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121010_conaieEquador - The Narco News - [Fernando León e Erin Rosa] A CONAIE do Equador contra a difamação do "jornalismo" de Estado.


A 30 de setembro passado, a América Latina observou o que parecia ser o terceiro golpe de Estado do novo milênio. E a simples vista muitos admitimos a possibilidade. No entanto, a raiz desses acontecimentos e com o passar do tempo, estes fatos voltaram-se ainda mais confusos. Junto a isso, aqueles movimentos equatorianos que não apoiaram ipso facto o presidente Rafael Correa foram o alvo de críticas e difamações precisamente por parte de aqueles cuja visão da esquerda no continente não trespassa os limites do Estado. E mais que a natureza mesma da tentativa de golpe, ou o que quer que tenha sido, o mais relevante surge nuns dias depois com a tentativa de linchamento de organizações indígenas históricas equatorianas que com justa razão não apoiam o governo equatoriano.

Liderando a carga contra os movimentos indígenas e movimentos sociais relacionados, encontra-se a advogada estadunidense Eva Golinger, personalidade de televisão de TeleSur (um canal criado pelo governo venezuelano e adicionalmente financiado por governos pertencentes a ALVA e outros governos latino-americanos), e ex trabalhadora do Escritório de Informação da Venezuela com sede em Washington DC, a qual é financiada pelo Estado venezuelano. Golinger tratou de retratar as organizações históricas como a CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador) como agentes do imperialismo estadunidense. Em entrevistas separadas com Narco News, lutadores sociais latino-americanos com décadas de experiência no terreno das principais lutas no hemisfério disseram a este jornal que encontram essas afirmações absurdas, infundadas e sem apoio algum de "evidência" oferecida. Entre eles, a acadêmica mexicana e ex presa política por acusações de ser membro do Exército Guerrilheiro Tupác Katari na Bolívia (igual que o atual vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera), Raquel Gutiérrez, disse que "atribuir um caráter imperialista à CONAIE é uma mentada de mãe.? Por sua vez Oscar Olivera, sindicalista boliviano e organizador na bem sucedida Guerra da Água que conseguiu expulsar a trasnacional Bechtel da Bolívia em 2000, disse: "Eu poria as mãos no fogo pela CONAIE . Eu tenho estado com os companheiros da CONAIE , com os companheiros de ECUARUNARI. Eu acho que é um movimento absolutatemente legítimo, saído das bases, com uma perspectiva de transformação, recuperação da memória, etc, muito legítima." Ambos, entre outros lutadores sociais e analistas latino-americanos trazem, a partir da sua experiência, mais comentários sobre as acusações e que apresentaremos a seguir.

Um pouco da história do movimento indígena equatoriano

No novo milênio, a América Latina tem estado marcada por uma etapa histórica de governos com uma natureza particular. Governos como os da Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil, Uruguai, Paraguai, Argentina, Nicarágua, El Salvador... chegariam para terminar com as traumáticas décadas ditatoriais no continente. O mais relevante do caso é que estes governos são produto das mobilizações que durante décadas aconteceram em todos estes países. No entanto, apesar do benefício obtido, muitos dos movimentos que ajudaram a construir um aparente governo diferente agora se vêem mais ameaçados ainda.

E o caso equatoriano não é a exceção.

O movimento indígena em Equador foi um dos mais articulados no continente. Com uma população total a mais de 14 milhões de pessoas, dos quais se estima que mais de 40% é indígena. Em 1972 surge a primeira confederação regional indígena na serranía equatoriana, ECUARUNARI (Equador Runacunapac Riccharimui) -a qual na atualidade faz parte da CONAIE- com o objetivo de lutar pela legalização de suas terras, a educação, liberdade de organização, participar em tomada de decisões políticas internas e externas, entre outros...

