Os massacres promovidos pelo regime sírio na cidade de Houla, em maio deste ano, representaram um ponto de virada na crescente desagregação do governo de Bashar al-Assad devido às crescentes dificuldades para conter o avanço da revolução que estourou a 16 meses. Recentemente, novos massacres aconteceram em Douma, na periferia de Damasco, Hama e em outras localidades. O número de mortos já ultrapassa os 16 mil.
Às crescentes manifestações populares nas ruas das principais cidades do País, somam-se os enfrentamentos militares contra o regime. As dissidências internas têm se acentuado por meio das deserções em massa de altos oficiais do exército e até do embaixador em Iraque. A fuga do Brigadeiro General Manaf Mustafa Tlass, da Guarda Republicana (elite do exército sírio) no início deste mês, teve um impacto especialmente importante na desagregação do governo sírio, pois a família Tlass tem sido um elemento importante da garantia do apoio da maioria sunita à minoria alawi que está no poder.
A imprensa imperialista mundial tem aumentado a campanha para mostrar a decadência e a brutalidade do regime sírio e a necessidade de ser substituído por um “governo democrático”. Mas, conforme começou a ser revelado em detalhes pelo Wikileaks, em cima dos mais de 2,4 milhões de e-mails que vazaram do governo sírio, além das contradições, existe uma concertação da reação mundial para conter o contágio revolucionário na região. O objetivo do imperialismo é conter o movimento revolucionário no Oriente Médio, principalmente nos países do Golfo Pérsico. As monarquias do chamado Conselho de Cooperação do Golfo [Pérsico] são responsáveis pela maior parte da produção do petróleo mundial, que é vendido em dólares norte-americanos e configura a base da ditadura do dólar e da especulação financeira.
O que significa a “solução pacífica” para a Síria?
O aumento da revolta das massas populares na Síria tem provocado a escalada dos acordos e conchavos promovido pelo imperialismo e a reação mundial.
Os imperialistas, liderados pelo imperialismo norte-americano, estão priorizando a estratégia da intervenção indireta, por meio do financiamento dos setores pró-imperialistas, o que é feito, principalmente, mediante as monarquias da Arábia Saudita e do Catar.
Na recente reunião celebrada na cidade de Genova, Itália, representantes dos governos dos EUA, Grã Bretanha, França, Turquia, Catar e Kuwait tentaram estabelecer as bases para uma “solução pacífica”. O fato das potências imperialistas evitarem uma agressão militar direta na Síria revela o enfraquecimento provocado pelo aprofundamento da crise capitalista mundial.
O incremento da intervenção militar imperialista na Síria, por meio de bombardeios aéreos por exemplo, como foi feito na Líbia, dificilmente acontecerá antes das eleições presidenciais de novembro nos EUA. Uma eventual vitória de Mitt Romney, poderia levar a uma mudança da estratégia militar no início de 2013.
A recente visita de membros do CNS (Conselho Nacional Síria) a Moscou revela os esforços do governo russo para tentar costurar um governo de transição, nos próximos meses, que garanta os seus próprios interesses no País.
O governo Obama tem mantido conversações secretas com o governo Putin com o objetivo de ajudar a alavancar a candidatura à reeleição devido ao forte desgaste provocado pelo aprofundamento da crise capitalista nos EUA. No mesmo sentido pode ser interpretada o relaxamento das posições do governo russo sobre a invasão do Afeganistão e até a reabertura das linhas de suprimento das tropas pelo Paquistão. O governo paquistanês é um candidato a membro da OCS (Organização para a Cooperação de Xangai), que é controlada pelos governos da Rússia e da China. A moeda de troca de Obama tem sido diminuir a pressão militar sobre o governo da Síria.
