Já na inauguração da mostra, na noite ontem (11/09), o debate sobre as tensões no Oriente Médio dividiu os visitantes, que cobraram uma posição clara e definida de Marcos Muniz. No entanto, a intenção do artista é outra: retratar o conflito entre esses dois povos e a violência presente em seu cotidiano por meio de alegorias e metáforas combinadas à preocupação estética da arte. Não há conclusões, mas reflexões.
"Não são fotos de guerra, não é na essência um trabalho focado no fotojornalismo", explicou Muniz ao Opera Mundi. "Se eu levantasse uma bandeira, tudo o que passei por lá e toda minha defesa conceitual seria minimizada", diz.
No olhar do artista, as barreiras físicas e psicológicas que contornam a vida nas cidades de Tel Aviv, Jerusalém e Belém -- retratadas nas fotos -- não se revelam apenas pelos muros de concreto, checkpoints e sistemas de segurança construídos por Israel. O estranhamento em relação ao outro, seja por diferenças culturais, religiosas ou ideias políticas, fica explícito na postura corporal, nas atitudes e na distribuição urbana.
Apesar disso, é nas diferenças que Muniz consegue aproximar palestinos e israelenses. Seus rostos e expressões são semelhantes, assim como sua prática religiosa. As obras convidam a questionar sobre as causas de tanta distância e estranhamento. No final da exposição, uma foto sugere a resposta: a ocupação militar.
Se antes o muro que divide a Cisjordânia de Israel aparece por meio dos grafites e desenhos nas paredes, em outras fotos surge em meio a ruas vazias ocupadas por soldados israelenses. Algumas pichações indicam a resistência palestina "Free Palestine" frente ao grande aparato de segurança de Israel em Belém, localizada na Palestina.
A violência bruta de fuzis e militares ganha outra conotação na capital israelense. Pelas fotos de Muniz, ela aparece misturada e naturalizada à sociedade. Um soldado fardado e armado caminha na rua ao lado de outro jovem de chinelos e uma arma camuflada em loja de brinquedos infantis.
A arte de rua também recebe um destaque especial na mostra de fotografias a partir de lambes-lambes, grafites e desenhos que interagem com os muros, paredes e pessoas do local. Imagens de Yasser Arafat, líder da ANP (Autoridade Nacional Palestina), morto em 2004, e de palestinos desconhecidos, figuras abstratas e escritos como "destrua o muro" aparecem como os personagens de uma complexa trama urbana.
Mesmo muro, lados opostos
A exposição Entre muros e ideias parte das impressões que Muniz fez em uma viagem de dez dias e não de qualquer projeto pré-concebido. "Acho que essa mostra surgiu quando tirei fotos do Muro das Lamentações, em Jerusalém", explicou o artista ao Opera Mundi. "A imagem de palestinos e israelenses rezando para deuses diferentes no mesmo muro, mas em lados opostos, era muito forte".
"É um convite à discussão, a interdisciplinaridade de questões como a criação de muros por meio de ideias e ideologias e a perspectiva de ruptura também", diz Muniz.
Entre Muros e Ideias – Marcos Muniz
Exposição: de quarta-feira (12/09) até 28 de outubro
Horário: terças a sábados, das 12 às 22h; domingos e feriados, das 11 às 21h
Local: Museu da Imagem e do Som - Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo
Entrada gratuita


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