Para novembro de 1986 num congresso do CONACNIE (Conselho Nacional de Coordenação de Nacionalidades Indígenas) aprova-se a formação da CONAIE (Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador), organização que aglutina as mais de 30 povos e nacionalidades do Equador. Entre seus objetivos encontram-se:

- Consolidar os povos e nacionalidades indígenas do país

-Lutar pela defesa de terras, territórios indígenas e os recursos naturais;

-Fortalecer a educação intercultural bilingue;

-Lutar contra o colonialismo e neocolonialismo (empresas multinacionais em comunidades indígenas);

-Impulsionar a autolegislação comunitária e desenvolver o comunitarismo integral;

-Fortalecer sua identidade e suas formas de organização social;

-Promover o exercício dos Direitos Coletivos de povos e Nacionalidades Indígenas do Equador, reconhecidos na Constituição Política da República;

-Construir uma sociedade intercultural; promover a participação mediante o estabelecimento de uma democracia participativa, com fins de atingir a descentralização do poder e os recursos econômicos, a solidariedade e a equidade;

-Conseguir a igualdade e a justiça nos povos e nacionalidades indígenas, portanto na sociedade em geral; e,

-Manter as relações internacionais entre as nacionalidades indígenas do Continente ABYA -YALA, a fim de viabilizar uma comunicação alternativa entre os povos indígenas, e com outros setores sociais comprometidos com a causa.

Entre finais de maio e princípios junho de 1990 realiza-se, o que a CONAIE considera, o primeiro grande levantamento da confederação no país "pela defesa e reivindicação de seus direitos, do território, da justiça e a liberdade".

Esta constante mobilização por seus direitos básicos conseguiu derrocar governos que atacavam os princípios básicos pelos quais a CONAIE lutou desde sua fundação. Em 1998 o movimento indígena conseguiu a destituição do presidente Abdalá Bucaram. Dois anos depois, as mobilizações sociais terminaram abruptamente com o governo de Jamil Mahuad. Como uma aliança estratégica, no ano 2002 a CONAIE decide apoiar Lucio Guitérrez na eleição presidencial. Seu principal contendente nas eleições, o magnata Álvaro Noboa, acusou-o, segundo BBC News, de ser um "radical populista como Hugo Chávez." Gutiérrez ganhou com 54% dos votos nessa eleição. Posteriormente, devido à viragem à direita do governo de Gutiérrez, em agosto de 2003 a CONAIE rompeu definitivamente com Lucio Gutiérrez. Uma vez mais, agora a partir da oposição, as mobilizações sociais compostas em grande parte pelos grupos indígenas da CONAIE conseguiram que em 2005 Lucio Gutiérrez fosse destituído de seu cargo.

A partir da experiência de ter apoiado o governo de Gutiérrez, a CONAIE entra num período, que Raúl Zibechi chama de reconstrução. Durante 2005 "a direção da CONAIE retorna às bases comunitárias [...] e desapareceu do panorama político equatoriano porque toda a direção tinha retornado às bases. Esse desaparecimento mediático permitiu-lhe reconstruir-se por baixo."

"Jornalistas" de Estado: A ofensiva contra os movimentos

Uma das armas mais poderosas que os governos e mídia autodenominada "progressistas" porque como diz o acadêmico Adolfo Gilly, com uma vasta experiência nas lutas a partir de baixo, "primeiro há que acreditar no progresso para se chamar progressista" é o ataque ao crédito dos movimentos sociais que não alinham com suas agendas. E esta situação acentuou-se notavelmente na última semana. A razão do "tentativa de golpe" por parte da polícia equatoriana, a CONAIE emitiu um comunicado numa conferência de imprensa, na qual dizia que não apoiavam nem o golpe nem Correa. Para Raúl Zibechi, analista e jornalista uruguaio, em entrevista com este jornal, a postura da CONAIE é lógica: "[A] CONAIE agrupa a 5.000 comunidades, tem muitas contradições internas mas seu comunicado considero-o justo. Estão contra qualquer golpe, e isso fica claro, mas não querem apoiar Correa que os reprime, encarcera e acusa de terroristas."

No entanto, a raiz do comunicado da CONAIE, os defensores da "democracia" a partir de cima iniciaram a ofensiva.

Num dia após a "tentativa de golpe" no Equador, a estadunidense Eva Golinger publicou que a CONAIE tem vínculos financeiros com a organização National Endowment for Democracy (NED, por suas siglas em inglês), organização não lucrativa que recebe recursos do governo dos EUA através da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID, por suas siglas em inglês) e o Departamento de Estado. Segundo Golinger:

"Organizações no Equador como Participação Cidadã e Pró-justiça dispuseram de financiamento de USAID e NED , tanto como membros e setores de CODEMPE , Pachakutik, a CONAIE , a Corporação Empresarial Indígena do Equador e a Fundação Qellkaj."

