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210112 cuba ivanColômbia - Primeira Linha - Reproduzimos entrevista ao membro do secretariado das FARC-EP, Iván Márquez, feita em Havana a 7 de janeiro de 2013.


1. Após Oslo tem corrido bastante água sob a ponte. Vejamos um dos aspectos do Acordo Geral para o encerramento do conflito. O tema agrário. Em que estado se encontra? Há avanços? Estreitaram-se as distáncias, depois de que se conhecessem dous pontos de partida tam distantes?

Digamos que há um diagnóstico comum da situaçom de miséria que como a erva daninha inçou o campo colombiano. O índice Gini de 0.89 é um espelho que reflete a terrível desigualdade existente no setor. Nem sequer o governo tem as forças nem os argumentos para questionar esses tristes números da injustiça. Durante o tempo que tem corrido debaixo da ponte temos configurado umha visom mais ampla da problemática. Em Havana escuitamos a voz dos experientes da ruralidade, como som os nossos camponeses, indígenas, empresários, catedráticos… Já estám a fluir importantes insumos, produto de foros e eventos organizados por iniciativa popular, pola ONU e a Universidade Nacional, e polas comissons de paz de Senado e Cámara, que contêm a esperança de soluçom do problema rural que almejou muita gente, por muito tempo, pola certeza, que ninguém lhes tira, de que aí está a chave da paz. Estamos a dar os primeiros passos num caminho que todos sabemos complexo. Precisamos de instrumentos de navegaçom. Para chegar ao nosso destino de paz, requeremos como GPS e bússola, a estatística, as cifras e o catastro, mas na Colômbia essas ajudas nom existem ou som muito deficientes. Precisa-se saber que é o que se vai redistribuir, restituir e formalizar. Nom podem ser ermos somente. Para as FARC-EP há um monstro cebado em sangue e despojo que subjaz no fundo do problema: o latifúndio, mas alguns das elites preferem nom o nomear, protegem-no, disimulan, caminham em pontinhas quando passam na frente dele. Esse tem sido o erro de todas tentativas de reforma agrária, se é que se lhes pode dar esse nome. Mas sabem que se as cousas seguem como vam, em pouco tempo poderiam arrendar ou vender essas grandes propriedades às transnacionais mineiro-energéticas. Negócio é negócio.

2. Organizaçons da sociedade organizada rural dos setores populares e outros, entre eles a Rota Social Comum pola Paz, reiteram permanentemente a necessidade da participaçom, vocês mesmos como delegaçom de paz das FARC-EP, propugerom-no. Quando falam de participaçom das organizaçons, é insuficiente uns sites web e um foro como o realizado recentemente em Bogotá, por quê? E o curto tempo das conversas dará para outra forma de participaçom? Que pode ser eficaz e eficiente para essa participaçom? Que se estám a imaginar?

Para as FARC-EP o fundamental é o que determine a vontade nacional, o soberano, o constituinte primário, frente à guerra e a paz, e neste caso, frente ao tema específico da ruralidade e o território. Na mesa somos a sua voz e os seus soldados. Estamos convencidos que a dinámica do processo a imprime a iniciativa popular. Há direitos de participaçom política que a gente tem que os fazer valer. Com a mobilizaçom se for preciso. Nengum colombiano, nengumha organizaçom política ou popular, pode admitir mordaças sob a chantagem da judicializaçom se chegar a falar com umha das forças beligerantes na mesa, como pretende o ministro do Interior, Fernando Carrillo. Nom há nada mais absurdo. Essa chantagem que pretende que nom podemos dialogar com as organizaçons sociais até tanto nom nos desmobilicemos, é todo um disparate, que nom fala de grandeza nem de boas intençons do governo frente à paz, e denota em mudança umha ignoráncia total frente ao decoro que projeta a guerrilha de Manuel. A mesa e os seus protagonistas tenhem que estar ao serviço da gente. A paz da Colômbia nom será resultado de um conciliábulo, nem a reconciliaçom se forja a costas da naçom. Por isso valorizamos o produzido até hoje polos foros e eventos realizados. As suas conclusons serám insumos essenciais para a construçom da paz. Cumprimentamos a iniciativa em processo do Foro Cidadao Permanente pola Paz. O site, pola sua pouca acessibilidade, nom colma por agora as expetativas, mas se é um mecanismo prático que terá que melhorar. Finalmente, as ideias som importantíssimas, mas devemos acompanhá-las com grandes mobilizaçons, para que tomem forma concreta na nova realidade que se está a forjar.

