Em entrevista exclusiva, concedida de local ignorado na cidade, o ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos EUA disse que o governo dos EUA há anos invade computadores em Hong Kong e na China. A pedido de Snowden, esse jornal não divulgará detalhes de onde e como realizou essa entrevista.
Uma semana depois de revelar que o governo dos EUA há anos recolhe informação secreta de telefonemas e mensagens de e-mail dos cidadãos norte-americanos, Snowden disse que permanecerá em Hong Kong "até que me mandem partir", e acrescentou: "Tive várias ocasiões e oportunidades para fugir de Hong Kong, mas prefiro ficar e enfrentar o governo dos EUA nos tribunais, porque confio na lei de Hong Kong."
Em conversa franca, que durou uma hora, o norte-americano de 29 anos, que os EUA já acusaram formalmente por prática de crime grave, disse:
– que não é nem herói nem traidor: "sou um norte-americano";
– que o controverso programa PRISM da Agência de Segurança Nacional estende-se a pessoas e instituições em Hong Kong e em território chinês;
– que os EUA estão exercendo pressão diplomática abusiva [orig. bullying] sobre Hong Kong, para conseguir que ele seja extraditado;
– que o Estado de Direito e a lei em Hong Kong o protegerão de qualquer ataque pelos norte-americanos; e
– que teme pela própria segurança e pela segurança de sua família.
Snowden está em Hong Kong desde 20 de maio, quando deixou sua casa no Havaí. O movimento foi criticado por muitos, para os quais a cidade não tem meios para garantir-lhe qualquer proteção.
"Quem entende que cometi um erro ao escolher Hong Kong não compreende corretamente minhas intenções. Não estou aqui para esconder-me da justiça. Estou aqui para revelar inúmeros crimes que foram cometidos e continuam a ser cometidos" – disse Snowden.
Snowden disse também que, segundo documentos que o Washington Post recebeu, a Agência de Segurança Nacional dos EUA vem invadindo computadores em Hong Kong e na China desde 2009. Nenhum dos documentos revela qualquer tipo de informação sobre sistemas militares chineses – disse Snowden.
Entre os alvos da Agência de Segurança Nacional, segundo Snowden, sempre estiveram a Universidade chinesa, funcionários públicos, empresários e estudantes na cidade. Os documentos também mostram que a Agência de Segurança Nacional visou alvos também na China.
Snowden estima que a Agência de Segurança Nacional tenha conduzido mais de 61 mil operações de hacking em todo o mundo, com centenas de alvos em Hong Kong e na China. "Hackeamos os grandes roteadores da intenet, basicamente. Assim, temos acesso às comunicações de centenad de milhares de computadores, sem precisar hackeá-los um a um" – disse ele. – "Até a semana passada, o governo dos EUA operou livremente, sem qualquer respeito à opinião dos governados, sem buscar o consentimento dos cidadãos. Agora, isso acabou. Todos os níveis da sociedade exigem que o governo lhes preste contas e satisfações do que faz, e exigem o direito de supervisionar as ações do governo."
Snowden disse que distribuía as informações para comprovar a "hipocrisia do governo dos EUA, que diz que não espionaria a infraestrutura civil como seus adversários."
"O atual governo não apenas espiona os cidadãos: também tem medo de que a sociedade saiba que espiona. Por isso usará todos os meios, inclusive a intimidação por via diplomática, para impedir que as informações tornem-se públicas."
Desde as revelações chocantes da semana passada, Snowden tem sido demonizado por uns e elogiado por apoiadores, como Julian Assange, de WikiLeaks.
"Não sou nem traidor nem herói: sou norte-americano" – disse, acrescentando que se orgulha de ser norte-americano. "Sempre acreditei e continuo a acreditar na liberdade de expressão. Agi de boa fé, mas é direito do público formar opinião própria."
Snowden disse que não fez qualquer contato com sua família, e que teme pela segurança deles, tanto quanto por sua própria segurança.
"Nunca mais me sentirei seguro. As coisas são muito difíceis agora, em todos os sentidos, mas dizer a verdade ao poder nunca se faz sem riscos" – disse. – "Foi difícil, mas me alegra ver que o público global começa a manifestar-se contra esse tipo de violação sistemática de privacidade."
"A única coisa que posso fazer é confiar que sei fazer o que fui treinado para fazer e esperar que os governos do mundo recusem-se a deixar-se abusar pelos EUA e que resistam a perseguir pessoas que buscam asilo político."
Perguntado se o governo russo lhe oferecera asilo, Snowden respondeu: "Só posso dizer que me alegra que ainda haja governos que se recusam a deixar-se intimidar pela força."
Dezenas de milhares de apoiadores de Snowden assinaram petição em que pedem que os EUA perdoem Snowdem; e muitos têm doado dinheiro para constituir um fundo de ajuda.
"Agradeço muito pelo apoio público" – disse ele. – "Mas peço que prestem atenção ao próprio interesse do próprio público: guardem dinheiro para escrever cartas contra governos que desrespeitam a lei e pretendem que teriam algum direito de agir como agem."
"A verdade é que corri e corro grave risco pessoal para ajudar o público em todo o mundo, sejam norte-americanos, europeus ou asiáticos."
Tentamos contato com o consulado dos EUA em Hong Kong, mas ontem, feriado na cidade, ninguém atendeu o telefone.
Original em: http://goo.gl/AitPl
Tradução do coletivo Vila Vudu