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Arquivado em: cinema  

120114 azulFrança - PSTU - [Brenda Pina, de Curitiba (PR), Babi Borges e Carol Rodrigues, de São Paulo (SP)] Em maio de 2013, o filme Azul é a cor mais quente (La Vie D'Adèle') ganhou a Palma de Ouro do Festival de Cinema de Cannes e chamou a atenção do mundo ao contar a história de amor entre duas garotas.


Atenção: este artigo contém revelações sobre o roteiro do filme

A princípio, o fato de o diretor franco-tunisiano AbdellatifKechiche trazer essa relação para as telas já tornaria o filme interessante por romper com a invisibilidade lésbica. No entanto, o filme é muito mais do que isso.
 
Em primeiro lugar, a história de Adèle e Emma é retratada de forma sensível e profunda. Não se trata de uma relação construída para ser exibida como uma fantasia sexual para os homens. Em segundo lugar, o filme não aborda o romance de uma maneira alienante, descontextualizada do mundo. A história ocorre na França de hoje, com todos os seus conflitos políticos, econômicos e sociais, e as personagens vivenciam essa realidade enquanto sujeitos dela.
 
Na relação entre Adèle e Emma, o conflito de classes é determinante. Adèle tem uma origem mais pobre que a de Emma. A classe social representada por cada uma delas pode ser identificada em suas atitudes, escolhas, seus diálogos e projetos de vida. Em outras palavras, as diferenças de classe definem a subjetividade das personagens.
 
Dos quadrinhos para as telas
 
Inspirado nos quadrinhos, Azul é a Cor Mais Quente (Le bleu est une couleurchaude), de Julie Maroh, o filme traz a história de Adèle, uma adolescente que mora na periferia de Lilly, uma cidade do norte da França. Logo nos minutos iniciais, a personagem nos é apresentada através da narrativa de seu cotidiano. Ela mora em um bairro tão afastado da escola onde estuda que dorme no ônibus, durante o seu trajeto. Ela mantém uma relação distanciada com a família, assistindo televisão durante as refeições, que são quase sempre macarronada.
 
Na Escola, com muitos alunos imigrantes, Adèle é pressionada pelas amigas a se envolver com um garoto mais velho que está interessado nela, o que acaba acontecendo. Isso tudo ocorre num momento em que há diversos protestos na França. Adèle e seus amigos também vão às ruas gritar por “mais verbas para a educação” e “contra os planos de austeridade”. A personagem é parte desta juventude cheia de incertezas quanto ao seu futuro.
 
Em todos esses momentos, acompanhamos Adèle através de uma câmera bem próxima a ela. Vemos suas reações, expressões e angústias muito de perto. Dessa forma, aumenta-se a empatia com a personagem, tornando-a ainda mais cativante para que acompanhemos sua jornada com bastante intimidade.
 
O que observamos nesses primeiros momentos da história é a descrição de uma rotina comum a de boa parte das adolescentes, onde a protagonista age de acordo com aquilo que lhe é esperado. Assim, Adèle sai para encontrar-se com Thomas, esse passeio vai ser definitivo em sua vida.
 
Quando ela caminha pra encontrar o rapaz, ao atravessar uma rua, sua atenção é roubada por uma garota de cabelos azuis acompanhada da namorada, que segue na direção oposta. Ao vê-la, Adèle fica perturbada. Uma mistura de curiosidade, interesse e incômodo a toma naquele momento. Os olhares se cruzam na demonstração breve de um interesse recíproco.
 
Em seguida, Adèle encontra Thomas, eles conversam sobre seus gostos e fica evidente que possuem muito pouco em comum. Ele nunca leu um livro até o fim, enquanto ela fala com entusiasmo sobre A vida de Marianne, de Pierre de Marivaux. Depois vão ao cinema, onde Thomas tem a iniciativa de beijá-la. Adèle não toma atitude para evitar que a relação se desenvolva e começam a namorar, mas nos fica evidente que nada daquilo é vivido com qualquer empolgação por parte dela.
 