3. Os senhores propuseram com respeito à informaçom que já receberom das mesas regionais que adiantárom as comissons de paz de Senado e Cámara, como um insumo importante, Como tenhem trabalhado essas achegas na mesa? Estas nom som suficientes como meio de participaçom da sociedade rural?

As achegas das mesas regionais promovidas polas comissons de paz do Senado e da Cámara, bem como as conclusons do Foro sobre Política de Desenvolvimento Agrário Integral organizado pola ONU e o Centro de Pensamento da Universidade Nacional, que receberemos as FARC na Havana 8 de janeiro e o governo em Bogotá, e as achegas de outras iniciativas populares, todas essas ideias e sonhos começarám a ser estudados a partir de 14 de janeiro quando a mesa retome atividades. Claro que as FARC já o estám a fazer e os estamos a submeter a debate através de nossos canais. Reiteramos o seu imenso valor e a nossa intençom é que nengum destes esforços passe à história como espaços que se abriram para “botar corrente”. Recorde que terá um mecanismo para refrendar o convindo, que também o deve definir o povo.

4. O presidente Santos, o ex-ministro Da Rua, o presidente da SAC, o doutor Mejía tenhem reiterado que o modelo económico nom está em negociaçom, isto significa que o política mineiro energética que afecta solos e subsolo, que define modelos de desenvolvimento nom se discute De que entom discutem ou a que chegam a acordos? Quais som os mínimos?

Essa é umha aspiraçom do governo, muito respeitavél por certo, mas nom concorda com o espírito nem a letra do Acordo Geral da Havana. Por outra parte, é impossível que o aprofundamento da política neoliberal que promove Santos, a entrega do território à indústria extrativa transnacional, se escape à discussom do primeiro ponto sobre terras, acesso e uso, soberania alimentar, ruralidade digna… Este nom é um país de ignaros nem cafres. O que vem avançando com redovél de tambores e artificios mediáticos, é a estrangerizaçom da terra, a desnacionalizaçom da economia, a perda da soberania, a destruiçom do meio ambiente, o tecido social, os nossos costumes. Vem avançando com ruído de locomotora, a fame e a pobreza, a vitória definitiva da injustiça. Duro mas verdadeiro, nom? A verdade pura e limpa é necessária. Todos os colombianos devemos colocar-nos à frente, na trincheira da pátria, para lhes dizer aos novos colonialistas que nom passarám. Os mínimos? A reforma rural integral e a reversom do infrahumano coeficiente Gini.

5. O recente foro sobre política agrária em Bogotá monstrou diversas maneiras de abordar a problémática rural, alguns partindo de que nom é possível negociar o modelo, outros afirmando a necessidade de modificar o modelo. No entanto, todos coincidiam na identidade dos problemas como a pobreza, a marginalizaçom rural, a ausência de bem-estar social para os trabalhadores rurais, alguns aspectos do ambiente e da mudança climática, e a ausência de infraestrutura de telecomunicaçons, sistema férreo, sistema de estradas, défices ténicos, tenológicos entre outros. Qual é a posiçom das FARC-EP?

