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180413 o espirito da colmeia cartazEstado espanhol - PGL - [José Paz Rodrigues] Com o filme “Os girassóis cegos”, a que dediquei o artigo anterior da série, e o presente “O espírito da colmeia”, quero lembrar, e ao mesmo tempo recuperar, a nossa memória histórica e reivindicar como modelar, do ponto de vista da educação e da cultura, o período republicano. Do qual vem de comemorar-se neste 14 de abril os 82 anos da proclamação da Segunda República.


Em ambos os dous filmes a ação transcorre no sinistro após-guerra civil, uma vez que, depois de uma guerra de três anos, iniciada pelo exército fascista de Franco, por desgraça, derrubou um governo legítimo e o sistema político republicano, que ainda hoje em dia não pudemos recuperar.

Victor Erice, um excelente diretor, nesta sua segunda longa-metragem resolve retratar a infância de duas meninas num cenário triste e moroso do interior de Castela no ano de 1940, quando Franco já se tinha consolidado no poder. Vivendo uma brutal ditadura, ao menos até os anos setenta, Erice consegue realizar um filme alegórico que faz possível muitas leituras, sendo assim o único jeito de se escapar de uma censura implacável. Realizado em 1973, em vida de Franco, que faleceu em novembro de 1975, este formoso filme tem como extrato uma sutil crítica ao regime e, porque não, de associação da figura do ditador com a do monstro “Frankenstein”, outro filme clássico realizado por James Whale em 1931. Resulta curioso que até os nomes são similares.

A base deste filme é claramente a poesia, e não a prosa, sendo fundamental a fotografia de Luis Cuadrado, que capta a solidão e o tédio da vida no interior, alternando imagens de interior, algumas com um filtro dourado para emular a cor do mel, e os rostos de Ana, a protagonista infantil, com paisagens vastas dignas do melhor cinema clássico. Erice, com a ajuda do grande fotógrafo, pretende e consegue com grande mestria exibir um painel de uma vida no interior de Castela naquela época, além de mostrar como era uma verdadeira infância naquelas condições. Na nossa era da Internet e de múltiplos e variados brinquedos e atividades para as crianças, resulta difícil compreender isso, mas para uma rapariga como Ana os dias se arrastavam, com pouco para se fazer ou brincar, e ver um filme tão fascinante como “Frankenstein” era um evento suficiente para realmente mudar a sua vida.

Com grande sensibilidade o diretor do filme consegue enfatizar tal solidão ao jamais focar a família de Ana junta, pois mesmo nas cenas de jantar cada membro é mostrado sozinho, não há um plano geral, para poder ressaltar o clima reinante do filme, a época e o momento. Eis o grande mérito do realizador, acertando desde o princípio, ao mostrar a chegada de “Frankenstein” ao lugar dos protagonistas, o vazio que é a vida dos pais de Ana e, claro, ao focar a própria menina com um carinho que poucas vezes diretores conseguem com crianças. Mesmo consegue filmar a Ana realmente assistindo a este filme pela primeira vez na vida, junto com todas aquelas crianças, e a imagem do seu rosto expressando medo e curiosidade simbolizam o que seria o filme de Erice daquele momento em diante. A menina sorri apenas uma vez no filme inteiro, e está quase sempre com um semblante sério ou triste, mas mesmo assim é encantadora, um ímã para os nossos olhos, talvez até por nunca interpretar, ela apenas e tão-somente é aquela Ana, uma criança tão nova que surpreende na sua magistral interpretação.

O final do filme, emulando a famosa cena, por tantos anos censurada, do clássico de Whale é tão lírica, sutil e tocante que pode chegar a causar inveja em outros muitos cineastas. Seja encostando a cabeça nos trilhos de um caminho-de-ferro, auxiliando um maqui ferido, escolhendo cogumelos ou sendo aterrorizada por sua irmã, a menina cresce aos poucos e começa a descobrir o quão fascinante pode ser o mundo, desde que não se tenha medo para isto descobrir. Na sua varanda, ao final, está todo o seu futuro, que há ter que enfrentar de qualquer maneira naqueles tristes anos 40, o mesmo futuro que um país, décadas depois, finalmente observaria, com certo receio mas abundante esperança, depois da morte de aquele que foi certamente um ditador muito mais assustador que o monstro de Frankenstein. E que, como traidor à República e o seu governo legítimo, provocou uma guerra civil entre irmãos, que gostaríamos que não voltasse a repetir-se nunca mais.

