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100513 Em cadeia sem prijomGaliza - Sermos Galiza - [Carme Vidal] Poesia galega postrobadoresca, datada entre 1380 e 1430, atribuída a Afonso Paes. “Em cadea sem prijom” é o título do volume editado polo professor Henrique Monteagudo depois da singular apariçom de um novo cancioneiro para a lírica galega. O achado, a seu ver, é histórico pois descobre que a poesia galega continuou mesmo “depois do apagamento da escola lírica galego-portuguesa”. O professor galego acha que algumha das suas composiçons merecem fazer parte das antologias da nossa poesia. 


Como foi o achado do Cancioneiro de Afonso Paes?

A descuberta foi realizada em 2011 por Dolores Pereira Oliveira, do Arquivo Histórico Provincial de Lugo, e Gabriel Quiroga, daquela Diretor do Arquivo da Galiza. Estavam a revisar um rico acervo documental propriedade de dona Pilar Iglesias Osório, um acervo que provinha de umha rama da família Osório, umha das mais relevantes da nobreza galega da idade moderna, aparentada com os Pita da Veiga, os Andrade e os Lemos. Esse acervo contém documentos de distinto tipo desde o século XV para a frente. 

Surprendeu-lhes topar polo meio uns textos em verso galego, juntos a uns instrumentos notariais lavrados em Ferrol entre 1432 e 1435. Gabriel pediu-me que informasse sobre a antigüidade, carácter e valor filológico daqueles textos. Ao comprovar a sua data e ver que eram totalmente inéditos, decatei-me imediatamente de que estávamos perante um testemunho excecional do cultivo poético do galego nos finais do século XIV e começos do XV. A suspeita inicial converteu-se em certeza ao analisar a lingua e compará-los com as composiçons coetáneas contidas no Cancioneiro de Baena, compilado em 1435.

E, seja dito de passagem, o achado demonstra a importáncia de contar com um bom corpo profissional de arquiveiros, que fam um trabalho magnífico e pouco luzido, mas que resulta fundamental para a conservaçom e valorizaçom do nosso património, também o ameaçado pola política de arrocho dos serviços públicos.
 
Por que se atribui a Afonso Paes?

Após um estudo minucioso (e laborioso) do manuscrito, cheguei à conclusom de que era acéfalo, isto é, que lhe faltam umha ou várias folhas ao começo. Dado que as composiçons nom venhem atribuídas aos seus supostos autores (como aconteceria se o cancioneiro fosse umha recompilaçom de vários poetas), é loxico supor que son todas elas dum mesmo autor, e que o nome deste devia figurar ao começo do manuscrito, no fólio ou fólios perdidos. No entanto, ao final do manuscrito recolhem-se dous poemas, umha 'pergunta' e umha 'resposta', que si aparecem com o nome de cada autor: Afonso Paes (ou Peres) e Joám Garcia. Observei que nos cancioneiros da época, este tipo de composiçons costumam ir agrupadas com os poemas do autor que fai a pergunta; neste caso, todos os poemas seriam de Afonso. Porém, nom é mais que umha hipótese plausível, que, a falta de melhores argumentos, acho que deve ser aceite.
 
Que releváncia tem para a nossa história literária a apariçom destes textos?

O cancioneiro testemunha que, contra o que se pensava, o cultivo poético do galego permaneceu depois do apagamento da escola lírica galego-portuguesa, isto é, depois de 1350. E nom só nas cortes de Castela e da mao de poetas basicamente castelhanos, senom também na Galiza e por poetas galegos. Isto é extraordinário, se pensarmos que em Portugal nom temos quase nengum exemplo de poesia desde 1350 até quase metade do século XV. De outro lado, a poesia em castelhano dese período, recolhida no Cancioneiro de Baena, tem um carácter bem distinto aos textos que acabamos de trazer à tona. Na realidade, o descobrimento tem umha grande importáncia para toda a história literária peninsular.

O conjunto poético descoberto pertence a um período que nom era especialmente viçoso em relaçom à etapa de esplendor da escola trovadoresca, que supom para o corpus medieval este achado?

O Cancioneiro de Baena (compilado em 1435 e que chegou a nós numha cópia de 1460) recolhe umhas 80 composiçons num galego muito deturpado, quase todas escritas polo castelhano Alfonso Álvarez de Villasandino e o andaluz Garci Fernández de Gerena. Apenas recolhe dous poetas galegos e em galego (Macias e o Arcediago de Toro), com escassamente dez textos, como dixem muito deturpados lingüisticamente. A maior parte destas composiçons som cantigas amorosas, já bem afastadas do gosto trobadoresco galego-português. 

O cancioneiro de Afonso Paes mostra maior proximidade temática à velha lírica galego-portuguesa, sobretodo no aspeto amoroso (claramente predominante), ainda que também incorpora cousas novas. O mais notável, porém, é que se trata nom de cantigas (poemas musicados), senom de dizeres, isto é, poemas para serem lidos. Até agora pensava-se que a decadência do cultivo poético do galego era estritamente paralela ao abandono da poesia cantada e da voga da poesia recitada, já em castelhano. Haverá que revisar também esse ponto.
 
É umha poesia basicamente amorosa mas conta com um texto religioso que o senhor qualifica de singular. Afirma que tem que passar a fazer parte das antologias da literatura galega. Em que fundamenta a sua releváncia?

O poema piedoso, consideravelmente comprido (mais de cem versos) é literariamente o mais logrado e novidoso, pois responde a umha tradiçom completamente diferente às Cantigas de Santa Maria de Afonso X, o Sábio. É um tipo de composiçom relacionado com o arrependimento ante a iminência da morte, umha espécie de confisom em verso, muito notável também pola sua intensidade emotiva. Realmente, na literatura galega medieval nom há nada parecido a este extraordinário poema.
 
Algumhas linhas de pesquisa defendem que a língua das cantigas é umha koiné, um registo formal distinto da fala, ocorre o mesmo com este cancioneiro ou evidencia a língua da época?

A língua do manuscrito, igual que a do Cancioneiro da Ajuda e o Pergaminho Vindel (com as cantigas de Martin Codax) é um reflexo fiel do galego da época (num registo literário, é claro), no caso destes da segunda metade do século XIII, no caso do nosso cancioneiro da primeira metade do século XV. É preciso levar em conta que o grosso da lírica trovadoresca nos chegou mediante umha compilaçom feita em Portugal em meados do século XIV, e claramente (ainda que só superficialmente) lusitanizante, enquanto os textos do Cancioneiro de Baena e outros chegados através de cancioneiros castelhanos estám lingüisticamente muito deturpados.


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