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mariaugia-157x120Galiza - Partido da Terra - Maria Ugia Álvarez é de Doiras (Terra Eu-Návia) e estuda sexto ano de medicina na Universidade de Santiago. Militante do PT, forma parte também de Siareir@as Galeg@as e joga na equipe de futebol gaélico "Suévia" da Gentalha do Pichel.


Participas muito ativamente de Siareir@s Galeg@s. O que nos podes contar do teu trabalho lá?

Ainda que a trajetória de Siareir@s Galeg@s é longa eu já levo três anos e meio trabalhando de forma ativa. O meu trabalho é como o do resto das pessoas que configuramos a organização, pois funcionamos assemblearmente e repartimos o trabalho dentro das nossas possibilidades. Faz pouco organizamos a jornada de Natal, na que a seleção galega jogou contra o Curdistão. Desde a volta do PP à Junta da Galiza e a supressão do amistoso anual da seleção galega de futebol, somos nós quem lhe deu continuidade ao tradicional jogo. Isto concluiu numa reorganização na que a gente de Siareir@s teve de implicar-se mais e fazer um grande esforço para organizar umas jornadas que cada ano concentram centenas de pessoas que podem desfrutar do jogo da galega e de outras atividades que se fazem à volta. É certo que isto exige um grande compromisso pola nossa parte e um trabalho que às vezes se faz duro, mais o resultado paga a pena. Este ano também organizamos, durante o festival da Terra e da Língua da Artábria, o primeiro encontro internacional entre seleções de futebol gaélico. O encontro entre a Galiza e a Bretanha foi a faísca que prendeu no movimento galego e que fez com que no prazo de poucos meses contemos já com várias equipas no país.

Também jogas na equipe de futebol gaélico de Compostela, "Suévia".Trata-se dum desporto de recente implementação na Galiza mas com muito pulo. Porque futebol gaélico e porque na Galiza?

Foi surgindo de jeito espontâneo depois do jogo entre a seleção galega e a da Bretanha. O futebol gaélico é o desporto nacional na Irlanda, onde está proibido cobrar um salário por jogar e onde as raízes culturais estão por cima do negócio, que hoje por hoje prima em quase todo o panorama desportivo. Isto fez espertar certas consciências no nosso país donde o acesso ao verdadeiro desporto de base é quase impossível e onde qualquer competição, ainda que não seja profissional está gerida polas federações espanholas. A oportunidade de explorar um desporto de equipa, em chave galega e popular e a de criar uma futura liga e seleção galega com reconhecimento internacional não se podiam deixar escapar.

Estás finalizando sexto ano de medicina e preparando o MIR. Que achas da situação atual do sistema de saúde?

Penso que o sistema de saúde, tal e como o conhecemos hoje, é totalmente insustentável. Não estou a negar que se fizeram muitos avanços e que no nosso tempo passemos quase sem conhecer doenças que em outros tempos poderiam acabar connosco, mas há muitas outras cousas nas que se retrocedeu ou nas que se foi por caminhos errados. Hoje podemos ver como o que prima na sanidade não é a saúde das pessoas, mas os benefícios económicos.

Temos um sistema de saúde que até o de agora foi "público", mas que também implicou um gasto totalmente desorbitado e que tem data de caducidade. Acostumamos à sociedade a acudir ao médico por tudo, a desconhecer o seu próprio corpo e a que tudo tenha uma solução farmacológica. Ainda, o atual sistema de saúde centrou quase todos os seus esforços em paliar os sintomas das doenças e mui poucos em educar pessoas sãs. As pessoas já não somos donas do nosso corpo, não sabemos nada sobre ele, nem fazemos por mantê-lo. Limitamo-nos a colocá-lo em mãos alheias pois sabemos (ou achamos) que ante qualquer cousa que lhe passe teremos um tratamento, isso sim, sem sermos bem conscientes das suas consequências.

A atual situação económica está provocando que grande parte da população fique sem assistência médica dentro do sistema, enquanto a indústria farmacológica não deixa de encher os petos. É uma boa oportunidade para dar-lhe a volta e criar uma medicina verdadeiramente pública, que comece polas próprias pessoas, mas isto, como muitas outras cousas, há de vir ligado a uma mudança social em geral. A dia de hoje, temos nas nossas mãos a possibilidade de fazer uma medicina integrativa, na que o conhecimento da medicina tradicional e a atual podem caminhar juntas, fazendo que seja muito mais eficiente.

Como se sente uma eunaviega em Compostela?. O que nos podes contar da tua comarca? Como foi o relacionamento durante a tua infância e adolescência com o sistema educativo asturiano?

Cheguei a Compostela há seis anos para estudar medicina, sem saber quase nada sobre a situação da língua galega nem do panorama político. Ao início não era nem consciente de que eu falara galego, nem da história da minha comarca, nem nada. Isso sim, conhecendo mundo e escutando à gente não foi muito difícil destapar a evidência. Para mim, viver em Compostela como eunaviega galega de língua e sentimento é simples, pois é evidente que são uma mais, mas quando visitas a tua Terra e sai a conversa não o é tanto. Não por mim, mas por sentir-te, polo menos, compreendida e respeitada.

A situação da minha comarca em geral é a de muitos outros lugares do rural galego: cada vez menos população, envelhecimento, depressão económica, social e cultural. É por isto que, mesmo que o galego se manteve hegemónico na oralidade até faz pouco, agora é cada vez mais raro ver a alguém de menos de vinte anos empregando-o, e muito menos na vida pública. Por outra parte, as instituições asturianas e espanholas fizeram por minar qualquer sentimento de identidade galega na comarca, associando o galego como inimigo e inferior.

A minha infância tampouco foi mui doada. Nasci em Doiras e nos primeiros anos de escola fui a Boal. Lembro com nostalgia esses anos. Na casa e no pátio da escola falava em galego, mesmo que as aulas eram em castelhano. Digamos que era o "normal". Com 9 anos fui viver a Coanha (já mais na zona costeira) e parece ser que lá não era tão "normal" que uma rapariga falara galego na escola. Muito menos se tirava boas notas. Até alguma professora chegou a falar com a minha mãe para que eu deixara de usar essas palavras "do monte" e fizera por me adaptar ao "ritmo" das aulas pois o resto de companheiras e companheiros não admitiam que uma meninha "de lá arriba" pudesse ter melhor nível educativo. Com o tempo fui-me adatando dentro do possível e fazendo alguma amizade, mas sempre tive presentes as minhas raízes e esse orgulho de ser da aldeia e de não falar castelhano. Quando cursava quinto de primária, começou-se a dar "gallego-asturiano" como optativa na escola.

Eu colhi-a um par de anos, mas parecia-me brincadeira. Ensinavam-me a minha própria língua como se não a tivesse falado nem escuitado nunca e fazendo-che sentir que o seu único uso era o de língua de museu. A dia de hoje não tenho mui claro como está a situação desta matéria na educação, mas polos resultados na rua não creio que tenha mudado muito.

Se o Partido da Terra Eu-Návia tivesse amanhã a capacidade política de mudar três cousas no funcionamento político da comarca do Eu-Návia, quais seriam, para ti, essas três cousas?

A implantação dum sistema educativo em galego, a plena soberania económica, territorial e energética da comarca e a conservação do património histórico, cultural e ecológico.

Foto: PT


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