As acusações de Golinger tentam afirmar que a CONAIE de alguma forma foi cooptada pelos interesses dos EUA. Acusar diretamente uma organização como a CONAIE com algo assim é grave. A "evidência" na qual Golinger se baseia é um documento obtido através de uma ata de acesso à informação pública dos EUA, denominada FOIA, que deve se ler muito atenciosamente... por tanto presumimos que ela não o fez.

Um pequeno parêntese, para explicar a relação entre Pachakutik e a CONAIE:

Em 1995, forma-se o Movimento de Unidade Plurinacional Pachakutik- Novo País (MUPP-NP), o qual, segundo seu lugar, é "um movimento político, plurinacional e democrático, com autonomia organizativa e com profundas relações com as nacionalidades, povos e movimentos sociais e aberto à participação para culminar com com a mudança social." O MUPP -NP está integrado por distintas organizações sociais de diferentes setores da sociedade equatoriana, a CONAIE é uma das organizações que o integram.

Agora regressando ao que Golinger publicou, diz também que:

"[N]este documento é muito claro que Pachakutik e REDE (ambos braços políticos nesse momento da CONAIE ) estavam recebendo treinamento e financiamento de NDI /NED [National Democratic Institution; National Endowment for Democracy] no Equador ao menos desde 2005-2006."

Segundo Golinger, devido a que a NED outorgou dinheiro a NDI para levar a cabo seminários eleitorais no Equador, Pachakutik supostamente é agora fantoche dos interesses estadunidenses. Antes de abordar o documento, quero ressaltar que sem poder o comprovar, Golinger dá por feito que "ao menos desde 2005-2006" estas organizações recebem financiamento de NDI /NED. Ou seja que desde 2005-2006 até agora se recebe o suposto financiamento?

Passando ao documento, este diz que:

"Os treinadores mestres [da Rede de Partidos Políticos] proporcionaram capacitação a partidos políticos nos seguintes países: Equador - Pachakutik, Rede Ética e Democrática..."

Em todo o documento, essa é a única menção a Pachakutik, nenhuma menção direta à CONAIE.

Agora alguns pontos chave achados na "análise" de Golinger sobre o documento:

O documento não menciona nunca qualquer receção de financiamento direto, quer de Pachakutik quer da CONAIE.

O único financiamento referido no documento para Equador no orçamento de 1 de abril de 2005 a 31 de março de 2006 é para os custos de viagem de dois "treinadores" a Quito desde Washington DC e de regresso, para um "seminário de treinamento". O custo total foi de USD $1,700.

O projeto referido no documento -Projeto de Liderança Política- nunca explica de que se tratou dito treinamento. O que se diz é que no -treinamento- participaram pessoas de países que incluíram: "Bolívia, Brasil, Colômbia, República Dominicana, Guatemala, México, Paraguai, Peru e Venezuela." E então onde ficou o Equador?

Golinger usa a frase "nesse momento", o que significa que ela sabe que Pachakutik e CONAIE tiveram um distanciamento, no entanto, para ela isto prova algo, ainda que não esteja segura de que é o que prova.

Usa a frase "ao menos desde" implicando um financiamento ou treinamento subsequente, como se fosse algo que prevalece, e do qual não oferece evidência alguma. Para Golinger todos são culpados, não sabe de que mas todos são.

Contrariamente ao que Golinger afirma, como dissemos, no documento não há prova de financiamento algum de qualquer destas entidades a Pachakutik ou à CONAIE . Mesmo assim, a 8 de outubro, em resposta a um comentário de um leitor de seu blog no qual diz que o suposto "financiamento" -nunca comprovado é no período prévio à chegada ao poder de Correa, Golinger disse que:

Estes são documentos obtidos mediante FOIA , e hoje em dia é realmente difícil conseguir que agências estadunidenses deixem livres documentos. Estamos em isso, mas leva tempo. O que estes documentos mostram é um padrão de financiamento destes grupos.

Não sabemos então a que documentos se refere, porque de acordo à leitura correta do documento não encontramos o tal "padrão de financiamento", e continua:

E se receberam financiamento/treinamento/assessoramento dantes, a conclusão mais provável é que ainda o estejam recebendo.