De acordo, isso é o que há que superar. E ainda que pareça incrível, dizem-no já os papéis públicos, na mesa há consenso entre as partes de que é urgente construir a dignidade rural, assunto que atanhe a toda a naçom. A vida digna nas cidades depende da estabilidade rural, e vice-versa. Deve-se estreitar essa relaçom simbiótica para que a Colômbia saia adiante. Atender as justas reclamaçons da populaçom rural e urbana, desouvidas por décadas, abriria as portas, pola primeira vez, ao exercício da construçom de democracia verdadeira. Há que democratizar a vida nacional, começando pola democratizaçom da tenência da terra.

6. Umha proposta do CCP nesse Foro foi umha mesa ou foro permanente, indicando que a sua natureza está ou vai para além de Havana e do palco de conversas que se adiante com o ELN e o EPL, partindo de reconhecer os disensos com setores empresariais e dos pontos de identidade destes com os setores rurais. As FARC-EP vem que exista um setor empresarial que poda comprometer com a construçom de um processo de paz no rural, que poda estabelecer acordos entre cooperativas rurais e setor privado, em condiçons justas? Ou de seu descartam que o capital privado poda contribuir ao projeto político das FARC-EP ou ao projeto que se construa entre comunidades e privados?

Claro. É que o setor empresarial, a indústria nacional, os agricultores, os gandeiros, estám a ser apaleados pola política económica do governo que tem o seu coraçom vendido aos interesses económicos das transnacionais. Para o investimento estrangeiro, todo: isençom de impostos, gavelas para que coloquem todos os seus ganhos no exterior, segurança legal que prioriza os direitos do capital sobre os direitos sociais e sobre a própria indústria nacional. Enquanto umha transnacional paga por exemplo menos de 15%, e até 5% em impostos, os industriais colombianos tenhem que pagar 30%. Quando queiram, as multinacionais se podem levar a sua maquinaria e a sua tenologia. A política do governo está a arruinar a indústria nacional. E para arrematá-la, finca-lhe impunemente o punhal dos TLC. Em Oslo demos-nos conta que o governo Noruego cobra às transnacionais impostos de 76%, e que essa tributaçom redunda sagradamente no bem-estar coletivo. Nom estamos a pedir contribuas ao projeto político das FARC-EP, nom. Estamos a impulsionar é um projeto nacional que beneficie a todos. Umhas comunidades camponesas, bem organizadas, devem associar com a indústria nacional em condiçons que favoreçam em justiça à cada umha das partes.

7. A partir dessa valorizaçom, Que papel deve desempenhar o Estado colombiano? Que peso tem o poder local e regional nessa construçom de Estado?

O Estado colombiano nom pode seguir atuando de costas ao país, para feirar, como o está a fazer, as riquezas naturais que devem ser utilizadas na soluçom dos graves problemas sociais que nos aqueixam. A desnacionalizaçom, a reprimarizaçom, estám a destruir o pouco que fica da alma e da indústria nacional. A gente do comum, as capas médias que estám a ser golpeadas sem piedade, já nom se comem o conto da prosperidade e o crescimento do país, porque sabem muito bem que todas essas multimilionários ganhos reportados nom beneficiam ao país nacional, senom as multinacionais que estám a exportar, desde o território da Colômbia, as riquezas que extraem de maneira exacerbada, do subsolo pátrio. E para isso Santos deu-lhes luz verde e patente de corso.

8. Voltemos à realidade. Está para sançom presidencial umha reforma tributária aprovada recentemente pola coaligaçom legislativa da Unidade Nacional, nela geram-se novos benefícios ou isençons para o capital e os investimentos de empresas extrativas, que opiniom lhe merece está decisom?

Seguimos na realidade. A esse passo e com esses legisladores submissos ao executivo, muito cedo deixaremos o terceiro lugar para escalar o podio da vergonha do primeiro país mais desigual do mundo. A atitude dessa coaligaçom de bolso é repugnante, profundamente antisocial e antipatriótica. Que tributem os pobres e as camadas médias, nom os inversores. Nom lhe parece que tenhem a este pobre país de pernas para o ar? Terrível e desconcertante realidade. Enquanto dialoga de paz na mesa, o governo dispara contra o peito da gente o fogo de seu insania económica. E esses som mal os primeiros disparos de uns francotiradores atrincheirados nuns curules. Já virá o fogo atronador quando comecem a disparar o pacote legislativo de reforma pensional, lei estatutária de saúde, reforma educativa, estrangerizaçom da terra … Temos que confiar na capacidade de mobilizaçom do povo para atalhar estes despropósitos.

