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150513 sempre xonxaGaliza - PGL - [José Paz Rogrigues] No formoso filme "Sempre Xonxa", realizado em 1989 por Chano Pinheiro, considerado como a primeira longa-metragem da pequena história do cinema galego, curiosamente atua, no papel de D. José Luís, o mestre da escola, Roberto Vidal Bolanho, a quem no presente ano de 2013 se dedica o "Dia das Letras Galegas".


O filme é ideal para projetar nas nossas escolas, dentro dos atos educativo-culturais da Semana das Letras Galegas. E realizar atividades pedagógico-didáticas, arredor da sua mensagem, da história que conta, das diferentes personagens que acolhe o seu roteiro, da linguagem fílmica empregada pelo seu diretor, do papel da escola que nele aparece, e mesmo do mestre ocasional, apodado "Caladinho", interpretado magistralmente por Roberto Casteleiro, um real professor de secundária num Liceu do Barco, que tive a sorte de conhecer pessoalmente, quem com grande magia desenvolve entre os rapazes da aldeia ações educativas e lúdicas, dentro do que Cossío acertadamente denominava "educação difusa", que na maioria das vezes é mais importante e decisiva que a própria educação formal de programas e currículos oficiais. Pela sua influência na mente e nas atitudes de crianças e jovens, e na sua formação futura.

Como membro do conselho diretivo do Cineclube "Padre Feijóo" de Ourense, em 1973 tive a sorte de fazer parte do comité organizador das "Iª Jornadas do Cinema de Ourense". Estas tinham como principal objetivo promover o nascimento de um cinema propriamente galego, tanto na forma como na língua a empregar, como nos seus conteúdos. Porque considerávamos que a nossa cultura, a nossa paisagem, a nossa natureza, os nossos costumes, o nosso folclore, a nossa música, a nossa cultura popular, o nosso rico ciclo anual das festas tradicionais, a nossa literatura, as nossas lendas e contos, os nossos romances, as nossas artes, a nossa história, o nosso riquíssimo meio social e natural, tudo, tinha que ser expressado também por meio da imagem, por meio da reconhecida como "sétima arte" que é o cinema. "O Cinema Galego é a consciência do seu nada. Já é algo", rezava acertadamente o limiar do programa, cujo formoso cartaz fora elaborado por Vidal Souto, da primeira edição das nossas "Jornadas". As mesmas chegaram a promover, a partir desse momento, a rodagem de diferentes curta-metragens e documentários. Entre eles, "A Tola" de Miguel Gato, filme sequestrado e final e tristemente desaparecido, "O Cadaleito", "O Herdeiro", "Fendetestas", "O pai de Miguelinho", "O retrato", "A Ilha", "A ponte da verea velha", "Mamasunción", "Esperança", "Retorno a Tagen Ata", "Os oleiros", Malapata", etc., realizados por jovens diretores galegos como Baixeras, Carlos Pinheiro, Castelo, Eloi Lozano e outros. Até que Chano Pinheiro realiza em formato 35 mm. a primeira longa-metragem galega, com o título de "Sempre Xonxa". Que já é todo um clássico por excelência, por ser a primeira e por estar integrada perfeitamente na memória coletiva da Galiza, o nosso país. A segunda longa-metragem do cinema galego fora "Urxa" de Carlos L. Pinheiro do grupo "Imagem".

Em "Sempre Xonxa" aparecem os conteúdos propriamente galegos, o mundo rural, a vida na aldeia, as histórias da emigração, especialmente para a América, que o diretor tinha escutado de rapaz no seu Forcarei natal sendo criança, histórias que eram próprias de toda a comunidade galega, tanto na Nossa Terra como na diáspora. As consequências da emigração positivas e negativas, tanto emocionais como históricas; a necessidade de emigrar os homens jovens na procura de um trabalho e de algo de dinheiro, a importância da formação e da educação, da qual muitos se faziam conscientes quando chegavam aos países americanos, e por isto criaram as Sociedades de Instrução para fundar mais de 300 escolas na Galiza ao longo do tempo, da primeira metade do século XX. Também o ambiente da época durante décadas, e em especial aquelas em que houve mais emigração. Igualmente aparecem a escola do momento com a sua educação formal, e a escola paralela da vida e o ambiente, com a sua educação informal ou difusa, não menos importante. E as amizades durante a infância, etapa tão importante da vida, com a sua repercussão positiva ou negativa na vida posterior. E, como é lógico, também o amor. Porque sem amor não há vida.

