Na Lituânia e na Irlanda os ativistas promovem a sensibilização da opinião pública, transmitindo videoclipes em transportes públicos. Em Atenas, mais de 40 ONG juntaram-se na altura para organizar um concerto contra a discriminação racial. Estes são alguns exemplos do que se passa na Europa durante esta semana. O Dia para a Eliminação da Discriminação Racial tem origem num acontecimento trágico ocorrido na África do Sul em 1960: a 21 de Março decorria em Sharpville uma manifestação pacífica que protestava contra as leis de discriminação racial. A polícia do regime de apartheid sul-africano abriu fogo sobre os manifestantes. Dezenas foram mortos e muitos mais ficaram feridos. Essa tragédia foi um momento decisivo na luta contra o racismo e desde então que nesta data se comemora o Dia Internacional para a Eliminação da Discriminação Racial.
Sobre este tema vêm muito a conto as formosas frases pronunciadas no seu momento por Nelson Mandela, quem, depois de muitos anos de luta contra o «apartheid», conseguiu a libertação do seu povo na África do Sul. Quero destacar, entre outras, as suas seguintes lindas palavras: « Se você falar com um homem numa linguagem que ele compreende, isso entra na cabeça dele. Se você falar com ele em sua própria linguagem, você atinge o seu coração». «Eu odeio o racismo, pois o considero uma cousa selvagem, venha ele de um negro ou de um branco». «Sonho com o dia em que todos se levantarão e compreenderão que foram feitos para viverem como irmãos». «Uma boa cabeça e um bom coração formam sempre uma combinação formidável». «Você não é amado porque você é bom, você é bom porque é amado». « Devemos promover a coragem onde há medo, promover o acordo onde existe conflito, e inspirar esperança onde há desespero». « Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor da sua pele, ou pela sua origem, ou pela sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar, pois o amor chega mais naturalmente ao coração humano do que o seu oposto. A bondade humana é uma chama que pode ser oculta, jamais extinta». «A beleza curiosa da música africana é que ela anima mesmo quando nos conta uma história triste. Você pode ser pobre, pode ter apenas uma casa desmantelada, pode ter perdido o emprego, mas essa canção lhe dá esperança. A música africana é sempre sobre as aspirações do povo africano» .
Para trabalhar este tema nas aulas dos nossos estabelecimentos educativos de todos os níveis, escolhi um filme muito formoso intitulado «A Câmara de Madeira» , realizado precisamente por um diretor novo da África do Sul e rodado no seu país, tendo como fundo a segregação racial. Com uma fantástica interpretação dos rapazes protagonistas. Compartilho o que Mandela também dizia: «A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo» e «A educação é o grande motor do desenvolvimento pessoal. É através dela que a filha de um labrego pode tornar-se uma médica, que o filho de um mineiro pode tornar-se o diretor da mina, que uma criança de peões de fazenda pode tornar-se o presidente de um país». Eis o que eu proponho: eliminar as atitudes racistas dos estudantes, fomentando o respeito e a tolerância, por meio da educação ministrada nas aulas.
Ficha técnica do filme:
Título original: The Wooden Camera (A Câmara de Madeira).
Diretor: Ntshavheni Wa Luruli (África do Sul-França-Reino Unido, 2003, 92 min., a cores).
Roteiro: Yves Buclet e Peter Speyer. Fotografia : Gordon Spooner.
Produtoras: Odelion, Tall Stories e Richard Green and Associates.
Prémio: Urso de Cristal no Festival de Berlim de 2004, na categoria de jovens realizadores.
Atores: Junior Singo (Madiba), Dana de Agrella (Estelle), Innocent Msimango (Sipho), Lisa Petersen (Louise), Nicholas Jara (Benny), Lynita Crofford (Repórter TV), Nomhlé Nkyonyeni (servente), Thembi Mtshali (mãe de Madiba), Jean-Pierre Cassel (Mr. Shawn) e Fats Bookholane (pai de Madiba).
