O ascenso revolucionário em Síria levou à proliferação no País de uma grande quantidade de grupos guerrilheiros com maior ou menor proximidade das potências imperialistas, que atuam por meio de proxies(intermediários), o Catar, a Turquia, a Arábia Saudita e, em menor grau, a Jordânia.
A queda do regime de al-Assad é questão de tempo e somente se mantém no poder devido ao apoio da Rússia, da China, do Irã e da população alawita. Apesar de controlar as principais cidades, a começar por Damasco (a capital) e Aleppo (a principal cidade em termos econômicos), o regime tem perdido o controle de grande parte do País, no campo, nas regiões menores e no nordeste do País, que é controlado pelos curdos, apesar de, neste caso, existir uma espécie de acordo tático com al-Assad sob a base de não se envolver no conflito. O destino dos alawitas (ligados ao xiismo) no futuro próximo parece conduzir à formação de um semi-estado próprio no norte do Líbano.
A desestabilização da Síria somente pode ser compreendida levando em conta a própria desestabilização do Iraque, provocada pela invasão imperialista a partir de 2003. A resistência sunita começou logo em seguida e a dos grupos xiitas um a dois anos mais tarde. Estes acabaram se dividindo em cinco facções diferentes que, inclusive, lutavam entre si. A vitória do grupo ligado a Nouri al-Malaqui, com o apoio do imperialismo norte-americano, levou ao controle a região central do País, a região petrolífera de Basra, localizada no sul, e ao estabelecimento de uma ditadura que depende do apoio de uma facção rival, as milícias lideradas por Moqtada Sadr. Com a destruição dos serviços públicos, o desemprego atingindo a metade da população, 200 mil mortos diretos provocados pela guerra, ou mais de um milhão de mortos indiretos, e os milhões de refugiados e deslocados, o País se converteu num celeiro para os movimentos guerrilheiros, principalmente sunitas, que se concentraram na província ocidental de Anbar. E esse é um ponto fundamental para entender a situação.
De acordo com a imprensa imperialista, a situação no Iraque teria ficado relativamente sob controle, a produção de petróleo teria retomado os níveis da época de Saddam Hussein, os atentados teriam sido reduzidos, pelo menos nas regiões controladas pelo governo de al-Malaki e as tropas norte-americanas, após ter arrasado o País, estariam se retirando. Nada mais longe da realidade. Se bem é verdade que a guerra sectária entre sunitas e xiitas, que o imperialismo tentou acirrar, não prosperou, até porque em várias das tribos há componentes tanto sunitas quanto xiitas, os sunitas parecem ter recuado para recompor forças. Isto o demonstra o fato de que vários dos grupos guerrilheiros que atuam na Síria são uma extensão dos grupos iraquianos.
Nos últimos dias, foi anunciado de maneira oficial que al-Nusra se incorporou a Al-Qaeda no Iraque, donde ficaria o comando geral. Al-Nusra é um dos principais grupos que atuam na Síria, que não pertence ao ESL (Exército Sírio Livre) e que reivindica ter feito mais de 600 operações militares no último ano, contado com milhares de combatentes. A fronteira entre a Síria e o Iraque é, na prática inexistente, no deserto. Até poderia considerar-se que, no futuro, esses grupos poderiam tentar a criação de um estado próprio em Basra e parte do Iraque, o que junto com o aumento da autonomia curda aceleraria a "balcanização" e desestabilização da região.
Na Síria, existem grupos guerrilheiros nacionalistas compostos por várias nacionalidades do Transcáucaso. Por isso, não é muito difícil adivinhar para onde os movimentos migrarão com a queda de al-Assad. Isso é um dos fatores mais importantes que explica o enorme esforço do governo russo em segurar o regime de al-Assad.
Na Líbia, o novo governo que surgiu da queda do regime de Kadafi somente está conseguindo conter as milícias gastando mais do dobro do que gastava Kadafi na folha de pagamento do governo (de US$ 6,3 bilhões passou para mais de US$ 13 bilhões). A receita é muito cara em momentos de aprofundamento da crise e a Síria não é a Líbia; tem pouco petróleo e recursos naturais.
A desestabilização adquiri um caráter ainda mais generalizado quando se observa a iminente queda de Karzai no Afeganistão, com a tomada do poder pelo Talibã, formado basicamente por combatentes tribais. No vizinho Paquistão, o Talibã continua avançando nas áreas tribais, assim como o faz a guerrilha nacionalista que atua na província de Balochistão por onde deveria passar o gasoduto que tem origem no Irã.
Os regimes xiitas como contenção da crise revolucionária nacionalista
Um dos fatores que demostra a radicalização do movimento nacionalista árabe é que os xiitas, que a partir da revolução iraniana de 1979 tinham sido o principal fator revolucionário, se transformaram num elemento relativamente de contenção, sendo ultrapassados pelos ascenso das massas e do movimento nacionalistas sunita.
As recentes negociações sobre o programa nuclear iraniano, realizadas em Almaty, a capital de Cazaquistão, representam outro dos componentes da estratégia imperialista para conter o avanço dos movimentos nacionalistas.
O programa nuclear do regime dos aiatolás está sendo relativamente relegado a um segundo plano, apesar das enormes contradições existentes, que têm na origem o controle de gigantescas reservas de petróleo e gás e a influência sobre os movimentos xiitas na região. O governo do Irã mantém relações muito próximas com o governo de al-Malaki do Iraque, e poderia apoia-lo militarmente no caso do avanço das guerrilhas sunitas, a partir da província de Anbar, sobre as regiões centrais e do sul do País. No mesmo sentido, o Irã tem influência importante sobre os acontecimentos na Faixa de Gaza por meio do grupo Jihad Islâmica.
O Hizbollah, grupo nacionalista xiita que tem muita influência no Líbano, e em parte financiado é armado por Irã, também foi transformado num instrumento de contenção. No sul do Líbano, operam 11 mil capacetes azuis da ONU, com o beneplácito e colaboração das milícias do Hizbollah, com o objetivo de evitar que os movimentos guerrilheiros que atuam na Síria transbordem para o Líbano. Recentemente, foi formado um novo governo com um primeiro ministro que tem notórios vínculos com a monarquia da Arábia Saudita e que contou com o apoio do Hizbollah em troca de um maior controle por este dos órgãos de segurança.
O mesmo poderia ser dito em relação aos demais governos nacionalistas na região, a começar pela Rússia, a China e a Índia que têm enorme temor do crescimento dos movimentos guerrilheiros nos próprios países, o que além do próprio conflito militar poderia provocar um levantamento operário de grandes proporções.