". Chamar a um 11 vezes bilionário, destacado construtor de umha sociedade socialista, nom pode ser mais absurdo!
O Relatório Hurun também aponta que os super-ricos da China estám politicamente "bem conectados", com cerca de um terço dos 50 maiores billionários servindo na Assembleia Nacional Popular da China (como no caso de Liang Wengen) ou na Conferência Consultiva Política do Povo Chinês (os dous mais importantes órgaos de assessoramento político). A Assembleia Nacional Popular da China é nominalmente o Parlamento chinês.
O ex presidente Jiang Zemin implementou umha mudança das regras no 2002, baseada na teoria da "Triple Representatividade", que legitimava a inclusom de empresários e capitalistas no Partido Comunista. Em parte, esta alteraçom normativa nom vinha mais que ratificar retroativamente um processo já posto em andamento no passado e também significava um avanço mais consciente para a integraçom do setor privado capitalista no Estado unipartidário. Assim fica refletido nos 80 milhons de afiliados presentes nos dados das estadísticas de recrutamento do partido, com o incremento do número de ricos capitalistas filiados em 113 por cento entre 2002 e 2007.
Tudo depende do "guanxi"
Depois de décadas de "reformas de mercado" no setor público, que tenhem enriquecido a classe alta de diretores, enquanto cortavam nas listas de emprego, os executivos desfrutam de pagamentos e privilégios semelhantes aos do setor privado capitalista. Isto é ilustrado polo informe de Forbes de 8 de setembro do 2011.
"Se desejares converter-te num bilionário, terás de ocupar um posto de executivo numha empresa privada (PVE) ou numha empresa de propriedade estatal (SOE). De acordo com um estudo recente, o diretor e presidente executivo (CEO) de Lenovo, Yang Yuanqing, é o executivo da empresa privada melhor pago, ganhando 8.58 milhons de yuans (12.2 millons de US$) e o presidente executivo de Sinovel Wind Group, Han Junliang, é o mais bem pago das empresas de propriedade estatal, ganhando 8.58 millons de yuans por ano. Em conjunto, 232 executivos do mercado chinês ganharam mais de um milhom de yuans; 111 trabalhando para PVEs; e 121 para empresas de SOEs.
Mas o que mais diferencia os chineses ricos dos americanos ricos é o chamado "guanxi", termo chinês que define as conexons interpessoais entre eles, com o Governo da China e o Partido Comunista como mestres do jogo..."
Capitalistas Nervosos
Estes descobrimentos incrementaram a ira e o ressentimento dos trabalhadores e da juventude, que enfrentam incrementos nos preços, pioramento das perspetivas de trabalho e umha impossível situaçom da habitaçom. Muita gente comum descarrega bem mais ira perante as excentricidades dos chefes do setor público que perante os capitalistas privados. Os primeiros som olhados como vigaristas do público, enquanto os últimos som olhados com mais benevolência por terem "ganho" o seu êxito. Porém, como manifestam as figuras anteriores, ambos os grupos trabalham conjuntamente para manipularem os recursos do estado em favor de seu próprio lucro. Esta é a realidade do "capitalismo de estado" do modelo chinês.
Muitos membros da classe bilionária chinesa fam todo o possível por fugir dos relatórios de Hurun e Forbes, porque nom querem dar nas vistas das suas exorbitadas riquezas diante dumha persistente pobreza e umha acentuada fenda na riqueza. Hurun estima que existem actualmente 600 bilionários na China, nom 271, se os "ricos encobertos" som tomados em consideraçom. Mas os capitalistas deste país som um grupo inseguro, que persegue cada vez mais segurança adquirindo passaportes estrangeiros e enviando a viver as esposas e os filhos ao estrangeiro, por se precissarem fazer umha rápida partida. Mais dum quarto dos super-ricos na China já emigrárom!
"Se há mal-estar político ou subitamente as coisas mudam na China- porque é um país grande- as cousas podem piorar e eles já contam com passaportes para partirem para fora do país. Trata-se dumha rede adicional segura". Diz Rupert Hoogewerf de Hurun Report ao South China Morning Post (8 de setembro de 2011).
Um inquérito do mês de abril feito pola China Merchants Bank achou que dos 20,000 chineses com ativos pessoais de até 100 milions de yuans (15.6 m de dólares americanos), 27 por cento já emigraram e 47 por cento estám considerando esta opçom.
Os factos apontados nestes relatórios revelam a ofensiva anticlasse trabalhadora das políticas de Beijing a despeito de seu vazio discurso "a gente vai primeiro". Todo isto sublinha a necessidade de luitas de massas, a construçom de organizaçons independentes de trabalhadores, e umha alternativa socialista à aliança de autocratas e capitalistas.
Tradução de Ana Sánchez para o Diário Liberdade.
[Vicent Kolo, traduçom do Diário Liberdade] Mega-ricos som os maiores beneficiários das políticas do regime "comunista".