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081212 gradesGaliza - Galizalivre - [Carlos Calvo Varela] Nos poemas de César Vallejo aparece amiúde o símbolo da colher; nas prisons peruanas, eram a única pertença pessoal que lhes permitiam aos presos.


Tanto como instrumento para levar o nojento caldo das cadeias à boca, a colher servia de ponto de sujeiçom numha situaçom de absoluta fragilidade ontológica; como a caneta nas maos dum conferenciante nervoso, ou o cigarro que é capaz de soster na realidade à gente que o sustém com os lábios com a força à que se lhe bota a mao a umha póla à beira do abismo.

Umha concavidade prateada evoca, como todas as concavidades, a segurança, o labor, o redimensionamento de substância. A concavidade da banheira constrói um marsupio para amantes; a do colo materno, como os ninhos, para crianças; a do embigo, para o amor; a dos vales férteis como o da Amaia, para a exuberancia dos cultivos e o inçado de significados. O deserto é, com certeza, convexo.

Décadas despois do passo de César Vallejo pola cadeia, à beira do nascimento do neoliberalismo, a colher passou a ser símbolo dos novos despossuidos. Heroinómanos de Edimburgo ou Pena Moa faziam-se inseparáveis da sua colherinha. Os presos de hoje, como corresponde a esta época de colonizaçom dos tempos modernos, temos no cárcere colheres de plástico. Frágil, artificial, convexo. Colheres de dous tipos: umha vermelha, de plástico mais duro; que proíbem em regime de isolamento por ser arma potencial; outra, a menos perigosa, de plástico finíssimo, branco, que rompe aos poucos usos. O propio para este nom-espaço que proíbe o cálido, o abraço, os lapis de cores, os símbolos, o côncavo. As colheres.

Carlos Calvo Varela. Centro Penitenciario de Aranjuez, 22 outubro 2012


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