Ficha técnica do filme:

Título original: Sempre Xonxa.

Diretor: Chano Pinheiro (Galiza, 1989, 114 min., cor).

Roteiro: Chano Pinheiro.

Fotografia: Miguel A. Trujillo e Cristina Otero. Música: Pablo Barreiro, Carlos Ferrant e Marcial Prado.

Montagem: Cristina Otero. Decorados: Rodrigo Roel. Vestuário: Peris Hermanos.

Produtora: Produções Cinematográficas Pinheiro, S. A.

Coprodutoras: Televisão da Galiza (TVG) e Sociedade Estatal Quinto Centenário.

Subsídios: Concelhos de Cangas, Ponferrada, Fene, Vilarinho de Conso e A Rua, Deputação de Ponte Vedra e Instituto Espanhol de Emigração.

Locais de rodagem: Santa Olalha (Petim), Petim, Moinho de Soldão (Lugo), Bustelo de Fisteus (Quiroga), Vigo (porto), Ferreiria de Compludo e as Médulas.

Intérpretes: Ugia Blanco (Xonxa), Miguel Insua ("Birutas"), Xavier R. Lourido (Pancho), Roberto Casteleiro ("Caladinho"), Roberto Vidal Bolanho (D. José Luís, o mestre), Rodrigo Roel (D. Camilo, o cura). Rosa Álvarez (Rosa, mãe de Pancho), Aurora Redondo (Mamarrosa), Loles León (Minga), Luchi Ramírez (filha Xonxa moça), Jaime Nogueira (filho Xonxa moço), Ricardo Álvarez ("Índio"). Jovens e adolescentes: Maria Vinhas (Xonxinha), Roberto Fernández (Panchinho) e Manuel Alonso ("Birutinhas"). Crianças : Giselle Romero (Xonxinha), Xavier Rocha (Panchinho) e Miguel A. Gómez Sanz ("Birutinhas").

Argumento: Xonxa, Pancho e "Birutas" crescem juntos na aldeia. Chegada a adolescência "Birutas" emigra para a América e durante dez anos não dá sinais de vida, até que bem trajado e conduzindo um bom carro regressa à aldeia com a certeza de que o que deixou, fica aguardando. Mas há três anos que Xonxa e Pancho casaram e têm uma filha, Xonxinha. "Birutas" convence o seu amigo Pancho que na aldeia não há futuro e oferece-lhe um bom posto à frente de algum dos seus negócios. Pancho confia na sua palavra e parte com ele. Mas o "Birutas" deixa-o embarcar só, fazendo-lhe crer que tem um pequeno problema com os papéis. Convencido de que na ausência de Pancho há poder conseguir a Xonxa, "Birutas" volta à aldeia mas diante da negativa da mulher a manter relações, força-a e volta para América. Ao cabo de uns meses Pancho regressa e vem doente. Durante dias permanece fechado no quarto sem querer falar com ninguém. O mestre D. José Luís, consegue que lhe conte o que se passou. O "Birutas" enganou-o, teve-o trabalhando em troca de um jornal mísero para, posteriormente, denunciá-lo às autoridades por não ter os papéis em regra. Foi encarcerado e deportado. Pouco a pouco Pancho vai-se recuperando e volta à vida normal. Passam os anos e o inesperado regresso do "Birutas" vai alterar a tranquilidade das suas vidas. O mestre tenta inutilmente convencer o indiano de que volte para de onde veio. Na manhã seguinte Xonxa e Pancho encontram o seu antigo amigo pendurado de uma árvore.

