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030811_declaracomGaliza - Diário Liberdade - Entrevistamos Maria José Castelo Lestón, compostelana de 34 anos criada em Muros, politóloga e integrante do núcleo impulsionador da DGS.


A 'Declaração Galega de Soberania' foi lançada no passado mês de maio através de diferentes ferramentas da rede como o Facebook, uma petição de assinaturas e um blog, recolhendo adesões para a afirmação coletiva dos direitos nacionais da Galiza por cima das concreções político-partidárias. No Diário Liberdade, como projeto defensor da liberdade dos povos e da soberania da Galiza em concreto, achamos de interesse transmitir às nossas leitoras e leitores as explicações e opiniões de Maria José, feminista, independentista e defensora da unidade da nossa língua galego-luso-brasileira-africana de expressão portuguesa, entre outros compromissos sociais por ela assumidos.

Além doutros compromissos como o ambientalismo, ou a antiglobalização, Maria José destaca como pugilista amadora. Como tal, acha que não contam os ataques recebidos, mas o jeito de os encaixar. No boxe e na vida.

Eis a entrevista realizada pelo Diário Liberdade com Maria José Castelo.

Diário Liberdade - Donde partiu a ideia da 'Declaração Galega de Soberania'?

Maria José - Partiu de gente anónima. A Declaração levava tempo escrita, mas dormindo e, depois das eleições de maio, pensamos que era o momento oportuno para lhe dar publicidade. Pensemos, que, em muitos aspectos, esse foi um momento de inflexão no jeito de ver a política própria, o momento em que entendemos que, no que se refere ao soberanismo, a via institucional fica estancada e se calhar precisa da força social.

DL - Tem algumha relação com outras iniciativas autodeterministas ou com alguma corrente política concreta?

Maria José - Não. Como pessoas, cada uma de nós tem a relação com os grupos políticos e a militância que entende oportuna, mas como grupo, não temos relação com ninguém em particular, embora pensemos que a DGS precisa do apoio de todas as forças do país que se confessem soberanistas, e com esse fim dirigimo-nos a eles no seu momento, para lhes apresentar a Declaração e lhes pedir a sua colaboração na difusão.

DL - Já têm quase 500 assinaturas de apoio à Declaração. Até onde vam chegar e depois quê?

Maria José - Tantas assinaturas coma individuos na Galiza estaria bem, mas isso seria num mundo perfeito, e num mundo perfeito a DGS não faria sentido, porque a Galiza ja seria soberana.

Não lhe temos tecto. Nós seguiremos a promocionar a DGS, tanto através de nós próprios como das pessoas que aderiram, cada aderente é já um meio de promoção em si mesmo. Depois dos 500, certamente procuraremos os 750, e os mil... Mas não queremos uma assinatura vazia, queremos a participação, a implicação de todos e o trabalho em conjunto, pois esas são as únicas vias pelas quais o sucesso é garantido.

DL - Até agora a vossa atividade tem sido sobretudo virtual (na rede). Está prevista a passagem para o mundo "real" (na rua)?

Maria José - Sim, é so questão de tempo. Estavamos à espera de ter um apoio consistente, e o número dos 500 parece-nos um bom momento para dar o salto ao mundo "real". Com a conivência dos aderentes, faremos uma campanha de apresentações ao público nas principais vilas e cidades do País, para que todo o mundo tenha oportunidade de saber da nossa mão quem somos, de que se trata, e que pretendemos.

declaracom2DL - O País Basco e Catalunha parecem estar mais perto de um eventual exercício do direito de autodeterminação. Acham que a Galiza vai ter a sua vez num futuro mais ou menos próximo?

Maria José - Seria o desejável, e mesmo o que se poderia aguardar, mas é claro que a Galiza é diferente social e políticamente das outras nações da península, e é muito provável que tenhamos que trabalhar o assunto um bocado mais. Pensemos que tanto no Pais Basco como na Catalunya tenhem a ideia de nação muito mais arreigada socialmente do que está aqui, e teremos de fazer muita pedagogia social e muito trabalho de base para nos pormos ao seu nível. Aqui temos o conceito, e acreditamos na nossa condição de nação individualmente, mas falta que o conceito dê o salto do individual ao coletivo. Em parte, é o que pretendemos com a DGS, aunar essas individualidades, criando uma força comum, uma só voz proclamando e pedindo a soberania para a Galiza. Não temos pressa, mas também não teremos pausa.

DL - Outras iniciativas parecidas com a vossa ficaram no caminho ou não conseguiram o caráter abrangente que inicialmente pretendiam. Vocês têm relações com as organizações políticas autodefinidas como autodeterministas ou soberanistas? Quais as vossas pretensões em relação à abrangência da vossa iniciativa?

Maria José - Nós abrimos a DGS a todas as organizações autodeterministas e soberanistas, ainda, ampliamos a nossa busca de apoios nas associações culturais, desportivas, fundações, centros sociais, plataformas civis de defesa da terra, grupos ecologistas, sindicatos. Pensamos que esta não é a nossa luta, é a luta do povo todo e todos têm de estar implicados. Cá não sobra ninguém, todos temos o nosso sítio e todos fazemos parte. De facto, não é a nossa iniciativa, entendemos que é a iniciativa do País em conjunto. Não buscamos nem apropriar-nos da ideia, nem dos resultados. Da DGS fazem parte todos os assinantes, presentes e futuros e cada pessoa que aderir.

Sendo otimista, a população galega toda como assinante seria ótimo, sendo realista, cada assinante novo e cada aderente é um sucesso. Também não tudo pode ser reduzido a números. Numa situação como a atual, de crise económica, politica, ideológica, onde falharam todos os referentes, e tanta apatia, inércia e desmotivação pessoal, meio milhar de asinaturas com tanta heterogeneidade como são os nossos aderentes, não é mal resultado.

DL - Alguma mensagem final para os leitores e leitoras do Diário Liberdade?

Maria José - É dificil, chegados já a este momento da história, mandar uma mensagem arredor do soberanismo e não cair na demagogia, mas, sem pretender ser de mau agoiro, eu diria ao nacionalismo em conjunto que a Galiza será soberana ou não será. Acabou já o tempo de andar a jogar e não podemos ter medo das palavras, conceitos como soberania e autodeterminação têm de voltar ao discurso político nacionalista, mas, sobretudo, têm de estar presentes no discurso social, temos de criar massa crítica e abrir de novo o debate popular à volta do soberanismo.


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