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070712 nazisAlemanha - Publikative - [Tradução do Diário Liberdade] O autor viajou com os fãs da seleção alemã até à Ucrânia. Deste jeito viveu algumas cousas sobre as que se informa pouco na própria Alemanha: nacionalismo, culto ao nazismo, antissemitismo e racismo colocam um ponto de inquietude nos partidos que a equipa joga fora da casa.


Um informe desde a Ucrânia por Florian Schubert.

Embora muito se tenha falado antes do campeonato europeu de futebol sobre racismo e o problema do nazismo nos estádios ucranianos, parece que isso pouco ou nada tenha a ver com os fãs alemães. Racismo, antisemitismo e nacionalismo agressivo durante os jogos da seleção alemã pertenceriam ao passado.

No entanto, como se sabe, isso não é assim, infelizmente: A UEFA está a investigar a Federação Alemã de Futebol (DFB) a causa do comportamento incivil e os cantos inapropriados da claque alemã durante o partido contra a Dinamarca. Durante o jogo mostraram uma bandeira com a inscrição “Gott mit uns” (Deus connosco), que era o lema estampado nas fivelas dos cintos dos soldados do exército alemão durante a II Guerra Mundial. Segundo informações de publikative.org trata-se da bandeira dum grupo procedente de Zwickau, que também a pendura frequentemente durante os jogos na casa da equipa local, o FSV.

Quem faz o saúdo nazi? Tu negro!

Quem assista a um jogo da seleção alemão fará infelizmente observações semelhantes. Já durante a viagem de autocarro desde a Alemanha alguns fãs entoaram, como aquecimento, um cântico com versos como “Parasitas de merda, ciganos do Schalke 04 à forca” e berravam como se os esfolassem a pergunta: “Quem ergue a mão para fazer o saúdo alemão?”. Expressões como “Estrangeiros” ou “Tu negro” usadas como insultos apareciam como linguagem normal e corrente aos olhos de muitos dos viageiros. Ninguém pareceu incomodar-se.

Já depois do primeiro jogo da seleção alemã contra Portugal passaram ao meu carão no centro de informação alguns fãs alemães a corear “Alemanha, Alemanha por riba de tudo no mundo”. Quando cheguei à embaixada móvel dos fãs alemães, ali mostravam-se irritados pelos fã a fazerem o saúdo hitleriano. Sobre a mesa da embaixada havia uma brochura muito boa da KOS (Koordinationstelle Fanprojekte, Oficina de Coordenação do Projecto Fãs), em que se descrevem os lugares de memória da conquista alemã durante a II Guerra Mundial para cada uma das cidades onde se celebram jogos do campeonato. Fornecem-se ainda algumas informações básicas sobre a correspondente cidade, mas quem se interessa com isso?

Capacetes do exército prussiano e camisetas com o número 88 na Praça do Mercado

Pela Praça do Mercado, onde também se situa a embaixada de fãs, passeia-se às vezes um deles com o número 88 pintado no lombo duma camiseta que tem uma cruz de ferro bordada nas duas mangas. Diante duma taverna alguém no meio do grupo exibe um capacete prussiano. Um artigo de brincadeira que já no campeonato do mundo 2006 gozou de grande aceitação parece que provoca um efeito um bocado menos gostoso numa cidade já ocupada por soldados alemães. Ao subirem ao autocarro para se encaminharem para o estádio, aparece um novo fã com o “estilo 88”.

No trólebus que nos levava ao estádio reparei num fã de Dresden com um chapéu da marca Elbflorenz e uma camiseta com o desenho dum imenso carro de combate e o lema “Campeão de Europa 2012”. Estas camisetas são distribuídas pela casa “Sieg oder Spielabbruch” (literalmente, “Vitória ou interrpução do jogo”), que xurdiu no entorno do grupo radical de fãs “Standarte Bremen” e a banda de música de extrema direita “Kategorie C”. O portador da camiseta movia-se num grupo de fãs de Dresden que, a carão do obrigado “Deutschland, Deutschland, Deutschland” também berravam “Ha ho, he, Fascistas SGD“ e cantavam, com a melodia do “Jingle Bells” “Besiktas, Trabzonspor, Galatasaray, Fernebace Istanbul. Odiamos a Turquia”. Noutro autocarro chegou mesmo a ouvir-se a canção de Auschwitz, desta vez com a letra “Construamos um metro desde Limberg até Auschwitz”, conforme me informou mais tarde um fã de Bremen.

Hurrá, hurrá, os alemães estão cá”

Chegados ao estádio, não há que esperar muito para ver o primeiro jérsei da marca Thor Steinar. O estádio manteve-se tranquilo até ao assobio final. Mas também aqui se cantaram canções típicas, que não demonstram sensibilidade nenhuma para com a história alemã na Europa do Leste: desde os gritos de Sieg (vitória), que cá lembram necessariamente a sua continuação, Heil, até os “Hurrá, Hurrá,os alemães estão cá”, passando por „Que será, será, os alemães voltaram” e a canção México da banda de rock “Böhse Onkelz”. Despregaram todo o repertório.

Depois do jogo alguns fãs reunidos na Praça do Mercado de Lviv (em alemão, Limberg) saudaram-se ao estilo nazi. Também ninguém se queixou. Durante o jantar, cabo de mim, alguém tratou um outro de “estrangeiro de merda”. Referia-se ao empregado de mesa, que não entendia o inglês. Este fã evidentemente não falava ucraniano, polaco ou russo, pelo qual a comunicação virava complicada. Um grupo de três pessoas com as camisetas da Alemanha mostraram de novo a saudação nazi. À pregunta da razão desse comportamento, respondem “Tendes alguma cousa em contra?”. Os três continuaram para a frente, mas deram a volta dali a cinquenta metros e acenaram na nossa direcção: “Sieg Heil, conas e maricalhos“ e sumiram.

Pouco se informa sobre estes acontecimentos nas reportagens sobre os jogos da seleção alemã. Mas os jornalistas tiveram de observar estas cousas igual que eu. Também é assustador que, aparentemente, nenhum fã se incomodasse com estes cantos, expressões e comportamentos. E isto numa cidade em que, na época do nacional-socialismo, quase toda a população judia (à volta de 400.000 homens, mulheres e crianças), e também 140.000 prisioneiros de guerra russos, foram assassinados pelos ocupantes alemães.  

Tradução de Alberto Lozano para o Diário Liberdade


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