Às vezes deixavamo-nos saudaçons e mensagens escritas na poeira das janelas do patamar das escadas -terceiro sem elevador- do prédio de casas baratas em que estivemos aquele curso.
Na mesa e nos sofás de skay estilo anos cinqüenta da sala acumulavam-se cartazes e livros de antropologia. Marinho Ferro e Marcial Gondar eram dos personagens mais referenciados nas sobremesas. Os temas estrela eram as meigas, a morte, os milagres e em geral a vida pre-moderna do rural galego que tam próxima nos era e ao mesmo tempo, que tanta curiosidade nos criava; das histórias da Santa Companha, até as formas de integraçom e exclussom social populares.
Às vezes enredávamos com a conversa após a ceia e dava-nos a deshora. Carlos explicava-me a vida de Bourdieu para entender melhor os seus textos. Passava-me bibliografia de Zizek e de Bauman em padrom lisboeta. Foucault era o ídolo entre as nossas colegas da faculdade de Filosofia; o panóptico, os mecanismos repressivos do poder, o funcionamento da prisom.
Imaginávamos como seria a vida lá dentro, líamos relatos de fugas de Garfia, de Tarrio… As denúncias de torturas das presas políticas bascas, as cartas da prisom de Ugio e Giana. As histórias das nossas conterráneas dos GRAPO e do PC(r).
E sim, também mexericávamos sobre o panorama independentista, sobre as piadas dos “lideres da revoluçom”, sobre as nossas aventuras e as das demais…
Jantávamos às quartas-feiras no refeitório popular da Casa Encantada. Andávamos de assembleia em assembleia. Passávamos as tardes de chuva no local de estudantes da faculdade de História, quando ainda era um espaço livre, e ali conspirávamos contra o processo de Bolonha, organizávamos trabalho e fazíamos material. Escrevíamos conclusons nas paredes. E algumhas vezes saímos a tomar umhas cervejas, nas tabernas da cidade velha onde nos deram uns petiscos.
Depois voltávamos a casa, quase sempre deixando a malta ainda nos bares. A partir de certa hora a música tam alta nom nos deixava continuar o papo. E qualquer situaçom dava para novo tema: como som as relaçons sociais nocturnas, o porque da música tam alta, as características das conversas entre os decibélios de mais e o álcool…
Falávamos das relaçons líquidas, das sólidas, das formas de irmandade, de como existem irmás que nom partilham mae nem pai.
E foi assim como nos fomos fazendo irmás, até hoje.
Hoje continuamos debatendo. Sobre o amor, sobre o Estado e a Revoluçom, sobre as nossas aventuras -de dentro e de fora dos muros-. Agora rimo-nos os 45 minutos que partilhamos no locutório e beijamo-nos através dos vidros, diante dos carcereiros, enquanto também se beijam o preso basco, o cigano e o árabe com as suas visitantes, metidas todas nas mesmas jaulas de vidro.
Depois despedimo-nos, erguemos o punho, sorrimos e caminhamos arrastando os pés. Ele para dentro, eu para fora.
Eis a nossa realidade sólida. Eis o nosso vínculo sólido. O nosso caminho. O meu irmao. E o nosso riso retumbando na sua prisom. E as nossas razons rebentando os seus muros. Nom conseguírom converter-nos em eles. Encerrarom-te, Carlos. Mas ainda somos nós. E seguimos ao nosso. Até que te ceivemos. Até todas sermos livres.
Charo Lopes