9. Existe a percepçom em alguns setores que ainda que vocês proponhem que tenhem a sua total vontade para chegar a um acordo definitivo nom existe a mesma disposiçom para chegar a esses acordos em novembro, data limite proposta polo governo de Santos. Que tempo têm calculado, se há vontade do governo para chegar a uns acordos? Por que essa estimativa temporária?

Novembro? Ao menos o governo já nom aspira a umha frágil paz setemesina que para salvá-la teria que meté-la na incubadora. Ainda que nom temos afans eleitorais, oxalá pudéssemos ter para dantes de novembro umha reforma agrária integral. Que para entom se tenha freado o fatídico carrusel de terras do Urabá chocoano, antioquenho e cordobés que pom em cena, para as graderias, umha falsa entrega de terras a favor de testaferros dos despojadores. Que se tenha atacado dantes de novembro esse latifúndio improdutivo acumulado a bala e motoserra, parasita e evasor de impostos. Que bom que todos poidamos ver florescer dantes de novembro, mudanças de estruturas injustas, e que podamos apreciar avanços na desmilitarizaçom do Estado e da sociedade, identificar aos autores inteletuais dos falsos positivos, os que assinarom a lutuosa diretiva 029… Nom se deve apagar a flama da esperança que arde no coraçom da infinita maioria dos colombianos.

10. Falando de tempo, desejando que todo vá por bom caminho entre vocês e o governo, sem pretender ser ave de mau agüeiro, se nom chegara a conseguir um acordo, acha que o prolongamento da guerra de guerrilhas conseguiria enfrentar a assimetria militar que parece estar a favor do Estado, segundo análises oficiais. As operaçons com tenologia de ponta, intervençom internacional é possível reversá-las? E pergunto isto, no meio da tese mediática e de alguns opinadores, segundo a qual, vocês chegam a conversar sobre a base de umha derrota militar estratégica. Se estivesse em frente o presidente Santos, a pergunta seria, se ele poderia afirmar que há derrota militar estratégica das guerrilhas, e em quanto tempo nom teria guerrilhas das FARC, do ELN e do EPL.

A Delegaçom de Paz das FARC-EP está agindo em perspetiva da paz, nom da guerra, mas podemos afirmar que os povos som capazes de derrotar qualquer assimetria. Os generais do Comando Sul, do exército colombiano, o presidente Santos nom devem esperar a derrota que almejam, nas suas bombas nem nos seus microchips. Essa é umha quimera taciturna, sem esperanças. Nom procurem a derrota, procurem a paz, a soluçom diplomática deste longo conflito, que seria um exercício bem mais prático. Um general colombiano assegurava há pouco, que quase todos os conflitos tenhem terminado numha mesa. E talvez tenha razom, mas requere-se que tenha vontade e determinaçom para recorrer aos costumes civilizados na busca de umha soluçom. Para os que persistem na guerra injusta que só protege interesses dos poderosos, “por fortuna viu-se com frequência um punhado de homens livres vencer a impérios poderosos”, dizia o nosso pai, o Libertador Simón Bolívar. Devem ter em conta, ademais, que as FARC nom som somente homens e mulheres alçados em armas; as FARC som um povo.

11. Quem veem com optimismo o processo interpretam que Santos tem definido novembro como data limite para pulsar a opiniom e projetar a sua reeleiçom ou a sucessom em Vargas Lleras- Vocês projetam que as FARC estaria a realizar política sem o uso das armas em 2014? Vocês visualizam esse palco possível?

