Os milhares e milhares de assistentes à manifestação de 11 de setembro provocam uma série de perguntas, recorrentes no âmbito da ciência política, que muitos situam no prejuízo económico na relação de Catalunha/Espanha, dando a entender que se esta se resolve, acabar-se-á a chama independentista. Certamente esta é uma hipótese plausível, mas que obvia, ou esconde, outra variável que acho que é mais determinante. De fato, esta manifestação, e por extensão todo o debate independentista atual, é mais devido ao movimento que o impulsionou, que não às circunstâncias económicas. E mais concretamente, é devido ao movimento independentista, o mesmo que foi estigmatizado, caluniado e classificado de imaturo durante um monte de anos.
Para entender por que se dão episódios de mobilização em massa para qualquer temática -e não se dão noutras temáticas- os teóricos dos movimentos sociais assinalam três grandes condições, que relacionadas, explicam manifestações como a do 11-S. A primeira, a consistência de uma estrutura que o facilite, como é a existência de uma democracia como a que temos atualmente. Quanto mais permissiva seja esta democracia com as vozes que queiram intervir com o debate público -e isto quer dizer mais partidos, mais meios de comunicação e mais sociedade civil organizada- mais oportunidades têm os movimentos sociais para pôr temas na agenda pública. E felizmente, com matizes e imperfeições produto da sua juventude, temo-la.
A segunda, uma conjuntura política determinada por um episódio de crise, como costuma ser o passo de um regime a outro, uma guerra interna ou externa, ou uma mudança no ordenamento jurídico, entre de outras possibilidades. Neste caso, a combinação entre a atual grave crise económica -nacional, estatal, europeia- que por necessidade põe em cima a mesa o desigual trato que padece a Catalunha, a crise de representatividade do sistema de partidos políticos, ou a capacidade de atração de um "novo" projeto político como a independência, pode explicar uma parte do porquê da mobilização a que assistimos. Mas não toda. Não explica o porquê da motivação independentista da manifestação -poderia ser uma pelo pacto fiscal, ou uma neutra- nem explica as anteriores manifestações de 2006 e 2010 -centradas no desenvolvimento frustrado do estatuto- nem ainda menos as consultas soberanistas.
Falta-nos a terceira condição, que ao meu parecer explica muito bem o sucesso mobilizador, e por extensão o caso catalão. E trata-se da capacidade do movimento que o impulsiona, o seu repertório de ações coletivas, as estratégias utilizadas, o capital humano, o discurso. E é aqui onde está o cerne da questão. É o que conhecemos como movimento independentista catalão, o conjunto de pessoas que fizeram parte de organizações políticas, de entidades e movimentos em defesa da cultura e a língua catalãs, de centros sociais populares, de plataformas de todo tipo, os mesmos que se têm cindido, brigado e discutido por questões, com frequência mais pessoais do que políticas, mas que se voltaram a encontrar organizando reuniões, realizando campanhas ambiciosas, assinando manifestos e recriando novas organizações, plataformas e entidades como se nada tivesse passado, onde podemos encontrar o porquê do debate sobre a independência. De fato, na tanto vilipendiada -adentro e fora- tendência à fragmentação deste movimento há uma das chaves da sua sobrevivência: este "tudo mundo manda e ninguém crê" do independentismo catalão, mais que debilitá-los, provocou especializações, aprendizagens, concorrência e complementariedades entre as diferentes partes do movimento. Os mesmos, sempre os mesmos, que individualmente ou coletivamente mantiveram a reivindicação independentista em tempos em que ninguém cria, levaram para o âmbito quotidiano e trabalhista, "encaixaram" os discursos à situação política do momento. Ante a rejeição estatal a um novo estatuto, direito a decidir; e ante uma grave crise económica, estado próprio. E finalmente, o grande acerto: conseguir implicar muitíssima gente no ativismo pró-independência a partir da criação de um novo instrumento, a Assembleia Nacional Catalã, promovendo uma convivência entre "velhos" e "novos" independentistas, garantia de continuidade para além do momento atual, e promover uma unidade civil interideológica entre partidários do estado próprio, que veremos se se traduz ao âmbito dos partidos políticos.
Portanto, a manifestação do 11-S tem-se de entender como uma fase mais do ciclo de mobilização de um movimento, o independentista, que soube aproveitar as oportunidades que a conjuntura lhe ofereceu adaptando os discursos e práticas organitzatives ao contexto actual. E gostemos ou não, da realidade muda não tanto a partir de determinadas circunstâncias mais ou menos favoráveis, senão a partir da determinação, fortaleza e acertos do movimento que o impulsiona. Isto é, da força do movimento.
Ricard Vilaregut é doutor em Ciências Políticas pela UAB