Ficha técnica do filme:

Título original: El espíritu de la colmena (O espírito da colmeia).

Diretor: Víctor Erice (Espanha, 1973, 97 min., a cores).

Diretor artístico: Jaime Chávarri. Produtor: Elías Querejeta.

Roteiro: V. Erice e Ángel Fernández Santos.

Fotografia: Luis Cuadrado. Música: Luis de Pablo.

Atores: Ana Torrent (Ana), Isabel Tellería (Isabel), Laly Soldevila (a mestra Dona Lucia), Fernando Fernán Gómez (Fernando, o pai), Teresa Gimpera (Teresa, a mãe), Miguel Picazo (o médico), José Villasante (Frankenstein) e Juan Margallo (o maqui fugitivo).

Prémios: Concha de Prata ao melhor filme no Festival Internacional de Donosti em 1973 e “Hugo de prata” no Festival de Chicago do mesmo ano.

Argumento: Rodada na aldeia segoviana de Hoyuelos, onde naquela altura se está a projetar o filme “O doutor Frankenstein”, no enredo, a história de duas pequenas irmãs Ana e Isabel, que moram em terras rurais de Castela, na década de 40, em pleno após-guerra civil. Filhas de um apicultor, elas frequentam a escola de uma aldeia isolada, na área rural do país. Certo dia, um comboio itinerante exibe para os estudantes o clássico do horror 'Frankenstein' e Ana fica fascinada pela figura do monstro, mas não entende muito bem o que ocorreu no filme. Enquanto o pai passa os dias cuidando de colmeias e a mãe espera em vão um amor do passado que nunca surge, ela busca respostas com a irmã mais velha. Durante uma conversa, Isabel diz a Ana que as mortes da criança e da criatura são pura fantasia cinematográfica. Ela garante que o monstro está vivo e mora num galpão abandonado perto da casa delas. Segundo Isabel, Frankenstein é um fantasma, e sua aparência externa grotesca é apenas uma roupa. Empolgada com a possibilidade de encontrar e conversar com a criatura, Ana passa a frequentar o tal galpão com assiduidade, ainda que ele esteja quase sempre vazio. É lá que ela vai manter um encontro inesperado que mudará para sempre a sua maneira de ver a vida.

A escola e "a escola da vida" num filme cheio de poesia:

Este filme, rodado no ano 1973, quando o ditador Francisco Franco (1892-1975) ainda estava vivo, causou um grande impacto na sua estreia. A referência ao franquismo é importante, pois, sem ser obra política de maneira explícita, O Espírito da Colmeia faz sutil referência às condições da Espanha logo após a Guerra Civil (1936-1939). Tudo se passa num povoado de Castela, em 1940, isto é, na fase de consolidação do governo fascista que derrotara os republicanos e iria reinar durante quase 40 anos sobre o Estado Espanhol. Há um acontecimento importante que movimenta a localidade em que se desenvolve a ação, logo nas primeiras cenas, a chegada de um cinema itinerante, que trará grande atração aos moradores: a projeção de Frankenstein, o clássico do terror de James Whale, filme de 1931, com Boris Karloff no papel do Monstro.

Não foi a primeira adaptação do romance de Mary Shelley, mas foi a que fixou no imaginário popular o retrato da fera: grandão, andar desajeitado, cara amassada, mãos em forma de garra, toscos elétrodos fincados no pescoço. É a essa obra que o povoado assiste, de olhos arregalados, no cinema improvisado armado sob uma lona. E, de olhos ainda mais abertos que os outros, estão as duas raparigas, que serão as protagonistas da história. Uma delas, Ana Torrent, com seu olhar profundo, ficou famosa no cinema mundial. Ana é também o nome da sua personagem e ela vê o filme no qual também há uma rapariguinha que vê o Monstro e deseja brincar com ele. Chega a oferecer-lhe uma flor, mas… Ana (pois este é também o nome da personagem) fica impressionada, junto com a sua irmã Isabel. Elas vivem com o pai, Fernando e a mãe, Teresa. Todas as personagens principais têm os mesmos prenomes dos atores. Fernando é apicultor, e escreve textos de grande densidade filosófica. A mãe também escreve. Cartas a um amante, que talvez tenha existido, talvez seja imaginário.