Argumento: Este formoso filme conta o percurso dos jovens Madiva e Sipho a partir do dia em que, ao brincarem junto a uma linha de caminho-de-ferro da África do Sul na localidade de Khayelitsha, perto da Cidade do Cabo, veem um corpo a ser atirado do comboio em andamento. Curiosos, os jovens aproximam-se e vasculham os bens do morto em procura de algo que possam adquirir, e encontram então uma arma e uma câmara de vídeo, ambas em ótimas condições e prontas a ganharem um novo dono. Cada um deles decide então ficar com um dos objetos. Sipho escolhe a arma. Madiva escolhe a câmara. Para proteger a câmara de vídeo de possíveis olhares interesseiros e invejosos, Madiva esconde o objeto dentro de uma câmara de madeira que serve de proteção ao seu novo brinquedo favorito.
O objeto acaba por despertar o instinto cineasta em Madiva, e o jovem começa a fazer uso da novidade para filmar pessoas e objetos de uma maneira simplesmente inocente e bela como só uma criança sabe fazer amadoramente. Sipho, por seu lado, fica fascinado pela invulnerabilidade e poder que a arma lhe dá, e faz uso desta para obter dinheiro, respeito e admiração por parte de quem o rodeia, acabando assim por ingressar numa vida criminosa, um percurso diferente do do amigo, mas mais comum naquela realidade. Um dia ao passearem pelas ruas da Cidade do Cabo, ambos acabam por conhecer a jovem Estelle, uma moça rica e de cor branca que é apaixonada pela música e revoltada contra as regras raciais do seus pais. Com o passar do tempo uma forte relação de amizade nasce entre os três jovens, e Estelle passa cada vez mais tempo com os dous, fascinada pela simplicidade de Madiva e pelo carisma de Sipho. Porém, com os caminhos opostos que os dous amigos parecem tomar, Estelle vê-se obrigada a fazer uma escolha não só entre Madiva e Sipho, mas também em relação às hostilidades de seus pais para com aquela amizade e a sua vida. Filme peculiar, apaixonante e provocador, em que se conta com a muito boa interpretação do veterano ator galo Jean-Pierre Cassel e a dos jovens protagonistas. Um ensaio sobre a amizade, o crescimento, sobre vidas marginais que começam demasiado cedo. E, como contexto, a África do Sul muito pouco depois da desaparição do imoral«apartheid».
Um formoso filme para estabelecer estratégias contra o racismo:
O filme objeto do nosso comentário é uma bela história que exibe a dura realidade das tensões raciais existentes numa África do Sul que ainda digere a mudança da política racial causada pelo fim do nefasto «Apartheid». Tudo isto monstrado através dos olhos da juventude do filme, que representa o futuro daquela nação. Isso é bem visível na construção das três personagens principais que são jovens ambiciosos, criativos, inteligentes e tolerantes, ao contrário dos adultos que são pessoas rancorosas, racistas, de mente fechada e intolerantes. Um choque de mentalidades que tem a sua raiz no antes e depois que a África do Sul viveu e continua a viver. A fita apresenta um olhar realista sobre uma cultura africana onde reina uma miscelânea de cores e diferenças sociais, que acabam por contaminar e corromper a juventude desse lugar, dificultando assim um futuro melhor para os seus jovens.
Este tema é apresentado neste filme através de um olhar específico, de uma juventude negra que cresce diante de raras oportunidades que contradizem com o caos social, económico e político que os rodeia, retratando a realidade existente no seu país de uma maneira muito singular, e desfilando sutilmente pelos temas polémicos que predominam na sociedade da sua nação como é o caso da criminalidade, o racismo, a pobreza e o preconceito. Desta maneira este filme converte-se num bom tributo para a magia dos cineastas amadores, para a esperança e a amizade, merecendo ser visionado tanto pela mensagem que transmite como pela magnífica qualidade ímpar e incomum que ele possui. A fita é uma pérola do cinema africano atual e um dos mais formosos filmes feitos ultimamente não só naquele continente, mas muito provavelmente a nível mundial. Uma obra incrível que impressiona pela sua beleza pura e singela, e que está repleta de talentos e qualidades em todos os aspetos, e, entre eles, as atuações dos rapazes protagonistas, a imagem excelente, a delícia de seus diálogos e também a música. Com o tempo, de seguro, há estar entre as obras-mestras do cinema mundial.