Primeiro tinha dado por feito o "financiamento/treinamento/assessoramento", mas agora parece que não. A frase memorável: "a conclusão mais provável", quer dizer que baseia toda sua "evidência" em supostos. Continua:

Além do mais, foi no tempo em que Correa foi eleito e NED /NDI financiaram as pessoas de Pachakutik/REDE que competiram contra ele nas [eleições] de 2006 e 2009.

Este ponto é chave, porque -além de repetir que NED /NDI financiaram a Pachakutik/REDE- afirma que concorreram contra Correa nas eleições de 2006 e 2009. Recordemos que nas eleições de 2006 Pachakutik decidiu apoiar Correa para a segunda volta das eleições! Porque seguramente Eva Golinger esquece-o, ou prefere não o recordar, Zibechi diz:

Para a segunda volta [das eleições de 2006] criou-se um vasto movimento político-social de apoio à candidatura de Correa, integrado pelos partidos Pachakutik (indígena), Movimento Popular Democrático, Partido Socialista e Esquerda Democrática, mas sobretudo, sustentado por mais de 200 organizações sociais.

Então de acordo com o que diz Golinger, um partido que integrou a Aliança País para levar a Correa ao poder "recebia financiamento/treinamento/assessoramento" por parte de NDI /NED. Ou me engano? Mas Golinger continua:

Também outros documentos do Departamento de Estado evidenciam o desgosto da CONAIE para com Correa, o que abriu a porta para que se formassem "alianças" contra Correa que foram "ajudadas" e "impulsionadas" por agências dos Estados Unidos".

Este tipo de financiamento/treinamento/assessoramento é muito complexo e eficaz porque permite às agências estadunidenses infiltrarem os grupos de todos os espectros. Não estou dizendo que todos estes grupos e seus membros sejam agentes estadunidenses ou que recebam financiamento dos EUA , mas a evidência é muito clara de que certas facções dentro deles têm relações próximas com as agências estadunidenses e recebem seu financiamento. E, compartilha uma agenda comum, contra o Presidente Rafael Correa. Isso é inegável.

Uff, tantos pontos por abordar. Quais documentos do Departamento de Estado? Bom, não é tão necessário pois para quase todos é claro que a CONAIE tem um "desgosto" para Correa, e um "desgosto" muito fundado, nunca outro governo tinha ameaçado de tal forma os princípios de luta da CONAIE e das comunidades indígenas, e pior ainda, portando a bandeira "progressista" (Posteriormente desenvolveremos estes pontos). A que se refere Golinger com "alianças contra Correa"? Às comunidades indígenas lutando por seu legítimo direito à terra e aos recursos naturais que protegem das companhias trasnacionais às quais Correa abre a porta? Golinger acusa-os de receberem "ajuda" de agências estadunidenses, e o pior é que não o comprova. Mas para terminar, Golinger comenta que "não diz que todos estes grupos e seus membros sejam agentes estadunidenses ou que recebam financiamento dos EUA". Mmm? Não ou sim? Então não entendo o ponto de atacar sem provas bem fundamentadas.

Quanto às acusações à CONAIE, Raquel Gutiérrez, comenta a este jornal que "a CONAIE está inscrita no imaginário dos equatorianos rurais, e também urbanos, como essa entidade abrangente capaz de dotar a todos de capacidade de mobilização, que é muito dizer, pansa isso desde o México, daríamos pulos de alegria" e finaliza puntualizando o absurdo das tais acusações, "Não sejam ridículos, não sejam ridículos! Os inimigos reais que têm que vencer o patrão de USAID são esses povos."

A democracia a partir de cima

Ante este panorama o que no dia 30 de setembro passado se viu no Equador é o exemplo perfeito da desacreditação por parte do governo, e alguns meios, contra movimentos sociais que não foram cooptados ainda por estes "progressistas". O nulo apoio da CONAIE a Correa nesse dia serviu também para destapar os esgotos das políticas de alguns governos do continente para com os movimentos sociais.

E o caso do Equador não é o único. Por todo o continente observamos as duas alternativas que um movimento social tem: ou são cooptados pelo governo de serviço, ou são atacados física e nominalmente. Surgem adjetivos como "desleais", "perigosos" ou "agentes do imperialismo", os quais tencionam despojá-los de sua história de luta e desacreditá-los perante a esquerda oficial eleitoreira, tentando aniquilar a memória das lutas do povo.

