O “Centro de Investigaciones Sociológicas” (CIS) espanhol vem de fornecer o avanço dos resultados do seu “barómetro” para julho de 2012. O estudo abrange nom apenas a Espanha, mas também os territórios nom espanhóis administrados por Madrid, como som a Galiza, o País Basco e os Países Cataláns, e é marcado pola crise capitalista, que fai com que o desemprego seja umha das três maiores preocupaçons de 80% dos habitantes do Estado espanhol, seguido polos “problemas de tipo económico” (46%).
Curiosamente, de um inquérito com 33 respostas possíveis, o terceiro principal problema é “a classe política e os partidos políticos”, sintomático do descrédito em que a falsa democracia burguesa está a cair no Estado espanhol, e consoante com a queda livre em apoio do partido no poder, o ultranacionalista espanhol Partido Popular (PP), que perde 8% de apoio desde novembro de 2011 –data das eleiçons. O mais salientável é que, ao invés do que vinha acontecendo nas últimas décadas, o PSOE –segundo partido em volume de votos no Estado, e favorável à política de cortes- nom está a obter nengum ganho com a queda do PP. Mantém-se por volta dos 30% que implicárom um terramoto nas instituiçons daquele partido burguês - nas eleiçons anteriores obtiveram 43% dos votos válidos.
E enquanto a instabilidade institucional vai atingindo aos poucos os degraus mais altos da pirámide política-burguesa –já há analistas que prognosticam que Rajói durará pouco mais de um ano-, o barómetro do CIS deita luz sobre temas muito interessantes em referência às naçons sem Estado administradas por Madrid. Parece que o ataque mediático e legislativo perfeitamente organizado contra a escassa autonomia destas está a ter um duplo resultado: de um lado, está a conseguir umha volta a opinions centralistas dos espanhóis. Do outro está a fomentar um crescimento das consciências nacionais no País Basco, a Galiza e a Catalunha, acompanhados da clarificaçom e assunçom, em alguns casos, do independentismo como única saída à opressom espanhola, sem depender de “autonomias” nem outras esmolas de Madrid –facilmente retiráveis em tempos apropriados para isso, como se está a comprovar.
A autodeterminaçom e a independência: único caminho seguro para a sobrevivência das naçons oprimidas
Quatro a cada dez habitantes do Estado espanhol querem voltar a um Estado central unitário ou roubar competências às Comunidades Autónomas. Assim de contundente é a ameaça espanholista sobre o pouco de liberdade que a Galiza, os Países Catalans e o País Basco mantenhem, junto com outros territórios do Estado espanhol com diferentes níveis de consciência nacional (Andaluzia, Astúrias, Aragom...) –em qualquer caso bastante distantes dos daqueles povos.
O avanço feito polo CIS corresponde ao inquérito realizado em julho, e nom esclareceu ainda resultados pormenorizados territorialmente. Isso é: a média de 4 em cada dez corresponde ao conjunto do Estado, sem diferenciar entre Espanha e outras naçons. Pode-se, portanto, avançar que a maior parte das pessoas favoráveis a agredir os países sem Estado deve concentrar-se precisamente fora desses países, atingindo assim médias que serám muito superiores nessa área, e anseios de maior autonomia nos territórios oprimidos.
Essa suposiçom parece apoiada quando cruzamos resultados às preferências de organizaçom territorial com aqueles de voto. Assim, votantes do Partido Popular (ultradireita nacionalista espanhola) e de UPyD (ultradireita nacionalista espanhola) som os mais centralistas, respetivamente, com 56% e 65 % dos seus votantes a favor de um Estado espanhol ainda mais centralizado. Entretanto, votantes de PSOE (ex-social-democratas convertidos a social-liberais espanhóis) e IU/ICV (social-democratas espanhóis coligados com social-democratas e verdes autonomistas cataláns) apostam maioritariamente na manutençom do atual estado das autonomias, com 38% e 37% para essa opçom, que assegura a submissom das naçons oprimidas.
Os e as votantes dos católico-liberais nacionalistas cataláns de Convergència i Unió (CiU) apoiam o reconhecimento da liberdade para a autodeterminaçom pola independência em 58%, e no grupo que o CIS classifica de “Outros” (votantes de partidos políticos com menos votos[1]), composto principalmente por forças nacionalistas ou independentistas, 39% dos e das votantes som a favor desse direito.
Incoerência de Izquierda Unida
Um dos resultados mais chamativos do estudo do CIS é o de Izquierda Unida (IU), social-democratas espanhóis autoproclamados federalistas... ao que parece contra a vontade das e dos seus próprios votantes.
Este partido recentemente apelava a construir umha “Syriza galega”, na qual estaria esta formaçom junto com outra do campo reformista autodeclarada independentista e recentemente constituída: Anova-IN, um grupo de partidos nacionalistas galegos de esquerda e altermundistas.