Seria muito desalentador que o presidente Santos estivesse supeditando o processo de paz a sua reeleiçom e que os prazos que se fixam para a sua concreçom, obedeçam a cálculos nesse sentido. Pola paz deve-se trabalhar desinteressadamente e de coraçom, com generosidade. Um processo de paz com temporizador, que o voe ao cabo de um tempo, é umha aberraçom. O cúmulo seria que aparecesse por aí algum tecnócrata reclamando a patente dessa modalidade. Às vezes dá a impressom que alguns desses estrategas confundem processo de paz com submissom. Com relaçom a sua pergunta sobre as FARC e as eleiçons: coincidimos com muitos compatriotas em que é necessário abrir espaços à participaçom política, e para isso é fundamental reformar o atual sistema eleitoral, templo sagrado dos ladrons, a fraude e a impunidade, impenetrável pola sua nojenta podredume. Mantêm o conteio manual de votos para poder alterar os resultados e só recorrem a meios eletrónicos para vender governaçons, curules do Senado e Cámara, prefeituras… É um sistema tam democrático que votam até os mortos e os nom inscritos. Às seis da tarde, quase sempre se vai a luz, e quem ia ponteando reaparece, quando esta volta, em posiçons intermediárias. A trasumáncia é mérito de caciques e gamonais. Ganham os sócios das empresas que contam os votos. A polícia entra ao banco de dados da Registraduria, porque é a polícia. Os que tenhem conseguido penetrar o antro asseguram que nos seus salons da fama há um monumento erigido à fraude em que aparece Uribe flanqueado polo narco-paramilitar, Jorge 40 e o rapaz bom, Jorge Noguera. Há que mudar essa vergonha nacional, criar umha nova institucionalidade digna do crédito cidadao, para que todos participemos confiados na honradez e probidade dos servidores públicos que a representam. Um novo sistema eleitoral, confiável e impoluto, fundado na democracia verdadeira, geraria vontades e desejos de participaçom eleitoral.

12. Quando se conheceu o marco do Acordo Geral para a terminaçom do conflito, alguns politólogos e opinadores manifestaram, nom só que tinha maturidade para um processo, se nom que já existia um acordo baixo a mesa para além do escrito. Que lhe diz a esses opinadores e analistas?

Por princípio, nunca faríamos um acordo a costas do país. E quanto ao outro, deixemos que esses polítólogos e “opinadores” estipendiados sigam voando com as suas asas de Ícaro para o sol das suas mentiras.

13. Lamentavelmente o conflito armado seguirá. 20 de janeiro termina o cesse unilateral do fogo, provou-se nestas semanas que esta decisom tem sido importantíssima para alivianar a situaçom dos civis e dos próprios combatentes… Que segue após o 20 ativaçom de atuaçons ofensivas?

Esse gesto unilateral de paz, que se estendeu generosamente durante 60 dias, inobjetavelmente gerou um ambiente favorável aos diálogos e conformou um clima de tranquilidade que arropou aos filhos da Colômbia em natal e ano novo. Que bom que o governo tivesse feito o mesmo, entendendo que umha determinaçom de humanidade nom joga a pique nengumha estratégia militar nem política. Se o governo Santos aceitasse para após o 20 de janeiro um armistício ou um cesse bilateral de fogos, por um tempo limitado, como um ensaio se se quer, as FARC-EP nom duvidariam em pactuá-lo. Para aterrar na realidade devesse o governo “resetiar” a veleidade de que com bombardeios no teatro de operaçons vai conseguir a submissom da guerrilha das FARC numha mesa.

14. Neste período de cesse unilateral apresentaram-se 2 ou 3 episódios que lhes fôrom atribuídos e que indicavam que incumpriram. Estes factos tenhem sido da sua autoria? Que tem ocorrido? Por que?

