Quase dois meses depois, em 16 de agosto, o Equador concedeu asilo a Assange.
O governo britânico, diante do anúncio do ministro das Relações Exteriores equatoriano, Ricardo Patiño, mandou a polícia cercar a embaixada para impedir a saída de Assange do local. Mais, chegou inclusive a ameaçar invadir o prédio e prender o perseguido.
Esse fato gerou uma enorme crise que colocou em relevo problemas fundamentais.
Em primeiro lugar, fica claro que o imperialismo em crise aboliu o direito de asilo. Assange é um perseguido político, embora o tenham procurado de maneira grotesca disfarçar essa perseguição com uma acusação falsa de “crime sexual”.
O mesmo ocorreu no caso de Cesare Battitsti, a quem o governo italiano queria extraditar a todo custo, procurando descaracterizar a natureza política da perseguição contra ele e procurando interferir numa decisão que cabia unicamente ao Brasil.
Nos dois casos, os estrangeiros buscaram refúgio em países latino-americanos e os países europeus, imperialistas, em questão, simplesmente não reconhecem o direito desses países de conceder asilo político, nem dos perseguidos de receberem tal proteção.
O chanceler equatoriano respondeu as ameaças à altura: “Não somos uma colônia britânica. Os tempos das colônias tempos já passaram.”
Patiño considerou o asilo adequado pois, segundo ele: “Há sérios indícios de retaliação por parte de um país ou países que se sentem afetados pela divulgação de informação confidencial [pelo site WikiLeaks], que pode pôr em causa a integridade de Julian Assange ou a sua vida” e ainda que “O sr. Assange não teria um julgamento justo nos EUA e não é inverossímil que lhe fosse aplicado um tratamento cruel e degradante”.
Quanto às ameaças do governo britânico, Patiño disse ainda: “Se as medidas anunciadas na comunicação oficial britânica se materializarem, serão interpretadas pelo Equador como um ato hostil e intolerável e também um ataque à nossa soberania, que exigirá uma resposta com grande força diplomática”.
O fato é que para o imperialismo a soberania dos países atrasados vai até o ponto em que não atinjam seus interesses. É o que se vê claramente no caso Battisti, em que o governo italiano queria invalidar a decisão das autoridades brasileiras e agora no caso Assange, em que a Grã-Bretanha ameaça passar por cima da convenção de Viena e ignorar um direito democrático elementar, de imunidade diplomática.
A resposta firme do chanceler equatoriano à tentativa do governo britânico de tratar o país sul-americano como colônia coloca em evidência um outro fato: é a própria Grã-Bretanha quem está no papel de colônia ao agir dessa maneira. Afinal, não é segredo que o verdadeiro interessado na prisão de Assange é o governo dos Estados Unidos e não a Suécia ou Inglaterra, que agem como verdadeiros serviçais dos interesses norte-americanos.
Essa situação veio à tona mais claramente após o 11 de setembro, quando o governo norte-americano impôs à Grã-Bretanha uma série de leis e medidas que visavam unicamente atender aos seus interesses. Afora o próprio papel cumprido por esse país dentro da Europa como um agente direto dos interesses norte-americanos no que diz respeito à guerra do Iraque, Afeganistão e uma série de outras ações e políticas, como é o caso justamente do Ato de Extradição de 2003. Editado logo após o início da Guerra do Iraque, esse ato dá poderes unilaterais aos Estados Unidos de exigir extradição até mesmo de suspeitos que estejam no Reino Unido ou pessoas que, dentro desse território, tenham transgredido leis norte-americanas.
É preciso exigir a liberdade de Julian Assange e lutar pelo direito de asilo e soberania dos países atrasados, como o Equador e o próprio Brasil, contra a perseguição tirânica dos governos imperialistas contra seus opositores. A luta por esses direitos é parte fundamental da luta contra o imperialismo, que se diz democrático, mas é o primeiro a passar por cima de suas próprias leis e convenções sempre que seja necessário para atender seus interesses.