Bartolo Fuentes tem bigode e um desses falares tão representativos da América Latina. A sua voz logo te mergulha num mundo cheio de sangue, repressão e injustiças. Fala de Honduras como quem fala da uma mãe, com um carinho e uma paixão próprios de alguém que se sente filho da terra que o viu nascer. Coordenador Departamental da Frente Nacional de Resistência em Honduras, os olhos de Bartolo viram tanta desigualdade, tanta pobreza, tanta morte que resulta incrível que ainda projetem lufadas de esperança entre os galegos e galegas que escutam com atenção o seu dramático relato.
Este lutador veio à Galiza graças ao esforço das organizações galegas Fuco Buxám, Fuga em Rede, ACSUR Galiza, Amarante, a Coordenadora de Crentes Galegos, o Cosal e Wipala, as quais vêm desenvolvendo desde há mais de um ano atividades para denunciarem o golpe cívico-militar em Honduras e apoiarem a população hondurenha na sua luta contra o inferno que está a viver.
O Diário Liberdade aproveitou a sua visita à nação galega para espalhar a mensagem da Frente Nacional de Resistência Popular entre as nações de língua galego-portuguesa e denunciar a opressão que sofre o povo do país mais empobrecido do continente americano.
Diário Liberdade - Que interesses houve por trás do golpe de Estado em Honduras?
Bartolo Fuentes - Conjugaram-se os interesses dos setores oligárquicos de Honduras e o interesse dos grupos ultradireitistas da América Latina. No caso destes últimos, há que incluir também a ultradireita estadunidense. Personagens como Liliana Ross, o senador DeMint, os irmãos Díaz-Balart e outros da Califórnia e a Flórida, que estiveram assessorando e planificando este golpe de Estado.
O interesse destes grupos era ter um troféu na América Latina e demonstrar às direitas latino-americanas que era possível parar o que eles chamam 'o chavismo'. Que poderiam tirar uma peça às forças progressistas da América Latina. Demonstrar que podiam deter as bases destas forças que propugnam por mudanças em diferentes países.
De parte da oligarquia hondurenha, pararam-se vários projetos, como a concepção dos rios. Honduras tem bastantes rios e, portanto, umha grande potencialidade hidro-eléctrica. Os negócios, que antes fazia a oligarquia com total vantagem, de algumha maneira foram parados no governo Zelaya ou havia planos que podiam empecer os grandes lucros que tirava. A exploração petroleira, que não se estava fazendo com as transnacionais norte-americanas, mas com outras empresas. Aliás, dentro dos planos estava abri-la à melhor oferta que pudesse apresentar-se e, com certeza, dava-se a possibilidade de a petroleira venezuelana participar e que não fosse exclusivo das petroleiras ianques.
Por último, o facto de ter Manuel Zelaya gizado algumas medidas tíbias que ajudassem os camponeses, como o decreto das terras aprovado pelo seu governo e alguns poucos benefícios para o sector popular, como o salário mínimo e outras consessões para os sectores sociais desfavorecidos, também contribuiu para a gestação do golpe de Estado.
Diário Liberdade - Que consequências teve para a esquerda hondurenha?
Bartolo Fuentes -Ao princípio do golpe, a esquerda hondurenha, como tal, era muito fraca. Existia uma esquerda social, o que seria a Coordenadora Nacional de Resistência Popular, que se criou em agosto de 2003, que tinha capacidade de mobilização, de fazer ações por todo o país coordenadamente. Desde o golpe de Estado potencializou-se e cresceu à beira da resistência. Porém, já não podia ser a Coordenadora que aglutinava as organizações sociais, mas uma Frente de Resistência muito ampla onde a maioria das pessoas não estám organizadas em nenhum grupo, nem político nem gremial.
Então as consequências podem-se dizer que são uma exagerada repressão que golpeou os diferentes setores organizados mas também de um crescimento jamais imaginado. Uma capacidade de mobilização que tem superado qualquer outra experiência em Honduras.
Diário Liberdade - Qual a composição da Frente Nacional?
Bartolo Fuentes -Essa simpatia da Frente é pela sua atitude. Não há exclusão para nenhum sector social. Há setores que há algum tempo lutavam pelos seus direitos particulares, para dar-te um exemplo, a diversidade sexual. Não tinham nenhuma vinculação com os movimentos sociais, mas agora ganharam um espaço, mesmo conseguiram ter um representante. E não porque se seja condescendente com eles, mas porque estão na linha da frente no momento da repressão e porque têm contribuído já com dez dos seus membros que estiveram na resistência e foram assassinados pelos golpistas.
Setores políticos do Partido Liberal, que dantes se mantinham aí e inconformes com como se manejava o partido, mas agora o abandonaram e não querem saber nada com os golpistas. Setores de base da igreja católica, alguns padres. Há também um bispo, pelo menos abertamente, outros também apoiam, mas não publicamente. Setores das igrejas evangélicas, sobretudo as suas bases.
No entanto, a coluna vertebral da Frente é o movimento magisterial pelas características do país. Em cada canto de Honduras há um mestre ou uma mestra. Embora haja um pequeníssimo setor do magistério que está do lado dos golpistas, sobretudo porque este governo convocou como Ministro de Educação um ex-dirigente magisterial. E todos os restantes setores. Não há um só setor social que não esteja participando da Resistência.
Quanto a posições políticas, pode se dizer que os setores de esquerda não são a maioria dentro da Frente. Mas é o pessoal que pudo contribuir com a sua experiência organizativa e a formação política que permitiu forjar a Frente Nacional de Resistência Popular.
Diário Liberdade - Qual a posiçom dos EUA e dos diferentes governos Latino Americanos em relação ao golpe?
Bartolo Fuentes -Está totalmente comprovada a participaçom do embaixador dos EUA no golpe de Estado. Destes senadores que comentei, sobretudo da Califórnia e da Flórida. E muita outra gente incluindo os que lhe faziam o lobby a Clinton e que trabalharam fazendo o lobby a favor dos golpistas. Nunca deixaram de dar ajuda económica e militar.
Na caso dos países da América Latina, sentimos que foi de muito apoio a posição de países como a Bolívia, Venezuela, Equador, Argentina, Brasil e outros países do Caribe que votaram pela expulsão de Honduras da OEA, mantiveram a denúncia na ONU e se mantiveram firmes sem reconhecerem o governo de Porfírio Lobo e acompanhando a resistência na sua demanda de uma convocatória à Assembleia Nacional Constituinte para reconstruir a institucionalidade democrática.
O Brasil teve uma destacada participação porque precisamente aí se abrigou o presidente da República durante quatro meses. E polo menos em três ocasiões estiveram as forças armadas a ponto de assaltar a embaixada do Brasil. Nos meios foram criando condições. Notava-se quando já não a chamavam embaixada do Brasil, mas o imóvel, o escritório, o local, para evitarem aquilo de que as embaixadas não podem ser invadidas. Mas a posição do Brasil e a advertência de que iam contestar. Como contesta qualquer país quando agridem o seu território e esse era território brasileiro, fez esta gente desistir de assaltar.
E a posição do Brasil quando manifestou claramente o presidente de que não ia assistir à cimeira convocada no Estado espanhol se estava Lobo Sosa presente lá e teve que se pedir a este senhor que não assitisse à cimeira porque, se não, iria fracassar. Foi muito firme a posição deles e em geral no povo hondurenho se sente o agradecimento com estes países e especificamente para o Brasil.