Contra a oposição de base que estes governos recebem, a moda é os acusar de "agentes imperialistas". Em julho passado, o presidente da Boliva, Evo Morais, desacreditou as mobilizações de grupos indígenas afetados pela extração petroleira no Amazonas dizendo que:

"Como a direita não encontra argumentos para se opor ao processo de mudança, agora recorre a alguns dirigentes camponeses, indígenas ou originários, quem são pagos com prebendas de algumas ONGs ."
Esta desqualificação de legítimas demandas de comunidades indígenas é algo muito comum nestes governos "progressistas", e estão impondo modas estilo Guerra Fria para atacar os mesmos movimentos que lhes permitiram chegar até onde estão. Em junho passado, TeleSur reportou que Correa

"denunciou planos conspirativos contra seu Governo, gestados desde Organizações Não Governamentais (ONG), que estão em seu país para persuadir os indígenas com o objetivo de que formem grupos extremistas e impeçam a utilização dos recursos naturais em benefício das comunidades."

Correa, quem estudou nos Estados Unidos e se doctoró na Universidade de Illinois, disse que: ?Estes gringuitos que agora vêm em forma de grupitos em ONG (...) vão contar esse conto a outros. Esta gente que já tem a barriguinha bem cheia"

Muitas vezes estes governos progressistas foram mais perigosos para os movimentos sociais que os governos anteriores. Os governos, com sua arma mediática, tentam desativar os movimentos para permitir o controle completo das lutas por parte do Estado. Os governos "progressistas" foram mais inteligentes, nesse senso, que os governos da direita, já que ocuparam espaços onde anteriormente estes últimos só os enchiam de balas, sem dizer que os "progressistas" não façam isso também quando for necessário. O Estado toma controle da autonomia adquirida por movimentos no continente para desarticulá-los e controlá-los, por outras palavras, para que não se saiam da gaiola.

Em relação a isso, Raquel Gutiérrez comenta que "Quando um governo consegue se consolidar, neste caso os governos progressistas, vai tratar de reinstalar e restituir a sociedade em seu lugar de demandante ou de obediente. Demandante porque só vai falar ao governo para lhe pedir, não para lhe dizer o que fazer." E esta situação foi constante no continente, de cima olham para baixo só para outorgar uma ou outra concessão, ou para reprimir, mas não para cumprir os princípios dos movimentos que os levaram até aí.

Mas com respeito às acusações, quem tem o direito para criminalizar um movimento social por se não entregar às bondades que a "democracia" eleitoral lhe atribui? Se o objetivo for a conquista do poder, e conseguiram-no eleitoralmente, parabéns por essa luta, mas esse não é o único nem primeiro objetivo de muitos movimentos e comunidades no continente que o recusam e que buscam uma transformação verdadeira da estrutura de dominação. Muita da esquerda eleitoral parece não ter memória, e finalmente tem claudicado ante os excessos que o poder outorga.

No Equador, a visão dos acontecimentos de 30 de setembro e o nulo apoio da CONAIE ao governo de Correa foi muito simplista. Terá que recordar a muito vasta história conflituosa recente entre ambos atores antes de sacar conclusões apressadas.

As bondades da democracia "progressista"

Com a chegada ao poder de Correa abriram-se as portas para um aparente ?consenso? da esquerda a um modelo econômico igual de neoliberal que dantes, mas agora enfatizado como o ?desenvolvimento progressista.?

Reformas de exploração de recursos como a Lei Mineira e a Lei de Recursos Hídricos foram aprovadas com o aval dos mesmos que ahoran acusam de ?gringuitos? ou ?agentes do imperialismo? às comunidades que se opõem a ditos projetos. A política dos recursos naturais do atual governo equatoriano foi a ponta de lança nos confrontos entre a CONAIE e Correa.

Tão só em quanto às polêmicas Lei Mineira e Lei de Recursos Hídricos, se podem enumerar muitos casos nos que as forças do governo "progressista" de Correa e sua "Revolução Cidadã" reprimiu e assassinado comunidades indígenas que se resistem à entrada de trasnacionais em seus territórios. Pois as reformas que o governo de Correa aprovou nunca consideraram as comunidades indígenas para sua aprovação ou rejeição.