O ambiente é silencioso. A casa enorme, mal conservada, cheia de quartos e dependências. Os vidros da janela são emoldurados como os alvéolos de uma colmeia. Tudo é metafórico e alusivo nesse filme de ritmo pensativo e luz esplendorosa. E tudo passa, desde o início, a ser “narrado” pelo ponto de vista do olhar dos lindos olhos negros e profundos de Ana. As duas meninas se entregam a pequenas brincadeiras e dão sustos uma à outra. Obviamente, como todos sabem, quando crianças fingem um medo de mentira é porque precisam controlar, psiquicamente, um medo que de facto existe. Esse medo está em toda a parte, na vastidão do campo nu, no vento que sacode as árvores, na luz que bate no vidro da janela, com seus gomos em forma de alvéolos, no comboio que passa pelos trilhos e se afasta da vila. Nos cogumelos venenosos, que o pai ensina a distinguir daqueles que são bons para comer.

Em certo sentido, O Espírito da Colmeia é um tratado sobre o medo. A casa grande é uma colmeia, a Espanha toda é uma colmeia, disciplinada, hierarquizada, com papéis bem definidos de forma rígida. Ai de quem não se adequar a eles. Por exemplo, há um acontecimento adicional quando aparece um homem ferido e se esconde na fazenda. Ana dá-lhe alimento. É um soldado republicano, um maqui fugido dos franquistas. A relação da criança com o adulto escondido é das mais misteriosas. Aliás, tudo é mistério pois, filtrada pelo olhar infantil, a realidade mostra-se um tanto mágica, como imersa nas brumas de um sonho, talvez de um pesadelo do qual não se consegue despertar. Não, esse pesadelo não é construído em tons escuros, segundo o clichê clássico. É um pesadelo solar, iluminado pela luz do campo castelhano, essa luz que os pintores buscavam captar em suas telas e está reproduzida na fotografia magnífica deste filme intrigante. Sempre podemos decifrá-lo e ainda assim ele nos reservará alguns segredos. Depois de vê-lo, ficamos com muitas imagens na cabeça. A mais permanente: os olhos negros de Ana. Insondáveis.

Como o filme foi realizado nos últimos anos da Ditadura, Víctor Erice teve que usar o instrumento habitual para contornar a censura, a metáfora. Desta maneira o filme é uma alegoria e uma alusão das sociedades que vivem sob as ditaduras: ordenadas, organizadas, mas desprovidas de qualquer imaginação. Por isso a realização está mais próxima da poesia que da prosa. A fotografia em tons de mel remete-nos para a visão doce da infância e para as longas planícies que isolam as aldeias que nelas vivem. E, como o filme começa com a projeção de outro, o diretor lembra-nos a importância do cinema e da imaginação nas nossas vidas. O título foi tirado do livro da Maurice Maeterlinck A vida das abelhas. Erice explica:“O título, na realidade, não me pertence. Foi extraído de um livro, na minha opinião, o mais belo já escrito sobre a vida das abelhas, do grande poeta e dramaturgo belga. Nessa obra, Maeterlinck utiliza a expressão “O espírito da colmeia” para referir-se a esse espírito todo-poderoso e enigmático a quem as abelhas parecem obedecer, e que a razão dos homens jamais chegou a compreender”. Para que é que serve o coração? Não serve para respirar, isso sabe-se. Mas a resposta correta à pergunta da mestra Dona Lucia, não a sabiam as meninas Ana e Isabel, coitadas. E era caso para tanto pois não é na escola, nem na anatomia, que se devia procurar a resposta.

