Não resta dúvida que Thatcher teria preferido um maior reconhecimento internacional. Embora 11 mandatários tenha assistido seu funeral, eram de países que ela considerava de segunda ordem. Do seu amado e admirado Estados Unidos, só estiveram na cerimônia ex-secretários de estado de sua época como George Shultz, James Baker e Henry Kissinger, assim como um dos cérebros dos “neocon”, o ex-vice presidente Dick Cheney, sem representantes do governo de Barack Obama.
No plano britânico, em troca, estava todo o establishment. A rainha Elizabeth e seu marido, o príncipe Filipe, que não assistiam a um funeral de um ex-primeiro ministro desde a morte de Winston Churchill, em 1965, estavam presentes. Aos conservadores que hoje governam, aos que governaram no passado e aos que Thatcher acusou de “traição com um sorriso” se somaram seus rivais trabalhistas, desde o atual chefe da oposição, Ed Miliband, até os ex-primeiro ministros Tony Blair e Gordon Brown.
A presença trabalhista é uma clara mostra da resistência do Thatcherismo à passagem do tempo. Quando, há alguns anos, perguntaram qual era seu maior êxito político, Thatcher respondeu direto: “Tony Blair”. A resposta era, ao mesmo tempo, irônica e precisa. A hegemonia política do Thatcherismo foi tal que Blair criou o “Novo Trabalhismo” e assumiu posições impensáveis para um trabalhista até então (como a aceitação da reforma sindical e das privatizações). Esta influência continua. Blair criticou recentemente o atual líder Ed Miliband por não aceitar os ajustes fiscais praticados pela coalizão conservadora-liberal democrata. A própria estratégia de Miliband ante a morte de Thatcher foi uma busca de equilíbrio entre o respeito que a dama de ferro ainda inspira, equiparada por amplos setores com a modernização do Reino Unido, e o rechaço que provoca, intensificado pelo atual programa de austeridade.
O Thatcherismo político está sustentado pelo econômico. O “Novo Trabalhismo” não reverteu em seus 13 anos no poder nenhuma das privatizações nem reformas sindicais da dama de ferro e se deslumbrou com a mesma miragem que iludiu meio planeta: o aparente toque de midas do setor financeiro. O estouro de 2008 e a atual crise econômica – o Reino Unido já enfrentou duas recessões nos últimos três anos – lançaram dúvidas sobre o credo, mas não conseguiram substituí-lo. A atual coalizão conservadora-liberal democrata governa desde 2010 com uma receita de austeridade que a “dama de ferro” teria aprovado.
A receita não deu resultado. A economia, que estava recuperando-se com um crescimento de 1,7% quando a coalizão assumiu, mergulhou em um quadro de estagnação que o Financial Times qualificou de virtual “estagflação” (Estagnação com inflação). No próprio Fundo Monetário Internacional ganhou terreno a posição mais cética sobre os benefícios da austeridade, liderada pelo economista chefe Olivier Blanchard, que recomendou que o Reino Unido coloque em marcha um plano B com mais estímulos para o crescimento. Em um capítulo chave do Thatcherismo – as privatizações – as notícias não são melhores. As seis empresas de eletricidade e gás que hoje dominam o mercado estão em meio a uma gigantesca polêmica sobre os altos preços dos serviços e, segunda-feira, se soube que ao menos uma delas, RWE npower, não pagou nem uma libra de impostos entre 2009 e 2011.
No funeral, as câmeras mostraram uma imagem pouco comum do ministro da Economia, George Osborne: os olhos roxos, uma lágrima descendo por suas bochechas. Não era pelo anúncio que acabava de ser feito de um novo aumento do desemprego que superou a casa dos dois milhões e meio de pessoas ou 7,9%: era pela memória de seu ídolo, a “dama de ferro”.
Tradução: Katarina Peixoto