O texto fai parte do livro "Negación vasca radical del capitalismo mundial", publicado em 1994 na editora basca Hiru e difundido online no site "Rede Basca Vermelha", que durante anos publicou textos teóricos e divulgativos de grande importáncia para conhecer e combater o espanholismo e o seu projeto de construçom de um mercado ao serviço da oligarquia espanhola, junto às vendidas burguesias nacionais galega, basca e catalá.
A Rede Basca Vermelha foi finalmente fechada num dos muitos episódios de perseguiçom política protagonizados polo Estado espanhol.
Antes de ler o texto de Justo de la Cueva, recomendamos dar umha vista de olhos à seguinte animaçom em vídeo, que dá boa conta do encolhimento histórico sofrido pola fracassada naçom unitária que ainda chamam "Espanha".
Espanha é umha cousa que com o tempo encolhe. E um projeto fracassado de naçom unitária
Justo de la Cueva
Traduçom: Diário Liberdade
Olha: Há já tempo eu escrevim (e publiquei num livro) que Espanha é, sobretodo, umha cousa que com o tempo se encolhe. Como lhes passa a essas baratas t-shirts de propaganda após várias lavagens.
Repara bem nisto: quando alguém fala do Estado espanhol há que lhe pedir que, como se faz ao falar de um vinho, precise a "colheita". Porque se se tratar, por exemplo, do Estado espanhol "colheita" de 1583 entom inclui, entre outros muitos territórios, Portugal, o Brasil, as Índias portuguesas, os Paises Baixos, a Sicília, Nápoles, o Milanesado, o Franco Condado, o Roselhom, a Sardenha, as ilhas Filipinas, o México, o Peru e muitas outras partes da América.
Mas se se tratar do Estado espanhol "colheita" de 1699 já nom inclui nem Portugal nem o Brasil nem as Índias portuguesas nem os Países Baixos nem o Roselhom nem a Sardenha nem o Franco Condado nem o Haiti nem a Jamaica.
Se se tratar do Estado espanhol "colheita" de 1833, já nom figuram nele (perda descomunal!) nengumha das extensíssimas partes da América continental que ainda no artigo 10 da Constituiçom espanhola de 1812 (que é precisamente o documento que expressa a primeira tentativa frustrada de construir Espanha como naçom unitária) se enumeravam como partes do território espanhol. Nesse artigo 10, di-se que som território espanhol: "na América setentrional, Nova Espanha com a Nova Galiza e na península do Iucatám, a Guatemala, províncias internas de Oriente, províncias internas de Ocidente, as duas Flóridas. Na América meridional, a Nova Granada, a Venezuela, o Peru, o Chile, províncias do Rio da Prata e todas as ilhas adjacentes no mar Pacífico e no Atlántico". Se traduzirmos esse texto à realidade internacional de hoje, isso significa que em 1812 eram território espanhol e em 1833 já nom a Argentina, o Chile, o Peru, a Bolívia, o Paraguai, o Uruguai, o Equador, a Colômbia, a Venezuela, o Panamá, a Costa Rica, as Honduras, a Nicarágua, El Salvador, a Guatemala, o México e, entre outros, os hoje Estados dos EUA a Califórnia, Oregom, Novo México, Nevada, Arizona, Utah, o Texas e a Flórida.
Se se tratar do Estado espanhol "colheita" de 1899 também nom inclui já nem Cuba nem Porto Rico nem as Filipinas, recém perdidas. E se tratar, enfim, do Estado espanhol de Juan Carlos I, já nom inclui nem a Guiné nem Fernando Poo nem Sidi Ifni nem o Saara, que eram territórios espanhóis que ainda mandavam pitorescos solicitadores em Cortes com chilaba ao pseudoparlamento do ditador Franco quando eu estudava o ensino secundário.
Em resumo: é umha evidência que, desde Felipe II até agora, o território do Estado espanhol encolhe com o transcurso do tempo. Há desde entom aquisiçons de território, mas som ainda maiores as perdas. Essa evidência é a tragédia que corrói a alma dos nacionalistas espanhóis. Umha tragédia que é, ao mesmo tempo, causa e efeito de dous fenómenos:
1º Que os nacionalistas espanhóis nom sabem bem o que é Espanha. Há umha imensa quantidade de livros, panfletos e brochuras publicadas sobre os temas de "a que chamamos Espanha", "Espanha como problema", "Espanha sem problemas", "Espanha como enigma histórico", "a realidade histórica de Espanha", "os espanhóis como chegaram a ser tais?", etc, etc. Umha grotesca mostra recente dessa confusom produziu-se quando alguns dos mais furibundos nacionalistas espanhóis de hoje cometêrom em 1992 a pífia de protestar porque entre os fastos do V Centenário nom se incluísse a celebraçom também do V Centenário do nascimento de Espanha como naçom. Sem repararem que isso equivalia a reconhecer, contra as suas furibundas convicçons, que Navarra nom é Espanha, já que em 1492 Navarra ainda nom tinha sido invadida e conquistada pola mistura de mentiras, fraudes, falsificaçons, violência e torturas que dérom cabo da sua independência.
2º Que os nacionalistas espanhóis confundem Espanha com o Estado espanhol. Confusom longa e persistente que se sobrepom com a confusom sobre que é Espanha e inclusive sobre se há umha ou várias.