Em janeiro de 2009 foi aprovada a Lei Mineira sem a consulta dos povos indígenas do Equador, violando flagrantemente o Artigo 6 da Convenção 169 da OIT. A lei, entre outras coisas permite a exploração de recursos minerais por parte de companhias estrangeiras sem o consentimento das comunidades atingidas.

Nas repressões de Dayuma em dezembro de 2007, ou nas de Quito em maio de 2010 pela Lei de Recursos Hídricos, a mensagem do governo foi clara: se não estiveres com os "progressistas" vais saber o que é bom. Uma fórmula muito conhecida na América Latina.

Mas estes meios e jornalistas de Estado que defendem a morte o governo de Correa nunca reportam estes fatos. Onde está esta esquerda vanguardista quando Correa reprime camponeses e indígenas que se opõem à Lei de Mineração, à Lei de Recursos Hídricos, ou à exploração petroleira na Amazônia? Para Zibechi, "Correa entrega águas e terras às multinacionais, mas isso a esquerda não o quer ver, ou não pode vê-lo porque só se importa com ter gente amiga no poder. Isto é terrível."

Orientados para o circo de cima, esquecem que a história a fazem os povos e não o governo de serviço. Nunca existe uma crítica destes meios e "jornalistas" a estes governos, e nunca a terá. E ainda que seja óbvio, não questionam que estes governos mantenham intacta a estrutura de dominação-exploração mas com o mote do "progressismo". Mas de um pulo querem apagar a longa luta que a CONAIE tem livrado nestes mais de 20 anos. Quanto a isso, a experimentada organizadora mexicana em Chiapas, Mercedes Osuna, refere que as "acusações são falsas". Osuna, comenta que "conhecemos os companheiros da CONAIE quando nos convidaram a um encontro em 2008, e desde então seguimos sua luta a partir de Chiapas" e que a partir de sua experiência e sua relação com a CONAIE para ela "estas acusações são infundadas e estão cheias de calúnia."

Por mais que os jornalistas "progressistas" de Estado queiram crer, o governo de Correa não é uma ameaça às "agora sim" imperialistas corporações sem nacionalidade. Durante seu governo as corporações trasnacionais não tiveram problema algum para entrarem e levarem os recursos, os projetos de infra-estrutura ditados pelo Banco Mundial e o BID para a IIRSA (Iniciativa para a Infra-estrutura Regional Sudamericana) -uma espécie de Plano Povoa Panamá levado até o sul-realizam-se com a aprovação de Correa, e com a totalidade destes governos progressistas.

Todo isto nos leva a pensar que o discurso de esquerda de muitos governos é muito efetivo para aplicar uma política econômica que continua desangrando o nosso continente. Quem vai se opor a um governo do "povo" se ao final serás desacreditado e acusado de imperialista por não seguir as políticas do "neoconsenso progressista"?

Para Óscar Olivera, as acusações à CONAIE são inverossímeis: "Em absoluto me animaria sequer a pensar que a CONAIE sequer está metido com acordos com USAID e demais. É uma forma de subestimação e de desqualificação de um movimento de base e legítimo." Em conversa com Narco News, Olivera faz sua observação pessoal com respeito às acusações: "acho que basicamente estes meios de comunicação, só lhe estão fazendo jogo a estes governos que assentaram seu modelo de desenvolvimento, modelo estritamente capitalista. O único objetivo é ter recursos para seguir paliando as verdadeiras necessidades da população e não questionam isto do progressismo que deveria ter nos governos com um novo modelo de desenvolvimento a partir do que a pachamama nos brindou." Óscar tem uma longa história nos movimentos autônomos em seu país, e sabe do que está falando, finaliza dizendo que, "desqualificar isto [a CONAIE ] é desqualificar todas essas lutas dos irmãos indígenas, não somente os últimos 20 anos com a CONAIE , mas nos últimos 500 anos ou mais [em] que se livrou contra este modelo imposto e com esta concepção absolutamente mercantilista da vida."

