Perdidas extensiones donde el aire
Largamente consulta a las arenas
Con olas y sin pájaros. Con sólo
Una campana rota entre las redes
De la bruma. Oh costa sin refúgio
Oh litoral de grises coordenadas
Entre el sueño y la sombra, tus mensajes
¡Que despiadamente comunicas!
Urbano Lugrís, de “Balada del puerto de Os”, 1954
Ao virar à esquerda, no caminho estreito entre muros de limpa lavra e casas dos bons tempos, no paço, entre as hedras e as eras de pedra derretida pelo abandono e a floresta, um cravo duramente espetado continua a fazer, em ferrugem de estalagmite transformado, a denúncia do tempo e relógio solar na parede.
A fonte, solene, vai deitando, a ritmo, frio e movimento no verde. A água atravessa as complicadas cales que ajudou a moldurar, entre as folhas que amarelas e castanhas vestem o conjunto. Ao fundo o universo humanizado dos montes, diante o mar saudoso de Lugris e Charinho.
Palimpsesto de água e pedra, a verde Galiza ergue-se ocidental numa ponta da Europa; Variada, complexa, configurando um mosaico em sucessão de pequenos países e terras especializadas; antiga como a pedra e moderna como o mar.
Eis a Fisterra irónica, pragmática e sobrenatural nas suas dimensões oceânicas e caminhos no tempo. A que escuta: reconcentrada e céptica, cosida de cicatrizes, municipalismos e estradas caciquis, agasalhada nos seus farrapos e condenada à vida provincial, afeita com mais consciência de senhorio a fazer chufa das suas glórias e antiguidades em forma de dito, conselho, conto ou cantiga, que a falar orgulhosa com ditadura de ordens.
Sabemos pela arqueologia e o folclore popular que em tempos mui recuados e antes das histórias escritas por Gregos e Romanos moravam nestas partes seres fabulosos que deixaram a toponímia e a memória coletiva cheia de lendas, tesouros, feitos e batalhas.
O que verdadeiramente foram os nossos devanceiros e as suas arquiteturas monumentais e misteriosas, nem sabemos nem nos importa. O passado próximo e remoto da Galiza envolvido na brêtema e na polémica académica, sempre foi, e é, cousa de futuro: do que Nós queremos ser e não do que outros digam que foram ou não foram os nossos antergos.
E, a cousa é que o nacionalismo espanhol, desde o século XIX só quer os galegos no papel de Mouros: desses de nestes castros viviam, há muito muito tempo, como seres míticos ou elementos dum passado remoto e vago da fixe e poderosa nação espanhola.
Acouguem os censorinos. Ou façam ruído. A ver se no balbordo dos próprios ou dos alheios esperta a bela que dorme e todos os mouros engenhosos. Que a paisagem ainda manda, entre o sonho e a sombra, desapiedada, as suas mensagens.