Porém, no Estado espanhol (espaço referencial de IU) um a cada quatro dos e das suas votantes querem re-centralizar a administraçom, e 37% optam por manter as atuais Comunidades Autónomas, um sistema de cessom unilateral de Madrid de algumhas competências, revogáveis por Espanha mesmo através da intervençom do exército, como prevê a Constituiçom espanhola.
Por outro lado, a incoerência de IU com a vontade dos seus votantes demonstra-se polo facto de que apenas 12% som a favor de reconhecer um direito tam básico como o de autodeterminaçom.
Crescimento do independentismo
Os resultados do barómetro do CIS nom fazem mais do que confirmar o esgotamento do quadro autonómico, um invento da chamada “Transición”[2] espanhola para relaxar temporariamente as tensons territoriais derivadas das legítimas reinvidicaçons nacionais de País Basco, Catalunha e a Galiza.
Consoante esse esgotamento, cresce o desacordo com o modelo e radicalizam-se as posiçons. De um lado, volta o centralismo espanhol mais ultra liderado por vozes como a de Rosa Díez (UPyD), Esperanza Aguirre (PP) ou o próprio presidente espanhol Mariano Rajói.
Do outro, as posturas independentistas crescem nas naçons ‘amansadas’ polo Estado autonómico, se bem faltam dados concretos por naçom para este parámetro:
No País Basco, os e as independentistas abertzales –ilegalizados eleitoralmente durante anos por ordens de Madrid- gozam de um apoio sem precedentes. Bildu EH -coligaçom entre abertzales de esquerda e social-democratas para concorrer às eleiçons à Comunidade Autónoma Basca- está pola primeira vez na história em disposiçom de obter o governo, sendo a outra força candidata também do campo nacionalista basco, embora neste caso da direita (PNV-EAJ). Ainda, o sindicalismo de classe independentista avança em Euskal Herria convocando mobilizaçons e greves com umha foça à que só a dos sindicatos nacionalistas galegos se pode comparar.
No Principat de Catalunya, nos anos recentes destaca o progressivo aumento de posiçons independentistas, até em junho deste ano, segundo dados do Centre de Estudis d’Opinió (CEO), haver umha maioria de 51% de cataláns e catalás pola independência, frente a apenas 21% contrários e 21% que se abstenhem. Essa postura vem apoiada pola construçom de estruturas próprias de unidade popular (Candidatures d’Unitat Popular -CUP, concorrendo a eleiçons municipais com notável sucesso) e por manifestaçons em defesa da língua e do sentimento nacional, assim como de consultas populares pola independência. Em Valência, que junto com a Catalunha fai parte dos Países Cataláns, a situaçom é entretanto de forte assimilaçom, e nas Ilhas Baleares as agressons do PP contra a língua tenhem resposta nas ruas.
Na Galiza, que acabou de celebrar a 25 de julho o seu Dia Nacional, há umha reconfiguraçom do campo da esquerda, tanto da reformista como da revolucionária, marcado pola cisom de partidos do Bloque Nacionalista Galego (BNG), ferramenta autonomista que até agora tem assumido o Estado autonómico. É um processo ainda em andamento, mas há umha redireçom das forças reformistas –incluído o próprio BNG- para assumirem discursos mais ou menos soberanistas, mas ainda longe dos que mantenhem os seus parceiros políticos na Catalunha e no País Basco, enquanto o independentismo revolucionário vive o seu próprio momento de transiçom, em posiçons ainda minoritárias.
Notas
[1] Dos quais os principais som Amaiur (esquerda independentista basca), PNV (dereita nacionalista basca), ERC (socialdemocratas independentistas cataláns), BNG (socialdemocratas nacionalistas galegos), CHA (esquerda nacionalista aragonesa), CA-NC (direita nacionalista canária), Compromís-Q (socialdemocratas autonomistas valencianos), FAC (ultradireita regionalista asturiana pró-espanhola) e Geroa Bai (esquerda independentista basca).
[2] Período de transiçom entre a ditadura franquista e a democracia burguesa atual, com continuidade de grande parte das estruturas políticas, militares e jurídicas do Franquismo, ocupadas em muitos casos polas mesmas pessoas (o caso mais flagrante talvez seja o do ex-ministro Manuel Fraga) e sem qualquer classe de processo contra os e as autoras da repressom fascista. A transiçom espanhola foi logo tomada como modelo polas ditaduras latino-americanas.
Fotos do Diário Liberdade - 1. Manifestaçom independentista galega de Briga, a 25 de julho de 2012, arrodeada pola polícia espanhola / 2. Massivo Dia Nacional da Catalunha, a 11 de setembro de 2011.