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050910_ciaranprimeiroplano2República da Irlanda - Diário Liberdade - Ciaran O'Donghaile (Derry –Irlanda do Norte, 1981) concedeu umha entrevista para o Diário Liberdade, com a presença da sua banda, Alalé, no Festival Irmandinho.


Nela falou da situaçom atual na Irlanda do Norte e da percepçom que um irlandês tem sobre a Galiza. Depois de serem umha das revelaçons do Festival de Pardinhas, atingírom mais umha vez o êxito em Moeche. Dizem querer voltar a tocar na Galiza.

Ciaran nasceu e criou-se na Irlanda do Norte, em Derry, onde viveu o conflito contra a ocupaçom británica. As suas origens estám numha família com tradiçom na defesa da cultura irlandesa. Com 18 anos, deslocou-se para Donegal, onde moraria três anos antes de fazê-lo em Galway (República da Irlanda) para se dedicar à música tradicional irlandesa. Em 2009 passou nove meses na Corunha com o seu irmao, onde também participou na vida cultural da cidade e ainda tivo tempo de dar umha palestra sobre a Irlanda do Norte no Centro Social Gomes Gaioso. Atualmente, mora de novo em Galway onde é membro da banda Alalé, que vem de participar no nosso país no Festival de Pardinhas e no Irmandinho.

Tomando parte activa na defesa da sua língua (o gaélico irlandês) chegou a levar a liderança de umha associaçom da mocidade pola defesa do idioma e a pesar de que atualmente nom pertence a nengumha associaçom, continua com o seu compromiso com a língua e diz aspirar a umha "Irlanda unificada e socialista".

Na entrevista a seguir, Ciaran apresenta-nos alguns traços da situaçom atual na Irlanda do Norte. Para os desavisados, introduzimos duas palavras que vam ser muito repetidas nas linhas embaixo:

- unionismo ou monárquico é o movimento que defende a soberania da monarquia británica sobre a Irlanda do Norte.

- nacionalismo irlandês ou independentismo: movimento pola libertaçom da Irlanda do Norte da ocupaçom británica e a sua incorporaçom à República da Irlanda.

Diário Liberdade - Esta é a tua segunda vez com Alalé na Galiza. Qual é a tua impressom sobre o público galego?

Ciaran O'Donghaile - Quando tocamos na Galiza há sempre umha óptima bem-vinda. O público galego vive realmente a música irlandesa, chimpa e dança. Isso é assim porque há umha ligaçom entre a música galega e a irlandesa, mas também umha ligaçom cultural.

DL - Daquela achas que há umha relaçom especial entre a Irlanda e a Galiza?

CO - Sim. Na música temos os mesmos ritmos, como por exemplo a vossa muinheira que é a nossa "gig"...

Culturalmente, tenho chegado a conhecer bem a tod@ galeg@ que encontrei, temo-nos comunicado mui bem, porque acho que temos o mesmo tipo de mentalidade, e ainda o mesmo jeito de olhar a vida. Temos também costumes parecidos: a gente galega, a gente irlandesa... a gente "celta", em geral, gosta da música, da comida, da bebida, gosta do convívio...

Há muita semelhança entre ambas as músicas e também entre ambos os povos.

DL - Moraches na Corunha durante seis meses. Qual é a impressom que che deixou a tua estadia?

Morei na Galiza com o meu irmao durante seis meses, e realmente desfrutei esse tempo. Gostava de ter ficado mais.

A única cousa que achei negativa foi que nom houvesse tanta música como eu esperava. Tínhamos a esperança de encontrar muita música na ruas, mas A Corunha é umha cidade comercial e maior do que achávamos. Se tivéssemos morado no campo ou em vilas de menor tamanho provavelmente teria sido diferente.

Conhecim a língua galega, e o movimento que defende que é a mesma língua que o Português, como num grafite que lim em vigo: "galego e português a mesma língua é".

050910_ciaranpalestragomesgDL - Poderias fazer umha pequena apresentaçom da situaçom atual na Irlanda do Norte, e sobretodo no que atinge à classe trabalhadora?

CO - Pode-se dizer que a Irlanda do Norte é hoje mais rica e próspera no ámbito económico do que nos 70, 80 e 90, quando a violência supunha um risco para o estabelecimento da actividade económica.

Com o processo de paz, muitas empresas tenhem instalado a sua actividade na Irlanda do Norte. A gente é, de algum jeito, mais feliz, tenhem mais dinheiro e vivem com mais conforto.

Porém, agora entrárom alá grandes transnacionais, tipo a MacDonalds, a Burger King,... que antes nom estavam, o qual é umha má notícia para muitas pessoas.

Por outra banda, agora há mais igualdade entre católicos e protestantes. Isso nom era assim nos 70 ou 80. Os católicos eram marginados, havia prejuízos contra eles e nom lhes eram oferecidos empregos. Agora temos umha sociedade mais igualitária, mália ficar mui longe de ser perfeita.

