Relata o jornal inglês Guardian (27 de Setembro de 2003) quedocumentos descobertos por um investigador nos arquivos doex-ministro da Defesa do governo inglês chefiado por HaroldMacMillan «revelam que em 1957 Harold MacMillan e oPresidente [dos EUA] Dwight Eisenhower aprovaram umplano da CIA e MI6 [serviços secretos ingleses] para encenarfalsos incidentes de fronteira como pretexto para umainvasão da Síria pelos seus vizinhos pró-Ocidentais e paraposteriormente "eliminar" o triumvirato mais influente deDamasco». E acrescenta: «o assassinato de três altasfiguras estava no cerne do projecto». Os três alvos do planoda CIA-MI6, oficialmente apadrinhado ao mais alto nível, eram«Abd al-Hamid Sarraj, chefe dos serviços secretos militaressírios; Afif al-Bizri, Chefe do Estado Maior sírio; e KhalidBakdash, dirigente do Partido Comunista Sírio».
O guião do que se passa nos dias de hoje parece ter sido escrito em 1957. Ainda segundo o Guardian, o plano passava por «criar pequenas sabotagens, incidentes e golpes de mãono interior da Síria […]. O relatório afirmava que, uma vezcriado o grau de medo necessário, seriam encenadosincidentes fronteiriços e confrontações junto às fronteiras deforma a criar o pretexto para uma intervenção militar iraquianae jordana. A Síria deveria «ser apresentada comopatrocinadora de complots, sabotagens e violência dirigidacontra os governos vizinhos» afirma o relatório. «A CIA e oSIS [MI6] devem usar os seus meios, quer no campopsicológico, quer no campo da acção, para aumentar atensão». Isso significava realizar operações na Jordânia,Iraque e Líbano que tomariam a forma de «sabotagens,conspirações e actividades musculadas de vário tipo» cujaresponsabilidade seria atribuída a Damasco». Até mesmo aterminologia não difere muito do que vemos hoje: «O planoprevia a criação dum "Comité Síria Livre" e o armamento de«facções políticas com capacidade paramilitar ou de acçõesde outro tipo» no seio da Síria. A CIA e o MI6 instigariamlevantamentos nacionais, por exemplo dos Druzos no Sul,ajudariam a libertar presos políticos detidos na cadeia deMezze, e instigariam a Irmandade Muçulmana emDamasco». Se a explicação para o objectivo político apareciaentão encoberta numa linguagem hoje datada, nem por issodeixa de ser claro que – então, como hoje – as preocupaçõesdos dirigentes das potências imperialistas anglo-saxónicas,eram tudo menos a democracia e a vontade popular: «Osautores do plano previam substituir o regime Baas/Comunistapor outro, firmemente anti-soviético, mas confessavam queisso não seria popular e “provavelmente seria necessáriocomeçar por medidas repressivas e pelo exercício arbitráriodo poder”».
Estas revelações trazem à memória outro ex-libris do cinismoe da provocação política mais abjecta, por parte dosdirigentes imperialistas: a Operação Northwoods (veja-se oAvante! de 28.12.01). Nesse documento de 1962, o Estado Maior General das Forças Armadas dos EUA respondia a umpedido do Ministério da Defesa para «uma descrição brevemas concreta de pretextos que possam servir de justificaçãopara uma intervenção militar dos EUA em Cuba». Ainconcebível lista de possíveis acções a serem levadas acabo pelos EUA, a fim de criar pretextos para a invasão,incluía uma campanha bombista em território dos EUA, oassassinato de refugiados contra-revolucionários cubanos e aencenação do derrube de um avião civil, acções cuja paternidade seria falsamente atribuída a Cuba.
Quem teime em acreditar na propaganda belicista doimperialismo dos nossos dias faria bem em estudar osdocumentos oficiais do próprio imperialismo relativos às suasconspirações, provocações e agressões.
Foto: Verdade Mundial - Operação Northwoods


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