No relatório sobre a eficiência alimentar e energética, são lembrado aspectos conhecidos: o papel crescente do petróleo e do gás natural como insumo na produção agrícola, que resultaram na Revolução Verde, fazendo com que os custos e os preços dos alimentos estejam cada vez mais ligados aos custos dos combustíveis fósseis. Adicionado a isso, o "pico" de petróleo convencional, em 2006, segundo a Agência Internacional de Energia, coloca em risco toda a cadeia alimentar mundial.
O relatório "Energy-Smart Food for People and Climate," publicado no final de 2011, cita, por exemplo, que a fabricação de nitrogênio usado para adubação química do solo consome metade dos combustíveis fósseis necessários para a produção primária de alimentos.
Contudo, a demanda mais elevada de energia não está na fase de produção (que consome apenas 20% do total), mas nos estágios de processamento e de distribuição. A FAO faz uma distinção que merece ser destacada: a estrutura da cadeia alimentar é diferente entre os países com renda alta e baixa per capita. Entre os primeiros (cerca de 50 países do mundo), o maior consumo de energia está na fase de processamento e transporte (3 a 4 vezes mais do que seria necessária para a produção), enquanto nos países de baixa renda (176 países), a maior proporção é gasta no preparo dos alimentos.
Isso torna os países mais "vulneráveis" a ausência de combustível. No caso dos EUA, os alimentos que compõem a dieta diária de cada pessoa são transportados mais de 8.000 km, em média, antes de chegar à mesa. A quantidade desproporcional de energia utilizada no transporte faz com que as relações de entrada / saída de energia seja de 7 para 1. Isto é, para cada caloria ingerida na dieta norte- americana, são consumidas 7 calorias de energia.
Mas nem todo alimento produzido é consumido. Nos países ricos são produzidos 50% a mais de alimentos do que o mercado interno necessita, que acabam sendo desperdiçados. Na Europa e América do Norte acabam no lixo a cada ano entre 95 e 115 kg de alimentos por pessoa. A FAO estima que 38% da energia necessária para o abastecimento global de alimentos é jogada no lixo.
Até 2030, espera-se que a demanda global por energia e água aumente em 40% e por alimentos em 50%. De acordo com o relatório da FAO, as mudanças nos hábitos de consumo nos países asiáticos, como a adição de carne bovina em sua dieta é um dos fatores que afetam essas projeções. Enquanto que para produzir um quilo de frango se utiliza um quilo de grãos, para obter um quilo de carne bovina se exige 8 quilos de grãos.
Também está mudando a forma de produção. A rápida mecanização e industrialização da agricultura na Ásia (principalmente na Índia e na China) está mudando a matriz energética da cadeia alimentar assemelhando com a dos países ricos. Isso levará esses países a sofrer as mesmas ameaças que países centrais ante a escassez e volatilidade dos preços do petróleo.
As soluções oferecidas pelo novo relatório não são novas. Entre outras, elas buscam reduzir o desperdício de alimentos, consumir alimentos produzidos localmente, incorporar a energia endógena na produção agrícola (resíduos, biogás, etc.) e aplicar as práticas agroecológicas.
Os países "em desenvolvimento", em particular, deveriam tomar nota destas disposições. Continuar a incentivar a agricultura industrial está se tornando cada vez mais dependente de um recurso em declínio, tornando-a mais instável antes do inevitável aumento dos preços do petróleo. Muitos desses países ainda implementam práticas agrícolas que antecederam a revolução verde, que combinadas com os novos conhecimentos de técnicas agroecológicas poderia reduzir essa vulnerabilidade.
Claro, essa abordagem implica necessariamente o abandono do velho conceito de "progresso" que nossas sociedades abraçaram com fervor, como a sua petro-dependência.
- Gerardo Honty é um pesquisador da Energia e as Alterações Climáticas (CLAES Centro Latino-Americano de Ecologia Social)