Somente o reconhecido polas mesmas FARC em Antioquia, onde fôrom atacados objetivos de infraestrutura, porque a comunicaçom nom lhes chegou a tempo. Há que ter conta que o cesse unilateral aludia a açons ofensivas. Se as FARC eram atacadas, tinha todo o direito a responder. Perguntamos-lhe ao CICR a sua avaliaçom desta decisom unilateral e respondeu-nos que todos os seus delegados reportavam um ambiente de tranquilidade nas suas áreas de trabalho. Valeria a pena perguntar-lhes a gerentes das transnacionais a sua valorizaçom do cesse unilateral de açons ofensivas. Nós podemos assegurar que aproveitarom a circunstáncia para saquear mais petróleo, mais carvom, mais ouro e ferroníquel das entranhas do nosso território. Devem estar a se esfregar as maos.

15. Durante este período de cesse unilateral, inédito no seu acionar, vocês tenhem proposto um Acordo Especial ou umha regularizaçom do conflito, a regulaçom a estám a projetar sobre a base que este processo de aproximaçom fracasse?

Nom. O que ocorre é que o tratado de regularizaçom da guerra que propomos é consequência da negativa do governo a pactuar um cesse bilateral de fogos por um tempo determinado. E fazemo-lo pensando fundamentalmente na populaçom, em como sustraé-la, o mais que se poda, dos efeitos da confrontaçom. Um posto de polícia ou umha base do exército localizada no centro de um povo, por exemplo, é utilizar à populaçom como escudo humano, se argumente o que se queira. Por outra parte, atendo às especificidades do conflito colombiano, podemos lembrar normas entre os contendentes para resolver prontamente situaçons de caídos em combate, feridos e prisioneiros, entre outros temas.

16. Durante este período de cesse unilateral, cessaram as operaçons de financiamento?

Umha força insurgente nom vive do ar. Tem que comer, vestir, curar, transportar, adquirir pertrechos, renovar o seu armamento, financiar as suas escolas…

17. Há empresas privadas que estám a pagar a extorsom ou financiamento das tropas guerrilheiras? Entre estas empresas privadas há multinacionais? Estas empresas de que setores da economia som? A percentagem desta fonte de financiamento a que se destina?

O único que lhe podo responder dessa cascada de perguntas é que a Lei 002 sobre tributaçom para a paz, promulgada polas FARC-EP no 2000, segue vigente, excepto a privaçom da liberdade por evasom do imposto. Como você sabe, há um ano as FARC deixarom, por razons já expostas, a prática das retençons com fins económicos.

18. Umha das suas fontes de financiamento está relacionado com a coca, inclusive chegou-se a dizer que som um cártel. Pode explicar como um movimento armado revolucionário participa nessa fonte de financiamento? Como enfrentar essa percepçom?

Valeria a pena perguntar-nos mais bem, como um Estado se nutre e se financia com o tráfico de cocaína. A lavagem de ativos na Colômbia é da ordem dos 12 bilhons de dólares ao ano, e a maior percentagem desses dinheiros movem-se livremente polos circuitos financeiros. O mesmo Estado imperial, inmerso hoje numha devastadora crise sistémica, utiliza grandes massas de dinheiro provenientes do narcotráfico em inúteis operaçons de salvamento financeiro. Aqui há muito sepulcro blanqueado por fora, mas podre por dentro. Álvaro Uribe (Varito Corleone) foi um presidente mafioso. Lembra-se? Laboratório de Tranquilandia, pistas para operaçons de narcotráfico na selva autorizadas por ele, sendo diretor da Aeronáutica civil. Também permitiu aos seus congéneres paramilitares, quando era presidente, a exportaçom de cocaína… Na época dos “Pepes” (Perseguidos por Pablo Escobar) o cartaz de Cali financiou o Bloco de Busca. Essa instituiçom nom tinha prata e com o que recebeu da máfia, adquiriu carros, equipas de inteligência, pagou sobresalários aos oficiais… O DAS, durante o governo de Uribe, passou à história como o cartaz das Três Letras. Abriu a rota da cocaína aos Estados Unidos através do cartaz dos Beltrán Leyva de México. E fazia a volta completa, porque também entravam os dólares desde os Estados Unidos, através do aeroporto “El Dorado” de Bogotá, diretamente às maos dos capos. Os narcotraficantes elegeram a quase todos os Presidentes, desde Turbay até Uribe. Elegeram parlamentares. Nom se pode esquecer o que digera aquela vez Salvatore Mancuso: “elegemos mais do 33 por cento do Congresso”. E depois a narco-parapolítica, e isso segue. Para as FARC a produçom de folha de coca polos camponeses é a consequência de umha problemática de ordem social. A repressom nom soluciona nada. Alguns molestam-se porque as FARC “toleram”, mas já o digemos, esse é um problema social que se deve abordar como tal, e ademais, as FARC nom somos polícias antinarcóticos. Figemos através do comandante Manuel umha proposta de substituiçom de cultivos ilícitos dirigida ao camponês, mas o governo desestimou-na, porque precisa o pretexto para seguir agredindo e justificar a injerência dos Estados Unidos nos nossos assuntos internos. Também propugemos no passado a legalizaçom do consumo, mas responderom negativamente porque o problema era global. Agora há ex-presidentes muito ilustres, como Gaviria, abogando pola legalizaçom, e nom porque tenha entrado em razom, porque ache que bem como ocorreu com o tabaco e o rom pode ocorrer com a cocaína, senom porque detrás estám as transnacionais farmaceuticas que de repente descobrirom que ali há um grande filom de ouro para os seus negócios.