A esse momento e a tudo aquilo que está por vir, se referem as grandes questões do filme, anunciadas logo no seu início, durante uma aula de literatura francesa. Ao analisar A Vida de Marianne, o professor questiona os alunos sobre como seria cruzar com alguém interessante pelo caminho, trocar olhares como num gesto de amor à primeira vista e deixar isso passar. Ele pergunta como ficaria o coração depois disso, se ganharia algo, ou se seria uma perda. Adèle se interessa, se identifica e gosta muito do livro, ainda que não saiba explicar o motivo. Há diversas referências diretas ao longo do filme a esse livro que trata da vida de uma mulher e da sua relação com a sociedade. Vale lembrar que o nome original do filme é A Vida de Adèle, em tradução livre.
 
Sua vida é contada em azul, uma cor fria, que transmite calma e tranquilidade, mas que no filme dá os tons dos conflitos. Mais do que isso, Kechiche usa a cor socialmente associada ao universo masculino - azul, cor de menino - para colorir o desenvolvimento da sexualidade feminina. São os cabelos azuis de uma garota que atravessa a rua que catalisam a sexualidade de Adèle. É em tons de azul que se assiste a uma história intensa e emocionante.
 
Adèle e Emma
 
Adèle conhece Emma, a garota dos cabelos azuis com quem sonha por meses. Elas se envolvem, mas a relação não é um romance simples e comum entre duas garotas, mas algo profundo, que transborda sexualidade e carinho, e é, ao mesmo tempo, permeado por crises inevitáveis entre pessoas oriundas de meios bem diversos.
 
Logo que começam a se envolver, uma cena na qual Adèle é vítima de lesbofobia pelos colegas da escola, traduz o enfrentamento que ela terá consigo mesma e com o mundo. Coisa muito menos presente no universo de Emma.
 
Emma mora sozinha. É uma artista que está deixando a Universidade e pensando na sua carreira com base em seus interesses. Adéle está no ensino médio, quer ser professora e mora com seus pais.
 
Acontecem dois jantares que ilustram esses universos, um no qual Emma apresenta Adèle a sua família e outro em que Adèle apresenta Emma aos seus pais. Não apenas os cardápios não deixam dúvidas das diferenças de classe, como também os diálogos que se desenvolvem. A família de Emma come ostras, a de Adèle macarronada. Adèle é recebida como a namorada de Emma. Emma, é a amiga que lhe ajuda com os deveres de filosofia na casa de Adèle. A família de Emma trata com naturalidade a questão da sexualidade. Discutem arte, filosofia, mostram seu gosto refinado e poucas preocupações com as questões do dia a dia que preocupam os jovens da classe trabalhadora. O padrasto de Emma não entende o motivo de Adèle querer ser professora, ainda mais uma professora de crianças. O pai de Adèle, por sua vez, não entende como Emma possa querer ser artista, coisa que para ele, precisa ser compensada com um trabalho “de verdade”, que dê dinheiro ou um marido bem remunerado para sustentá-la.
 
A partir disso, observamos que a relação entre Adèle e Emma também reflete o abismo entre classes sociais distintas, que repercutem nos papéis assumidos dentro do relacionamento. Emma por ter mais dinheiro impõe uma nítida “inferioridade de classe” a Adèle. Isso fica evidente nas cenas da festa de Emma, que Adèle organiza sozinha. Emma discute arte com seus convidados e é Adèle quem cozinha, serve, faz sala, se preocupa se todos estão satisfeitos e ao final, limpa a cozinha enquanto a companheira já está na cama.
 
Apesar de Emma se mostrar sensível, carinhosa e compreensiva com Adèle, como quando lhe apresenta coisas do seu mundo, sobre arte e filosofia ou quando a leva para conhecer museus ou explica-lhe como comer ostras, esta exerce sobre a namorada uma clara relação de poder, reproduzindo atitudes opressoras típicas das famílias tradicionais. Emma desvaloriza o trabalho e os interesses de sua companheira.
 