História, vida, mundo rural e emigração na Galiza através de quatro décadas:

A rodagem de "Sempre Xonxa" foi feita em quatro fases, segundo as estações do ano. A história abrange o período que vai de 1947 a 1986, estruturando-se em quatro episódios ligados cada um a uma estação do ano. A primavera corresponde à infância, o verão à puberdade, o outono à idade madura de adulto e à emigração forçada, e por último o inverno à velhice e ao retorno dos emigrantes, uma forma muito original de enfiar o argumento e o roteiro. Ao contar quarenta anos da vida de uma aldeia não pode acontecer tudo numa só estação. Ademais cada idade tem um reflexo no clima. Para isto o filme foi rodado em diferentes tempos ou estações e localizado em diversos espaços naturais, rurais e urbanos de localidades da Galiza e do Berço, desenvolvendo-se as histórias que conta nos anos 1947, 1954, 1964 e 1986. Isto encareceu a filmação e supôs um grande labor na elaboração dos fatos e na reconstrução dos decorados, tanto estacionais como históricos. O roteiro escrito pelo diretor é muito original, não sendo a adaptação de qualquer obra literária, ao qual se soma um elenco de atores pouco famosos e desconhecidos a nível estatal, muitos amadores, mas com uma interpretação magnífica e destacada. Com tudo isto, o filme já é um clássico, amostrando uma forma de fazer cinema de qualidade que vai ficar para a posteridade.

O realizador, Chano Pinheiro, foi uma personagem especial, cineasta amador e boticário de profissão, os seus êxitos e aventuras merecem um reconhecimento. De saúde muito delicada, faleceu aos 41 anos, deixando muitas cousas por fazer e muitos projetos fílmicos, especialmente para o cinema galego, com o que a sua perda física foi muito negativa para o porvir do nosso cinema. Era um apaixonado pela sétima arte, embora não tivesse nenhuma formação académica neste campo. Tudo o que contou em imagens nos seus filmes foi um resultado da sua formação autodidática. Por isso no filme substitui a sua falta de formação técnico-fílmica, com grande sentimento e com um enorme entusiasmo, sentindo profundamente, até a identificação com ela, a história (ou histórias) que nos conta, do roteiro por ele criado e recriado. De maneira que estendeu a rodagem do seu filme ao período de um ano inteiro, para respeitar o tempo estacional e o devir da história. O que em muitos casos, salvando as distâncias lógicas, nos lembra o cinema de Fellini no seu "Amarcord".

No filme que analisamos, Xonxa, Pancho e "Birutas", são três amigos que riem e desfrutam da vida numa apartada aldeia ourensana e galega. Tal como lhe aconteceu a infinidade de galegos, especialmente do rural, "Birutas" tem que emigrar para a América na procura de uma vida melhor, mas antes promete a Xonxa que voltará para casar-se com ela. É certo que volta, mas quando o faz, ela já está casada com Pancho e ambos têm uma filha juntos. O "Birutas" não o pode suportar e a partir daí tudo se trunca devido aos seus ciúmes e o seu amor desmedido, quase doentio. Sem dúvida alguma, este filme contém três momentos de excelente beleza, tanto visual como argumental. Em primeiro lugar, aquele do embarque de Pancho rumo a América do porto de Vigo, em que sofre a traição do seu amigo "Birutas". Em segundo lugar, a violação de Xonxa por parte de "Birutas", representada com uma milimétrica e muito acertada montagem fílmica. Em terceiro e último lugar, a reprimenda que o mestre D. José Luís, magistralmente interpretado por Roberto Vidal Bolanho, que pela sua ação lhe faz ao "Birutas". São estes três momentos de excelente força cinematográfica, que podia assinar qualquer grande cineasta, em que as carências técnicas passam a um segundo plano a favor de uma história que brilha com luz própria.