19. Por que se diz entom que as FARC tem alianças com as BACRIM? Se nom há essas alianças, de que se trata?

Porque é umha campanha mediática. Para que tenhem às denominadas BACRIM? Para garantir o Carrusel das terras em Urabá e alimentar a farsa da entrega de terras que tem sido posta em cena nessa regiom. A sua tarefa é revitimizar aos despojados para que as terras voltem aos despojadores, os bananeiros e palmicultores, a Gabriel Harry, aos Vélez, aos Gaviria. E tenhem às BARCIM também para coloca-la como guachimanes nos lugares que serám objeto de estrangeirizaçom e de exploraçom mineiro-energética. Depois daram-lhes umha patada no cú e extraditaram-nos aos Estados Unidos, como aos outros.

20. Para vocês que som as BACRIM?

Grupos para estatais. Há uns generais retirados reativando o paramilitarismo.

21. A sua mensagem representa umha percentagem da populaçom rural e urbana, consideram que esse acumulado é suficiente para umha participaçom que logre transformaçons políticas no médio prazo?

O anseio de transformaçons políticas, económicas e sociais cresce e cresce todos os dias na Colômbia e mobiliza gente e nessa motivaçom fincamos todas as nossas esperanças de articular um contingente unificado de setores sociais a volta de algo novo para Colômbia, umha forma diferente de fazer política que tenha como propósito a dignidade humana antes de mais nada, a soberania, a democracia verdadeira. Há um ataque abusivo e desproporcionado do governo contra as camadas médias do país através da tributaçom. Como é possível que para garantir favorabilidades e isençom de impostos às transnacionais, à indústria extrativa, estes tenham que pagá-las as camadas médias e o povo em geral? O governo quer mandar-nos a todos ao inframundo porque na sua soberba e atuaçom impune acha que a gente vai tolerar que lhe pisoteem mansamente, o tempo todo, a sua dignidade.

22. Em diversas entrevistas tem-se-lhes perguntado polos afetados e as vítimas que tem gerado o seu acionar revolucionário. Vocês afirmam que som umha organizaçom que nasceu da repressom estatal, da negaçom no acesso e a distribuiçom da terra. No devir histórico e da guerra de guerrilhas cometerom-se atentados à vida e integridade de pessoas, desde a ética revolucionária aceitam que som responsáveis por estas situaçons?