O amor entre mulheres
 
Pouco mais de seis dos 179 minutos de filme. Esse é o tempo de duração da polêmica sequência do sexo lésbico. Nesses minutos, os movimentos de câmera e os close-ups nos trazem olhares, expressões, sentimentos, sensações e uma harmonia mais arrebatadora do que qualquer diálogo poderia traduzir. Diferente de como estamos acostumados a ver em outros filmes, nessas cenas não há música de fundo. Assim, não há uma condução óbvia dos sentimentos dos espectadores sobre o que devem achar ou como devem compreender aquelas cenas. A única coisa que você pode prestar atenção naquele momento é na ação que está ocorrendo na tela.
 
Além disso, a falta de elipses, ou seja, de supressões de tempo, ressalta a duração e a intensidade da relação entre elas. Não há nada de vulgar, tudo é intenso e delicado. Os corpos são desnudados de forma a revelar o afeto, a paixão, a sexualidade e o prazer femininos. Emma e Adèle se bastam, se completam e se encontram uma na outra.
 
Tudo é relativamente longo em Azul é a Cor Mais Quente, o dormir, o chorar, o comer, o nadar. É assim que flui a trama e é esse jeito de contar a vida de Adèle que faz de sua história de amor algo muito interessante e envolvente. O filme certamente se sustentaria se as cenas de sexo fossem mais curtas ou até mesmo se não existissem. No entanto, a forma como o sexo ocorre entre elas é uma dimensão essencial para entendermos como se dá a relação entre Adèle e Emma e é algo que não pode ser simplesmente ignorado ou relegado para a imaginação dos espectadores.
 
As cenas que acontecem logo após o sexo são as da Parada do Orgulho LGBT. Mais uma vez a questão individual (e não íntima ou privada) é associada ao coletivo. Assim que assistimos a uma adolescente se descobrir e realizar-se, vivendo uma verdadeira libertação, somo levados a refletir o contexto, a pensar a França polarizada pelas opiniões sobre a legalização do casamento homossexual e na desigualdade de direitos.
 
Apesar do amor e do sexo entre Emma e Adèle, há duas vidas inconciliáveis pelas suas diferentes origens sociais. Uma barreira de classe mantém seus mundos distantes e as isola uma da outra.
 
Essa é a história de Azul é a Cor Mais Quente, que ao ser contada rompe com a invisibilidade lésbica de uma forma original, ainda pouco vista no cinema.
 
 
Infelizmente, a história de uma adolescente que amadurece e que descobre sua sexualidade em meio a opressão, não pode ser vista pelas milhões de jovens que se vêem na mesma situação. No Brasil, o filme está sendo exibido em pouco mais de 20 salas (de um total de 2500), sendo a maioria em São Paulo e Rio de janeiro. Aqui a censura é 18 anos, enquanto nos EUA e em diversos países da Europa é 17. Em muitos lugares foi proibido.
 
O que vemos na maior parte das vezes, ao contrário, são homossexuais apanhando e sendo assassinados nas novelas e filmes, sendo ridículos e caricatos nos programas humorísticos ou ainda mulheres sofrendo violência sexual. Basta ligar a TV e encontramos tudo isso com classificação indicativa livre. Mesmo os personagens homossexuais da novela Amor à Vida, que muitas pessoas têm visto como avanços para a televisão brasileira, ainda assim quase não trocam qualquer carinho entre si ou sequer dormem juntos.
 
Emma e Adèle protagonizaram um outro paradigma de relação e de sexo lésbico para a mídia, que, definitivamente, não coloca a mulher como objeto sexual masculino. E é essa visibilidade que estamos interessadas. 
FICHA TÉCNICA
Nome original: La Vie D'Adèle'
Gênero: Drama
Direção: Abdellatif Kechiche
Montagem: Albertine Lastera, Camille Toubkis, Ghalia Lacroix, Jean-Marie Lengelle
Roteiro: Abdellatif Kechiche
Elenco: Adèle Exarchopoulos, Alma Jodorowsky, Aurélien Recoing, Benjamin Siksou, Catherine Salée, Fanny Maurin, Jérémie Laheurte, Léa Seydoux, Mona Walravens, Salim Kechiouche, Sandor Funtek
Produção: Genevieve Lemal
Fotografia: Sofian El Fani.

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