Trata-se de um filme muito realista, embora se possa enquadrar no realismo mágico latino-americano, de onde parece beber. Neste senso destaca a personagem do "Caladinho", que entronca com a Galiza mágica e lendária dos contos populares. O diretor, com autêntica mestria, apresenta o mundo de uma aldeia durante o franquismo, assim como a emigração do povo galego para a América, na procura de uma melhor vida e a representação da dor e o drama das mulheres como Xonxa, que Rosália de Castro cantou nos seus poemas como "viúvas de vivos e mortos", já que no caso da emigração galega os homens e os filhos eram os que emigravam, enquanto as mulheres e filhas permaneciam na Terra esperando pelo seu retorno. O filme chega a alcançar em certos momentos uma linha muito próxima ao documentário, já que cara a metade centra-se na temática da emigração com imagens antigas da mesma, e por outra parte destaca o aspeto mágico da ambientação nos cenários das montanhas e das aldeias galegas perfeitamente escolhidos, tendo mesmo valores etnológicos da nossa cultura. Pode que "Sempre Xonxa" não seja uma obra-mestra, mas sim de grande sensibilidade, feita com o mais profundo carinho por parte do diretor e autor do roteiro, que deixou na mesma grande parte da sua vida.

Temas para refletir e atividades didáticas a realizar:

Depois de ver este filme, seguindo a técnica do cinema-fórum, organizar com os assistentes um debate-papo sobre os aspetos fílmicos mais destacados, como o jogo com o tempo, o espaço, os diferentes planos e os movimentos de câmara, tanto de rotação como de traslação. Também sobre a psicologia das diferentes personagens, a importância da infância e os seus jogos e brinquedos, a escola e o mestre da época, a problemática social e cultural da Galiza e o interessante papel que joga o "Caladinho" no roteiro e na história apresentada.

Organizar uma Mostra expositiva monográfica sobre a emigração galega, em que teriam que recolher-se: livros, fotografias, cartazes, murais, textos, poemas relacionados com a emigração (Rosália, Curros, Cabanilhas, Dieste, Celso Emílio Ferreiro, Manuel Maria...), contos e desenhos de Castelão alusivos, feitos importantes levados a cabo nos países como Argentina, Cuba, Uruguai e Venezuela, publicações periódicas da emigração e textos e redações livres dos estudantes sobre tão importante tema. Na mostra pode haver uma secção dedicada a outros povos com emigração, como os judeus, os italianos, os africanos e, mais recentemente, os bengalis do Bangladesh.

Elaborar por parte dos estudantes uma pequena monografia sobre as Sociedades de Instrução fundadas pelos galegos na diáspora (nomeadamente na Argentina, Cuba e Uruguai), graças às quais se chegaram a criar na primeira metade do século XX mais de 350 escolas de emigrantes em toda a Galiza. No trabalho, além de fotografias destas escolas, das quais se conservam muitos edifícios, deveria dar-se um espaço importante ao modelo educativo-didático próprio destes estabelecimentos de ensino, muito próximo ao da Instituição Livre do Ensino, de Giner e Cossío. Para este trabalho poderiam consultar-se os estudos feitos sobre o particular por investigadores como Carmem Pereira, A. Costa, Malheiro e José Paz, autor deste artigo, que publicou um estudo sobre o assunto na revista Agália e no PGL.

Organizar nas aulas atividades artísticas e lúdicas ao redor do tema: um recital de poemas de poetas galegos que o trataram. Aprender cantigas e cantá-las, como por exemplo "Adeus rios, adeus fontes", "Uma noite na eira do trigo" e "Negra sombra". Encenar o conto de Castelão "O pai de Miguelinho" e a obra de Rafael Dieste "A fiestra valdeira". E levar a cabo uma audição musical, com cantigas como as de Rosália de Castro de Amâncio Prada, as de Suso Vaamonde, assim como peças musicais do folclore galego de gaita-de-foles e tambores, alusivas à emigração.


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