DL - E qual é o cenário na Irlanda do Norte com a crise capitalista?

CO - Acho que deve ser igual do que na Galiza. Os bancos saem facilmente da crise, com dinheiro público tirado dos impostos que todo o mundo paga para lhos entregar a eles. As pessoas fôrom quem pagárom para os bancos nom terem dificuldades, mas eles rejeitam dar empréstimos, hipotecas...

As pessoas ficárom sem dinheiro porque é impossível conseguir financiaçom dos bancos, e ao tempo eles ficam com a propriedades das vivendas e expulsam do seu lar muita gente que nom pode mais pagar as súas dívidas.

Por isso, a gente tem muita raiva contra o governo, por ter ajudado os bancos e nom o povo.

DL - Há algum movimento, algumha perspectiva de lutar contra a situaçom e mudar algumha cousa?

CO - O povo tem agora mais raiva contra o governo do que tinha desde fazia muitos anos. Fazem-se manifestaçons, a gente sai à rua em grande número para protestar e mesmo para pedir eleiçons gerais.

Os sindicatos, os partidos da classe trabalhadora e outras organizaçons estám a organizar protestos e mobilizar-se.

DL - Qual achas que é a opiniom geral atual em termos de unionismo ou nacionalismo irlandês, sobretodo entre as classes trabalhadoras?

Como digem antes, atualmente a gente tem um pouquinho mais de dinheiro e vive melhor no aspecto económico do que há 20 ou 30 anos. Por isso agora o unionismo ou o nacionalismo irlandês nom som vistos como os grandes temas que costumavam ser.

O sentido da identidade se tem perdido. Antes, as pessoas empobrecidas idenficavam-se com o nacionalismo irlandês, porque estavam a sofrer um dano mui grande dos unionistas. Agora, como tenhem um pouquinho mais de dineiro, nom.

Muitas pessoas, nacionalistas irlandesas, gostavam ainda de ver umha Irlanda unificada: umha Irlanda e um governo irlandês, sem ingerência da Inglaterra, mas nom é um sentimento tam forte como antes.

A gente tem as suas casas, as suas famílias... e ficam contentes com isso, pensam apenas nisso e nom em umha irlanda unificada, como sim pensavam há anos.

DL - Tem algumha influência a mídia sobre esta opiniom?

CO - Pois é... A mídia, como em qualquer povo, tem umha grande influência sobre aquilo que as pessoas pensam.

Mália que há mais igualdade agora nos meios de comunicaçom que a que havia há anos. Os nacionalistas irlandeses tenhem muitos jornais e os unionistas também. Há anos, a mídia era manifestamente unionista e pró-británica.

Contodo, a BBC é o principal canal de TV na Irlanda do Norte, e é um canal británico com umha linha pró-británica.

DL - O teu compromiso com a língua é forte. Na tua família sempre o foi: o teu pai fundou o "Cearta Gael" (em irlandês: "Direitos Gaélicos"), umha associaçom que nos 70 e 80 trabalhava polo reconhecimento dos direitos dos falantes de gaélico e pola promoçom da língua.

Tem a língua, o gaélico irlandês, importáncia no movimento pola libertaçom da Irlanda do Norte?

CO - Para mim e para muitas outras pessoas a língua é o mais importante, é a razom de ser e onde podemos dizer que somos diferentes dos ingleses, porque temos um idioma diferente.

Mas os partidos no poder na Irlanda do Norte, também o Sinn Feinn que é o maior partido nacionalista irlandês, apoiam a língua só até um ponto, apenas enquanto for o seu projecto.

Por exemplo: o meu pai fijo trabalho para abrir umha rede de escolas de gaélico irlandes e o Sinn Feinn foi contra estas escolas por nom serem o seu projecto, porque era algo em que eles nom estavam... mas anos depois eles queriam abrir escolas do mesmo tipo, nas quais eles tinham o controlo.

Assim, há questons políticas complexas misturadas e utiliza-se a língua como um arma, nom como algo cultural, que é o que devia ser, e nom depender de partidos políticos.

DL - O gaélico irlandês tem hoje poucos falantes. Há oportunidades de mudar isso?

CO - A língua irlandesa está a ter cada vez mais força, longe de perdê-la.

As partes onde mais se fala gaélico na Irlanda estám na costa Oeste: Donnegal, Galway, Cork, Kerry... porém, nom é aqui onde está a ganhar força: tem sido falado durante muito tempo e a gente nom o acha jeitoso.

Noutras partes, como Dublin e outras grandes cidades por exemplo, as pessoas começam a ver a língua como algo porreiro e moderno, é umha cousa que todo o mundo quer aprender. Muitas celebridades estám a aprendé-la. A gente olha isso e diz: "eu quero aprender irlandês!". Há cada vez mais escolas de gaélico.