No final do filme, Erice não permite a reinvocação do espírito de Frankenstein. Ana abre a janela, fecha os olhos e diz “sou Ana, sou Ana”. Mas nada. O “amigo” não aparece e o filme termina. De alguma maneira, este formoso filme apresenta as lembranças dos autores do roteiro, na década de 40: as aulas de anatomia, as tabuadas cantadas em voz alta, mas também o saltar das fogueiras do São João, o apanhar cogumelos pelo bosque ou o pintar os lábios com o sangue de uma ferida que nos fez o gato. Outro dos temas importantes do filme é o amostrar a desagregação da família como símbolo da segregação do país pela terrível guerra fratricida. Formosas são as sequências em que a locomotiva do comboio é um “monstro que deita fumo” e que leva as cartas da mãe e traz o maqui ferido. Ou a do plano da entrada das crianças na escola ao som da flauta. Também o momento em que Ana põe os olhos a D. José, o boneco da aula de anatomia que a mestra usa como recurso didático. A mestra, na mesma diz: “D. José já pode ver”. Mas afinal pergunta “Para que é que serve o coração?” Serve para ver o que os olhos não veem. Por isso é que D. José, tendo já olhos, não conseguiu ver. Era um boneco ou manequim. Só nós é que vimos. E nunca deixamos de o fazer desde então.

O cinema de Erice é um estilo de poesia em imagens, único, formoso, extraordinário, também presente nos seus outros filmes. Para ele, e para os que amamos as crianças como pedagogos que somos, a infância é um universo em que as mesmas sombras, ou os mais singelos sons, conformam constelações sensoriais, que nos fazem acreditar em que tudo é possível. À medida que medramos cresce também a nossa autoconsciência, mas se reduzem as nossas perceções. Para Erice, que sabe muito bem que nunca seremos tão sábios como quando eramos crianças, a consciência não é veículo da beleza pura, senão a perceção. Na realidade, é uma declaração de princípios estética, que se opõe ao cinema narrativo, lógico, em favor de um cinema sensorial, em que as emoções, a afetividade e os sentimentos e imagens mais singelas são as que ditam o verdadeiro senso. Tudo isto faz de O espírito da colmeia uma verdadeira obra-mestra do cinema, não só europeu, como também mundial. Um relato de iniciação à vida, como um conto infantil, posto já de manifesto nos títulos de crédito iniciais, construídos sobre a base de desenhos de crianças da escola infantil (curiosamente das mesmas Ana, Isabel e os seus irmãos). Com a nota introdutória de “Era uma vez” e o inevitável “Fim”. A localização, um lugar qualquer da Castela, é imprecisa para significar que a história que nos conta é comum a todos, com independência de onde moremos. A época em que sucedem os acontecimentos que se narram, 1940, um ano depois de terminar a guerra, fala-nos de sonhos rotos.

Temas para refletir, elaborar e comentar:

Depois de ver este formoso filme, organizar um cinema-fórum, para comentar sobre as peculiaridades da linguagem cinematográfica utilizada pelo grande diretor Erice: uso de planos, movimentos de câmara, jogo com a luz e a música, recursos cinematográficos empregados… Igualmente sobre a psicologia de todas as personagens que aparecem no filme. E análise do contexto histórico e político em que transcorre a ação.

Procurar informações sobre este formoso filme, em bibliotecas e na Internet, consultando os numerosos guias e monografias que existem sobre este filme tão formoso. Com todo o material encontrado elaborar depois uma monografia própria, um guia, um mural ou um roteiro.

Organizar um debate-papo ou uma discussão guiada, como técnica de dinâmica de grupo, para analisar e comentar aspetos tão importantes como o entender os sentimentos de abatimento de uma sociedade do após-guerra. Também compreender o contraste entre a resignação de uma geração e a curiosidade da outra. Idem o nascimento de novas classes sociais, ademais de analisar as caraterísticas de uma escola que funciona em plena ditadura, como a que aparece no filme.


José Paz Rodrigues é académico da AGLP, didata e pedagogo tagoreano.

 

 


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