Pelo comentado anteriormente, estamos diante de um filme ideal para usar nas aulas dos estabelecimentos de ensino, com a finalidade de fomentar entre os estudantes o respeito por todos os seres humanos, a tolerância e o apreço por todas as pessoas sejam de onde forem e tenham qualquer cor da sua pele. Podemos, por exemplo, depois de olhar a fita, pesquisar dados sobre o tema do racismo, analisando a sua filosofia e objetivos, a sua história e as diferentes formas de racismo. Também como os geneticistas contemporâneos deitaram por terra as teorias a favor do racismo, como é o caso de Guido Barbujani, que, acertadamente, chegou a dizer: «A palavra raça não identifica nenhuma realidade biológica reconhecível no ADN de nossa espécie, e que portanto não há nada de inevitável ou genético nas identidades étnicas e culturais, tais como as conhecemos hoje em dia. Sobre isso, a ciência tem ideias bem claras». Outro interessante trabalho escolar é procurar dados na Internet, ou em livros e revistas, sobre o racismo nos diferentes países e culturas: Estados Unidos, Brasil, França, Índia, Israel, a Alemanha nazista de Hitler, a antimestiçagem britânica, a xenofobia contra alguns povos como os ciganos, os preconceitos contra a mulher de cor preta e o «apartheid» apresentado no filme, e que tem a sua própria e triste história. Igualmente a perspetiva jurídica atual, com especial incidência nas Declarações e leis internacionais contra a discriminação racial, durante o século XX e o que levamos do atual.
Temas para debater, refletir e elaborar:
- Elaborar um mural coletivo em que figurem aqueles países do mundo que mais se destacaram por manter atitudes racistas e xenófobas, e aqueles outros que mais defenderam a igualdade entre os seres humanos do planeta Terra. No mesmo haveria que incluir os vultos mais importantes (com as suas fotos e as suas frases mais destacadas) que mais trabalharam pela igualdade entre as pessoas do mundo: Buda, Jesus, Robindronath Tagore, Mahatma Gandhi, Nelson Mandela, Martin Luther King, Madre Teresa, Salvador Allende, etc. Dito mural teria que incluir desenhos e textos realizados pelos estudantes, postais, fotos, retalhos de jornais e revistas.
- Depois do visionado do filme, fazer um fórum para debater sobre os temas que aparecem na fita, as atitudes dos protagonistas, a presença do «apartheid» e alternativas que se propõem para as juventudes dos países que mais tenham sofrido em si mesmos as atitudes xenófobas e racistas. Podem elaborar-se por parte dos alunos cartazes, autocolantes, postais com mensagens e poemas sobre o tema. Idem podem organizar-se audições musicais de música étnica, recitais poéticos e dramatizações alusivas ao tema, e elaborar também um jornal escolar monográfico ou uma revista.
- Utilizando alguma técnica de dinâmica de grupos seria bonito analisar com os alunos a seguinte história sobre o racismo e a estupidez humana de um caso que aconteceu num avião, ao início de um voo, quando uma senhora premeu de forma insistente a campainha para chamar a hospedeira: «– Qual é o problema, senhora? – Perguntou a hospedeira. – E que não o vê? respostou a dama. –Colocaram-me junto a um sujo indígena. Não suporto estar ao lado de um destes seres repugnantes. Não tem você outro lugar?! Por favor, calme-se... disse a hospedeira. – Quase todos os lugares estão ocupados. Mas, vou ver se há algum disponível. A hospedeira afasta-se e regressa alguns minutos depois. – Senhora, como eu achava, já não há nenhum lugar vago na classe turista. Falei com o comandante e confirmou-me que não há mais lugares disponíveis nesta classe. De todas as maneiras ainda temos um lugar na classe primeira. Antes de que a dama pudesse fazer o menor comentário, a hospedeira continuou a falar: – É de todo inusual permitir que uma pessoa da classe turista se possa sentar em primeira classe. Mas, dadas as circunstâncias, o comandante encontra que seria escandaloso obrigar alguém a sentar-se junto a uma pessoa tão repugnante.Todos os passageiros de arredor observavam indignados a cena. Então, a hospedeira, dirigindo-se ao «indígena», lhe diz: – Se o senhor o deseja, pegue na sua equipagem de mão, já que um assento em primeira classe o espera. E os passageiros, que surpreendidos presenciavam a cena, levantaram-se e aplaudiram».
José Paz Rodrigues é académico da AGLP, didata e pedagogo tagoreano.