As vítimas, som vítimas do conflito, no que o Estado tem umha responsabilidade histórica por açom e por omisom. Para nom nos ir bem longe nesta triste história está o genocídio de 5 mil militantes e dirigentes da Uniom Patriótica. Há que identificar às vítimas, informar como marcham os processos de incriminaçom dos vitimarios. O Estado, que é o vitimario por antonomasia, deve responder polos massacres e as fosas comuns perpetradas polo paramilitarismo de Estado, a deslocaçom forçada de 5 milhons de camponeses, os falsos positivos, polos que se deve responder hierarquicamente, começando polo ex-presidente Uribe e o seu ministro de Defesa Camilo Ospina, os generais e todos os envolvidos nestes crimes de lesa humanidade, que estamparom as suas assinaturas na fatídica Diretiva 029, sobretodo agora que estám atados ao Estatuto de Roma.

Quanto às FARC, já temos explicado, que só fazemos uso de um direito universal que assiste a todos os povos do mundo de se alçar em armas contra a opressom. A nossa é umha resposta aos vitimarios. As FARC nom projetam açons contra a populaçom civil, senom contra objetivos militares. No meio do fogo seguramente afecta-se à populaçom, mas nom é o cálculo e a intençom da guerrilha.

23. O governo tem manifestado que vocês se apropriarom de mais de 800 mil hectares de terra. Que opinam desta afirmaçom?

Essa é a estatística manipuladora dos vitimários. Com isso pretendem tapar com terra a acumulaçom latifundista geradora de miséria e desigualdade no campo. É umha manobra de curto voo que procura desesperadamente encobrir a entrega do território, a soberania, ao saque exacerbado das nossas riquezas naturais e energéticas polas transnacionais. Com a invençom das 800 mil hectares, procuram, ademais, seguir golpeando à gente que incomoda ao projeto de estrangeirizaçom da terra que já tenhem desenhado. Muito pouco se fala, por exemplo, da titulaçom do INCODER a testaferros dos despojadores a mais de 312 mil hectares de terra. Os 92 prédios da fazenda As Tangas supostamente devolvidos aos seus donos, seguem em maos de poderosos despojadores em fundos dedicados à gandaria.

24. Como e daí se imagina você fazendo em 10 anos?

Todo depende do resultado deste esforço pola paz, ao que se devem integrar, mais e mais colombianos.

25. Para vocês ser das FARC é como ser parte de umha família, segundo expressam em diversas entrevistas, que passa com a sua família de sangue?,
Têm compreendido a sua opçom? Há divergências, entendimento?

Com um Estado tam arbitrário, que aplica o delito de sangue, é melhor nom falar desse tema.

26. Especula-se muito sobre a situaçom de saúde do presidente Chávez, dizem que as histórias som dos povos, se há um desenlace fatal com o novo melhor amigo do presidente Santos, consideram que há garantias para continuar num processo sério para a paz?

Só desejamos que o Presidente Chávez recupere plenamente a sua saúde. É tam grande o contributo que tem feito para conseguir a concordia entre os colombianos, que sem o seu concurso nom se teria instalado a mesa de conversas de Havana.

27. Que opina da dilataçom que o presidente Santos tem tido com relaçom ao início de conversas com o ELN?

Nom temos informaçom ao respeito.

28. Quando se aproximárom por primeira vez a estreitar a mao do general Naranjo e de Mora Rangel, que experimentou, que valorizou?

O encontro com o general Jorge Enrique Mora ocorreu num coquetel noturno organizado pola chancelaria Noruega em Oslo, ao que assistirom os países garantes, Cuba e Noruega e os acompanhantes em representaçom dos governos da Venezuela e Chile. Praticamente nom falamos nessa ocasiom. Mas o general Mora é um porta-voz do governo designado soberanamente polo presidente Santos. Na mesa sim nos encontramos e nas relaçons prima o respeito recíproco. Sabemos que conta com o respaldo da oficialidade em serviço ativo e dos generais em retiro. Com o outro general, só encontros fugaces.

29. Organizaçons de vítimas tenhem questionado a presença destes ex-comandos militares na mesa, que opina?

Que é muito respeitavél a opiniom da gente.


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