Portanto, nas grandes cidades o gaélico está a crescer, e nas áreas de origem está a perder falantes, mas em geral, a língua está a ganhar força.

050910_ciaranalalepardinhasDL - Qual é hoje a importáncia da religiom no conflito na Irlanda do Norte?

CO - Através dos anos tem havido sempre um ponto de vista religioso do conflito.e da luita que está a acontecer. Falando em geral, os católicos seriam classificados como nacionalistas irlandeses ou republicanos, e os protestantes como unionistas británicos ou monárquicos.

Agora, tés protestantes que aprendem a falar gaélico, que tocam música irlandesa e que se mergulham na cultura irlandesa. Antes, quem vinha de umha família protestante era extremadamente raro que aprendesse estas cousas.

DL - A maioria da populaçom é protestante na Irlanda do Norte, nom é?

CO - Sim, mas nom é umha maioria muito larga. Menos de 60%.

DL - Daquela, há umha verdadeira relaçom entre a religiom e a posiçom política a respeito da ocupaçom na irlanda do Norte?

CO - Se calhar há, mas nom como no passado. Nom há entre os protestantes aquele orgulho de ser británico e anti-irlandês que havia antes.

Com o tempo isso tem mudado, e ainda que mesmo hoje a maioria dos católicos som pró-irlandeses e a maioria dos protestantes som pró-británicos, a gente nom é tam extremista nesta identificaçom.

No passado, quem era protestante tinha que ser unionista e anti-irlandês. A resposta a qualquer cousa irlandesa tinha de ser "nom, nom e nom". Agora as pessoas tenhem a mente mais aberta.

DL - Que sabias da Galiza antes de morar aqui? Sabias algumha cousa da opressom espanhola, da língua galega...?

CO - A dizer verdade nom sabia nada da língua galega ou este tipo de questons. A razom pola qual vinhemos para a Galiza foi porque sabíamos da sua grande tradiçom musical e a ligaçom "celta" que há entre a Galiza e a Irlanda.

DL - E qual foi a tua impressom sobre o independentismo galego?

CO - Conhecim algumha gente na Galiza que nom acreditava na independência, que nom desfrutava da língua ou ainda que nom achava que fosse umha língua diferente do espanhol...

Mas também conhecim muita gente que emprega sempre o galego, que se mergulha na cultura galega etc. ...

Portanto, no meu ámbito vim-no a uns 50%, com pontos de vista muito firmes das duas bandas.

Vejo muita relaçom entre o independentismo galego e o independentismo irlandês. Há pontos comuns, como a repressom da língua, da cultura... realmente identifico os dous movimentos.

Contodo, na Irlanda nom é umha questom conhecida. A gente conhece melhor o caso do País Basco, mas nom o independentismo galego nem o catalám.

DL - Entom, achas que o independentismo galego deve dar-se a conhecer no estrangeiro?

CO - Com certeza. É muito importante para os povos oprimidos, para as línguas e culturas minorizadas, dar-se a conhecer em casa e no estrangeiro.

Como os nativos americanos. Quando a gente pensa nos Estados Unidos, realmente ninguém sabe nada da sua cultura.

DL - Que gostavas e que pensas que pode acontecer no futuro com a Irlanda do Norte?

CO - A República da Irlanda está agora tomada polo capitalismo e as grandes empresas. É um sistema em que o único que se importa é o dinheiro. Os políticos irlandeses som corruptos, apenas lhes preocupa levar dinheiro para os seus petos, e favorecem as grandes empresas.

Eu gostava de ver umha irlanda unida, mas umha irlanda unida e socialista, nom umha cópia do modelo americano.

DL - E a Galiza?

CO - Para já, gostava das pessoas conhecerem e respeitarem mais a sua própria cultura, falarem mais a sua língua, que nas grandes cidades nom se fala...

Sobre a independência ou ainda algumha classe de entidade política conjunta com Portugal –como tenho ouvido dizer a algumhas pessoas-, é algo que deve decidir o povo galego.

DL - Para acabar, Ciaran: que é o seguinte que vamos ter da tua banda, Alalé? Estaredes na Galiza de volta?

CO - Estamos a gravar o nosso segundo disco [o primeiro foi "Wo Japen"] que devia estar listo para dentro de um mês ou dous.

Tocamos em Galway (Irlanda) quatro vezes por semana e inda fica por confirmar um concerto em Guadalajara (Espanha).

Na Galiza nom temos concertos programados agora, mas gostávamos imenso de voltar.

Fotos:

1 - Ciaran O'Donghaile

2 - Ciaran e Eanna O'Donghaile ministrárom umha palestra no Gomes Gaioso sobre a Irlanda do Norte, em 2009.

3 - Alalé no Festival de Pardinhas 2010.


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