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foto mat 36558Alemanha - Carta Maior - [Flávio Aguiar] Berlim tem uma longa tradição de ocupações. Essa tradição se consolidou depois da queda do muro, em 1989. Já na Berlim Ocidental havia movimentos de ocupação, dirigidos para prédios abandonados – alguns desde a guerra. Com a reunificação, o movimento se estendeu para a antiga parte oriental.


O caso mais famoso dessas ocupações é o do prédio conhecido como Tacheles, em ruínas, tomado por artistas e seus ateliês, além de bares em março de 1990. Retomado em parte por uma empresa que comprou a área, uma parte dele continua ocupada, e o destino do prédio ainda é incerto.

Os movimentos “Occupy” trouxeram um novo impulso e um novo estilo aos processos de ocupação, em escala internacionalo, a que a Alemanha e Berlim não ficaram indiferentes. Mas tradicionalmente esses movimentos sempre foram associados a jovens, hippies, punks, militantes de esquerda, ou sem-teto.

Agora a cidade de Berlim está às voltas com um novo movimento de ocupação.

O objeto da ocupação é um prédio na antiga parte oriental da cidade, no bairro de Pankow, perto de um conjunto de residências onde moravam altas autoridades da Alemanha Oriental, numa rua ovalada conhecida como Majakowskiring.

O prédio em questão também teve ocupantes famosos – embora de sinistra memória: Erich Mielke e sua família, um dos chefes da temida Stasi, a polícia política da RDA. Também foi sede da própria Stasi local.

Mas os ocupantes de agora são de outra estirpe: a esmagadora maioria dos ocupantes têm mais de 70 anos – e são mulheres, em grande parte.

O objetivo da ocupação é preservar um centro de reunião para “seniores”, como se designam os idosos por aqui. Nesse centro eles e elas se reuniam para jogar cartas, dominó, outras formas de lazer, praticar ioga, fazer reuniões de interesse local, ou simplesmente para bater papo.

Acontece que a administração regional considerou cara a manutenção do prédio ( 60 mil euros por ano) e dispendiosa demais uma reforma que julga necessária, orçada em 2 milhões de euros. Então decidiu vender o prédio.

Foi a fagulha: em junho cerca de 300 freqüentadores – o caçula tem 65 anos – decidiram ocupar o prédio e resistir. Lá estão eles, nesse prédio da Stille Strasse – Rua do Sossego, ou do Silêncio – com seus colchões, dormindo no chão, fazendo revezamentos noturnos para que a administração regional não possa retomar o prédio, preparando cafés comunitários, refeições...

E chamando a atenção da cidade. Mais de 50 reportagens já foram feitas na mídia berlinense de todo tipo, além deles receberem moções de solidariedade de todo tipo, inclusive sob a forma de doações, sob a forma de frutas, alimentos, doces, e há até um restaurante local que doa refeições quentes para os “seniores – senhoras e senhores”.

A líder do movimento, Doris Syrbe, de 72 anos, garante que elas e eles vão ficar e resistir, até que uma solução seja encontrada. E sequer passa-lhe pela cabeça, pelo menos por ora, a remoção para algum outro prédio.

A mídia tem destacado que esse movimento assinala mudanças sociais importantes que estão ocorrendo na cidade. Depois de voltar a ser a capital da Alemanha, Berlim passa por um processo geral de encarecimento do custo de vida, tradicionalmente um dos mais baixos dentre as capitais européias, incluindo as do antigo leste. O preço dos aluguéis e da manutenção de imóveis tem aumentado, com a freqüência crescente de turistas, diplomatas, gente de negócios e até de estudantes. Berlim é uma das poucas cidades (com caráter de estado) na Alemanha onde o estudo superior permanece gratuito. Isso atrai estudantes de toda a Alemanha – que vêm morar nos bairros antes reservados predominantemente para imigrantes, trabalhadores e população pobre. Estes vão se deslocando para mais longe, e o preço dos aluguéis naqueles bairros começa a aumentar. Em seguida vêm os novos yuppies com seus ternos e carros caros – e condomínios fechados.

E a oportunidade da existência de prédios como o da Stille Strasse diminui.

Mas os velhinhos e as velhinhas da Stille Strasse anunciam que não vão desistir – no melhor estilo dos movimentos “occupy”, que, como se vê, não têm idade-limite.


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