As monarquias do Golfo Pérsico têm se limitado a prover apoio financeiro aos setores pró-imperialistas sírios, mas dificilmente se envolverão em combates diretos devido ao perigo da revolução se espalhar na região. Uma amostra do potencial explosivo de um ataque militar direto pode ser visto no fracassada intervenção no Iêmen. A mesma situação acontece em relação à Jordânia, que inclusive fechou as fronteiras para o abastecimento do ESL (Exército da Síria Livre).
O papel das potências regionais: Turquia e Rússia
O governo do primeiro ministro turco, Recep Tayyip Erdogan tem sido um dos principais pontos de apoio do ESL. No ESL atuam milícias autônomas, ligadas aos grupos tribais, e setores abertamente pró-imperialistas que têm sido impulsionados e financiados pelo imperialismo e a reação mundial.
Após a recente derrubada do caça avião militar turco Phantom RF-4E no espaço aéreo sírio, o exército turco qualificou a Síria como “um estado hostil” e impôs uma zona de exclusão de quatro milhas na fronteira, reforçada por caças F-16, estacionados na base da OTAN de Incirlik, e a alocação de tanques, baterias de mísseis e artilharia pesada, com alcance de 800 quilômetros, na fronteira.
Para o governo turco, existe o risco de escalar a guerra com o movimento separatista curdo, liderado pelo ELK (Exército de Libertação do Curdistão) que atua na região de Anatólia, e que o governo sírio tem ajudado a se fortalecer nas regiões fronteiriças como contraponto à atuação turca.
Por outro lado, o governo turco, que tem pretensões de tornar-se uma potência regional, não pode se dar ao luxo de entrar em confronto direto com o governo da Rússia que tem mais de 100 mil trabalhadores e assessores militares na Síria. A Turquia é o segundo maior cliente da Gazprom, a gigantesca empresa russa de gás.
Os planos energéticos da Turquia dependem do gás da Rússia e do Irã. Há um ano, foi assinado um contrato, por US$ 10 bilhões, entre os governos do Irã, Iraque e Síria com o objetivo de construir um gasoduto para levar gás iraniano do campo de Sul Pars para os dois países e depois para a Turquia, com o objetivo de, posteriormente, conecta-lo à Europa. Esse gasoduto tem importância estratégica para o imperialismo europeu, pois diminuiria a dependência energética da Rússia.
O governo da Rússia tem sido a principal fonte de apoio do governo de al-Assad devido aos interesses russos no País – importantes contratos de vendas de armas e de obras no setor de petróleo e da construção civil; a única base russa com saída ao Mediterrâneo.
O aumento da disputa pelas fontes de matérias primas e os mercados secundários de armamentos, por parte das potências imperialistas com as potências regionais, têm se exacerbado, no último período, devido ao aprofundamento da crise capitalista mundial.
O governo da Rússia detinha importantes acordos com o governo de Saddam Husseim e Muammar al-Gaddafi. Após as intervenções militares imperialistas no Iraque e na Líbia, os russos perderam importantes contratos e deixaram de receber o retorno de empréstimos bilionários.
Da mesma maneira, o governo da China também tem importantes contratos com o governo de al-Assad relacionados às obras de infraestrutura.
Na base naval de Tartus, localizada a 90 quilômetros de onde o avião Panthom RF-4E foi derrubado, há navios de guerra russos ancorados. Um conflito militar em larga escala poderia colocar em movimento as tendências revolucionárias em toda Ásia. O imperialismo é ciente do risco; basta lembrar a invasão da Georgia, cujo governo era candidato a ingressar na OTAN, por tropas russas em 2008.
Até que ponto os interesses de uma ou outra potência, regional ou imperialista, conseguirão se impor, dependerá da capacidade de contenção do movimento revolucionário que está em andamento. O avanço da crise capitalista para os países centrais, impulsionado também pelas revoluções nos países atrasados, adicionará novos capítulos ao processo, enfraquecerá ainda mais o imperialismo e a burguesia mundial e fortalecerá a luta das massas trabalhadoras que começam a se levantar nessa atual etapa pela derrubada do capitalismo.