Como dissemos, muitos destes governos são produto da longa luta que os movimentos realizaram desde abaixo. No entanto, é interessante como ditos movimentos se viram mais ameaçados desde que os governos progressistas ocuparam o poder. Para Raquel Gutiérrez "o que há que impedir desde o ponto de vista do capital, é que volte a ter mobilizações. Enquanto estes governos conseguirem manter fluindo por um caminho bastante controlado a desordem que se gerou nos anos anteriores, nos anos das lutas, convém que [esses governos] estejam aí, mas não convém que se movam ou que façam questões claramente contra as intenções das trasnacionais que protege o poder político e militar estadunidense."

No caso equatoriano, a CONAIE tem um longa história de luta em suas comunidades contra a exploração, e supõe-se que o governo "progressista" de Correa deveria velar pelos interesses de seus cidadãos, mas ao invés, explorá-los sob a bandeira progressista, o que legitima ante certa esquerda qualquer situação.

Para estes governos e seus jornalistas afins, as lutas de base não têm espaço no "progressismo" estatal. Ou que é o que estão propondo? Que a luta tem um só caminho? Competir com a direita nas urnas e, portanto, desacreditar os movimentos que não aderem à tal luta. Quem é mais autêntico? O que busca a saída eleitoral a partir de cima ou o que todos os dias constrói sua autonomia a partir de baixo?

E assim, depois do "golpe" as peças vão-se acomodando. O "resgate" de Correa por parte do agora vangloriado heróico exército equatoriano fez com que as FFAA sejam o grande beneficiado, junto a Correa, do espetáculo da quinta-feira 30 de setembro. Esquecendo o que se passou em Dayuma aquele dia de dezembro de 2007:

"O desemprego foi reprimido brutalmente, vieram [os militares] a despejar segundo a forma de actuar eles seguramente", amplia Rosa Alvarado. "Eles vieram armados como se viessem a combater com alguém e arremeteram com bombas lacrimógenas, não lhes importando se tinha meninos e mulheres grávidas, pessoas idosas."

Estes governos e "jornalistas" de Estado dão uma longa lista de acusações infundadas, esquecendo que em muitos dos casos esses mesmos governos "progressistas" recebem a ajuda direta a projetos desde entidades como a USAID .

Em julho passado, Andrés Solís, quem foi Ministro de Hidrocarburos do governo de Evo Morais perguntou ao presidente e vice-presidente, Álvaro García Linera, ante as acusações de Morais às comunidades opostas à exploração petrolera, "Por que, apesar desses julgamentos de valor, permitiram que USAID , o Banco Mundial e ONG européias desenhassem o Estado plurinacional vigente. USAID financiou, o 2004, a "Unidade de Coordenação para Assembléia Constituinte.""

É uma pergunta interessante no contexto das acusações destes governos e "jornalistas" contra os movimentos sociais. E não é de surpreender que o resultado dessa Assembléia Constituinte na Bolívia só aceitasse a participação a partidos e organizações legalmente constituídas, as organizações e movimentos sociais não participaram e ficaram relegados, ainda quando eram os principais promotores.

Ou por que não há questionamento em torno de que, de acordo com investigações de Narco News, o governo estadunidense proporcionou financiamento ao "heróico" Exército Equatoriano? De acordo com o lugar da Embaixada dos EUA no Equador, os Estados Unidos destinaram um total de 50 milhões de dólares no ano 2009, os quais se conduziram para:

-O programa de Educação e Treinamento Internacional Militar (IMET, por suas siglas em inglês)

-Programa de Associação em Contraterrorismo (CTFP, por suas siglas em inglês)

-Financiamento Militar Estrangeiro (FMF, por suas siglas em inglês)

Esforços antinarcóticos

O problema é que agora o exército equatoriano saiu como o defensor da democracia equatoriana e, por tanto, a atenção se desvia aos movimentos sociais "imperialistas." Mas que tivesse passado se o "golpe" tivesse tido o total apoio das FFAA do Equador?

A modo de conclusão, a questão aqui é que o jornalismo autêntico, diferentemente do "jornalismo" de Estado, não se faz a partir de um gabinete em Washington ou Caracas, mas no caminhar constante com os movimentos que fazem a diferença, mais que com o círculo de cima. E portanto precisa-se mais que a defesa sem condições aos Estados "progressistas" latino-americanos para descobrir a realidade do que sucede no hemisfério.

Como bem sabe a gente da CONAIE, e estes símbolos das lutas latino-americanas: a revolução não se impõe de cima, a verdadeira revolução se trabalha a partir de baixo.


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