Calcula-se que a partir do ano 2000, foram vendidos ou arrendados mais de 230 milhões de hectares de terra, configurando a maior incidência se deu nos últimos dois anos. Aumentava a especulação com a terra em larga escala, inclusive nos mercados futuros. Grande parte dessas terras são compradas e ficam "estocadas", ou seja não são utilizadas. Elas servem apenas como mercadoria gerar mecanismos artificiais de valorização, da mesma maneira que é feito com os imóveis. Outra parte dessas terras é utilizada para a produção de commodities, a extração de madeira, a mineração e o comércio de crédito carbono.
Grande parte desse processo de "compra" de terras vem acompanhado da expulsão, ameaças, grilagem e morte das populações locais. Trata-se de algo muito comum em países atrasados, como o Brasil, onde só no ano passado foram assassinados mais de 35 camponeses devido à disputa por terras. Tribos indígenas inteiras veem sendo massacradas, como é o caso do povo Awá-Guajá, no sul do Maranhão, que foi reduzido a cerca de 400 indivíduos e agora é considerado como um dos povos indígenas mais ameaçados do mundo.
Esse processo de grande concentração de terra tem sido algo tão gritante que relatórios do Banco Mundial admitem que só em 2009 foram arrendados ou vendidos 47 milhões de hectares. As últimas florestas existentes estão migrando para as mãos dos especuladores de carbono que transformaram florestas em um serviço ambiental, onde multinacionais poluidoras compensam suas emissões de gases de efeito estufa e negociam as cotações desses créditos. Somente em 2008, o mercado de carbono movimentou cerca de US$ 126 bilhões e existem previsões de que esse número chegará a US$ 3 trilhões em 2020. Um caso recente dessa usurpação da floresta ocorreu em março deste ano quando a multinacional Celestial Green Ventures, líder no mercado de venda de créditos de carbono, comprou de maneira ilegal a concessão dos direitos de terras, incluindo a biodiversidade de uma área do dobro do tamanho de Portugal, por US$ 120 milhões, por 30 anos. A Funai (Fundação Nacional do Índio) já registrou mais de 30 contratos nas mesmas bases só neste ano.
A água está se tornando um bem privado. As multinacionais utilizam-na como uma matéria prima descartável. No setor de mineração, uma prática se tornou comum para a exploração de petróleo e gás, a chamada fratura hidráulica, que consiste basicamente em injetar água pressurizada com diversos produtos altamente poluentes que fraturam as rochas para extrair o petróleo ou gás presos nas ramificações das fendas do subsolo. Essa técnica polui o solo e o lençol freático, impedindo assim que comunidades inteiras possam utilizar a água para consumo. A construção de barragens feitas por multinacionais impedem que milhões de pessoas possam ter acesso a água e obrigam outras milhares se deslocarem de suas casas devido as enchentes.
Milhões de hectares de terras que antes produziam alimentos para a população, agora vem sendo substituído por uma modelo de produção especulativa com base em plantação de commodities como a soja e o milho, que exigem grandes quantidades de agrotóxicos e adubos químicos, que penetram no solo e no lençol freático. A especulação financeira com commodities tem o potencial de gerar lucros superiores aos 20% enquanto produzir alimentos gera entre 3% e 5% de lucros.
As plantações de biomassa, que supostamente seriam "energia limpa", exigem grandes quantidades de água. Grande partes das usinas de biomassa são abastecida com carvão mineral para gerar energia. O desmatamento da floresta Amazônica se dá em grande parte devido à extração da madeira para a fabricação ferro gusa, que é utilizado para alimentar a indústria automobilística nos EUA. Um dos países mais altamente dependente de grandes quantidades de carvão vegetal é os EUA, pois sua matriz energética está assentada basicamente em cima de centrais termoelétricas. Nos últimos 10 anos,s a produção de ferro aumentou 180%, a de cobalto 165%, a de lítio 125% e a de carvão 44%.
Esse modelo de exploração especulativa é incompatível com a soberania alimentar e com a preservação do meio ambiente, pois a sua base é a obtenção de lucro a qualquer custo.
