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Telmo Varela

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Luita contra o tempo

Telmo Varela - Publicado em Quarta, 14 Março 2012 15:11

Telmo Varela

No cárcere o tempo é sumamente lento, preguiçoso, intrincado, tedioso, teimoso... chega a pesar um mundo, um mundo inteiro e há que combatê-lo dalgumha maneira, sem complexos e sem contemplaçons, com todas as armas ao alcance, ou vas apanhado. Se nom, ele come-te, deixando-che só o esqueleto, convertendo-te pouco a pouco num farrapo.


Primeiro come a identidade, a personalidade, depois continua a comer quem és, o porque estás aqui, o que representas, e é tam famento o condenado que nom se conforma com comer um pouco, come e come, come-che a dignidade, a rebeldia, comete-te todo, até as entranhas e já nom sabes se és ou nom és quem tu és; se és um despojo ou um galego com identidade própria, com umha língua milenária que vinheste parar com os teus ossos aqui para resistir e enarbolar a bandeira da Pátria, e que tés que sair de aqui com a bandeira na mao, e falando galego, sonhando com as montanhas e as rias da Galiza ou o inimigo escacha de rir e baba-se de satisfaçom.

O cárcere é feito para destruir a pessoa, submetê-la e humilhá-la. O cárcere de tanto tempo famento que é fundamental seguir luitando, com todas as forças, contra as humilhaçons e pelejar por conservar a dignidade.

O inimigo nom quer que combatas o tempo, por isso pom mil e um entraves, impedimentos, censura a correspondência e limita-a a duas ou três cartas por semana, obriga-te a estar na cela ou no pátio todo o dia deitado para que sintas com toda a crueza como te come o tempo. Para os presos comuns ainda há algumha atividade, como cursos de desportos, cursos de informática, teatro, escola, et cétera. Para os presos politicos, nom há nada disto, com a escusa de que somos FIES (Ficheiro de Especial Seguimento) denegam-nos qualquer atividade que solicitarmos. Já nos ponhem nesse ficheiro para isso, também com essa mesma escusa trazem-nos de aqui para lá, mudando-nos de módulo e de cadeia, dispersam-nos a cárceres cada vez mais longe da família e amizades, com todo o que isso supom de sofrimento e carga económica para as pessoas que venhem visitar-nos.

Aqui, no cárcere de Topas, no módulo 2, é a negaçom da negaçom, nom há quarto para manualidades, nem biblioteca ou quarto de leitura, como há noutras prisons. Agora mesmo estou a escrever num quarto comum para todos os reclusos, onde a televisom e as rádio-cassetes estám a todo volume ao mesmo tempo, a gente a jorgar dominó, batendo com as fichas com a força na mesa e berrando como possessos. Com todos estes decibéis, é para ficar louco, e na prática umha grande maioria estám.

Na prisom nom se reeduca nem se reinsere ninguém, é umha fábrica de delinqüentes, o que sai de aqui é capaz de cometer os crimes mais horrendos. Assim é que a maioria entra, a primeira vez por delitos menores, e depois voltam a entrar por delitos que ponhem os cabelos em pé.

Estou disposto a combater o tempo com unhas e dentes, por tal motivo os carcereiros consideram-me um preso perigoso, revistam-me a cela umha vez por semana, como mínimo. Nom revistam as grades, nom hó!, revistam minuciosamente os papéis, detenhem-se para ler os meus escritos, anotam os livros que estou a ler e todas aquelas publicaçons suspeitas de serem mui de esquerda ou independentistas levam-nas requisadas como se fossem trofeus de guerra. O que monstra que pouco lhes importam os "delitos" polos quais estou, pois o que realmente os preocupa som os ideais políticos, os objetivos polos quais luito.

Nom me autorizam a entrada de materiais, nom disponho de nengumha ferramenta, mas ainda assim nom permito que o tempo me coma. Com as maos, com a vontade de combater o tempo e com papéis, fago aves para presentes para a família e amizades. Com os pauzinhos de remexer o café fago caixinhas ou joelheiros. E assim organizo o meu combate ao tempo, diariamente dedico umhas horas a trabalhos manuais (com o pouco que podo reciclar do que cai nas minhas maos), outro par de horas a escrever, e outras duas horas o estudo e ler, e umha hora de ginástica. E, desta forma, inclusive sou eu o que come o tempo, em lugar de que seja ele que me coma a mim. Às vezes, gostaria ter mais tempo para findar determinado artigo para que chegue na data assinalada.

Nom podedes imaginar como dói ao sistema carcerário, apesar de todos os entraves e impedimentos, ver que nom podem fechar completamente todo, há cousas que se lhes escapam das maos, nom podem fechar as ideias, os pensamentos, o espírito, o agarimo, enraivam e comem a bílis, porque, com tanta cámara de segurança, muros, grades, medidas e mais medidas de segurança, normas e mais normas nom podem fechar a ideologia, nem podem fechar de pedra e cal o espírito libertador. Se enraivam, que enraivem. O seu sistema é injusto, é um sistema que se baseia na repressom e opressom, e como nom todo é reprimível os seus cimentos abalam e um pouco que empurremos venham abaixo.

Muitos carcereiros sentem-se, por diferentes motivos, tam presos ou mais que os próprios presos, estám como amargurados, insatisfeitos, no fundo, sem serem conscientes disso, nom se sentem realizados com o papel que desempenham ao serviço dumha sociedade injusta a todas a luzes.

Cárcere de Topas (Salamanca)

24 de fevereiro de 2012


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