Nom sei se ouviste alguma vez umha malévola anedota europeia muito contada durante vários decénios desde 1948 até a queda do muro de Berlim. Essa anedota explica que "os franceses querem tanto a Alemanha que preferem que sejam duas". Pois repara: tal parece que os espanhóis queriam tanto a Espanha que diziam que havia várias. Diziam-no inclusive nos seus textos constitucionais. Porque o título II da Constituiçom de 1812 trata "Do território das Espanhas". E a Constituiçom de 1837, a de 1845 e as leis constitucionais de 1857 e 1864 sanciona-as e assina-as Dona Isabel II “Rainha das Espanhas”.
É essa confusom de Espanha com o Estado espanhol a que, unida ao paulatino e inexorável encolhimento do seu território, converte a História de Espanha na de umha longa decadência e leva os espanhóis a umha rara e recorrente obsessom por apagar até quatro séculos dessa História. É um facto curioso que os espanhóis sejam os únicos europeus que consideraram desejável amputar os três ou quatro últimos séculos da sua História. Giner de los Rios, Ortega y Gasset, Jose Antonio Primo de Rivera e Francisco Franco (para nom citar mais que uns poucos espanhóis muito conhecidos) coincidírom nessa obsessom. E dezenas de milhons de espanhóis (bastantes deles vivos ainda) tivérom que aprender nos grotescos textos escolares oficiais franquistas que entre o Glorioso Império Espanhol do César Carlos I e o Novo Estado de Franco só havia umha decadência que durou quase quatro séculos. O secretário-geral do PSOE, Felipe González, mostrou até que ponto nom pudo livrar-se da impregnaçom desses textos franquistas ao proclamar que desde a época do imperador Carlos nunca Espanha tinha tido internacionalmente o prestígio que agora tem.
É possível que agora estejas a pensar que todo isto pode ser muito interessante para os espanhóis, mas que nom tem interesse para os bascos. Se estiveres a pensar isso, estás totalmente enganado. Porque nos afetárom muito antes e continuam a afetar-nos no presente as diferentes soluçons que aos espanhóis tenhem tentado para todas essas confusons suas desde o segundo quinto do século XIX (1820-1840) até agora mesmo.
Como já che dixem na fita anterior, foi entom quando, perdidas “as Espanhas” do continente americano e fracassada por isso a primeira tentativa de construir Espanha como umha naçom unitária incluindo nela os territórios americanos e asiáticos, surge o nacionalismo espanhol em sentido estrito que tenta, pola segunda vez, construir Espanha como naçom unitária. Como Estado-naçom ou naçom-Estado, mas agora sobre e no território que continua a controlar na Península Ibérica e em alguns arquipélagos que ainda controla no Mediteráneo, o Atlântico e o Pacífico.
Repito-che também que essa foi umha tentativa fracassada porque ainda hoje "Espanha é um projeto fracassado de naçom unitária". Precisamente a segunda tentativa fracassada de realizar esse projeto o que empurrou os espanhóis para arrebatar aos bascos alguns instrumentos básicos definitórios da "soberania nacional" que ainda conservavam no primeiro quinto do século XIX. Por exemplo, o direito a emitir moeda própria, o direito a cobrar impostos aos seus nacionais, o direito a que só o Exército próprio pudesse recrutar para as suas fileiras, o direito a regular o próprio mercado e a colocar alfândegas nas fronteiras.
Mas convém que che esclareça agora algumhas cousas sobre a primeira tentativa (fracassada, repito, como todos até agora) de construir Espanha como umha naçom unitária. Essa primeira tentativa se concreta no papel no texto da primeira Constituiçom espanhola, a aprovada em Cádis em 1812 (houvo outra anterior, a de Baiona de 1808, que nom conta como Constituiçom espanhola porque foi decretada por um usurpador estrangeiro: José Napoleon). Parece-me útil ler-che agora a lista completa dos territórios que pretendem incluir nesse projeto de naçom unitária. O Título II da Constituiçom de 1812 começa com um Capítulo I que define qual é o território espanhol, que se intitula significativamente Do território das Espanhas e cujo primeiro artigo (o número 10 da Constituiçom, que antes te citei parcialmente) reza assim:
"Artigo 10. O território espanhol compreende na Península com as suas posses e ilhas adjacentes, o Aragom, as Astúrias, Castela a Velha, Castela a Nova, a Catalunha, Córdoba, Estremadura, a Galiza, Granada, Jaém, Leóm, Molina, Múrcia, Navarra, Províncias Vascongadas, Sevilha e Valência, as Ilhas Baleares e as Canárias com as restantes posses de África. Na América setentrional, a Nova Espanha com a Nova Galiza e a Península do Iucatám, a Guatemala, províncias internas de Oriente, províncias internas de Ocidente, a ilha de Cuba com as duas Flóridas, a parte espanhola da ilha de Santo Domingos e a ilha do Porto Rico com as outras adjacentes a estas e ao continente num e outro mar. Na América meridional, a Nova Granada, a Venezuela, o Peru, o Chile, províncias do Rio da Prata, e todas as ilhas adjacentes no mar Pacífico e no Atlântico. Na Ásia, as ilhas Filipinas e as que dependem do seu governo."