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180711_juvenil00Galiza - Diário Liberdade - A poucos dias de um novo 25 de Julho, o Diário Liberdade convidou as três entidades juvenis independentistas galegas a umha entrevista conjunta.


A disponibilidade da AMI, entidade decana em ativo do independentismo juvenil galego, Briga, referencialmente ligada a NÓS-UP, e Adiante, do ámbito político nucleado pola FPG, fijo possível um encontro informativo inédito e que, pola primeira vez após muito tempo, as três entidades compartilhassem mesa para falarem de política. Achamos isso um modesto mas valioso contributo para umha desejável nova paisagem juvenil independentista que seguramente deveria caraterizar-se, no mínimo, pola colaboraçom e o entendimento.

Por outra parte, e perante a endémica falta de unidade da esquerda independentista, podemos assim dar a conhecer em primeira pessoa as opinions e ánimos com que se afronta um Dia da Pátria marcado pola divisom entre as convocatórias de Causa Galiza e NÓS-Unidade Popular, mas também entre as da AMI e Briga na jornada prévia do 24 de julho. Outros temas abordados fôrom a crise capitalista, a situaçom da língua ou a opiniom de cada entidade sobre o movimento 15-M.

A entrevista decorreu na Biblioteca do Centro Social do Pichel, em Compostela. Participárom, junto a dous companheiros do Diário Liberdade:

Por Adiante: Laura Sousa, estudante de Filologia Galega, 22 anos, nascida em Sada. Ativista estudantil na Liga Estudantil Galega e militante da FPG.

Pola AMI: Maria Osório, jovem desempregada de 25 anos, originária de Bezerreá (Ancares), responsável por tarefas políticas de organizaçom na Assembleia da Mocidade Independentista e residente em Lugo.

Por Briga: Carlos Garcia Seoane, naronês de 27 anos, trabalhador assalariado como carpinteiro desde os 19 anos. Além de membro da Mesa Nacional de Briga, fai parte da Executiva Comarcal da Construçom da CIG em Ferrol.

Com Laura, Maria e Carlos mantivemos umha longa conversa que transcrevemos a seguir para os leitores e leitoras do Diário Liberdade.

Diário Liberdade - Como se explica a existência, num país tam pequeno como a Galiza e com um movimento independentista minoritário, de três organizaçons juvenis independentistas?

Maria Osório – Parece estar coletivamente assumido que isso é um fado muito mau que a gente prefira ou, polo que for, trabalhe separadamente, como acontece. Nós pensamos que, de partida, nom somos culpadas pola tradiçom militante ou herança que temos. Considera-se umha carga muito pesada e todas as intervençons políticas do independentismo parecem ir orientadas para a unidade, o que está bem, mas na verdade este contexto nom tem porque ser negativo, nem melhor nem pior do que outros contextos.

A AMI também estivo embarcada em projetos unitários desse tipo, que dérom em contextos que nom lhe fôrom favoráveis, por isso nós preferimos agora tomá-lo com calma. Somos umha organizaçom setorial e vamos atuar como tal, pois temos pecado de estarmos metidas em histórias que nom nos competem e agora preferimos trabalhar a nível setorial. Vemos bem as iniciativas que houver, mas nos tempos difíceis que correm para organizar gente, vamos centrar-nos na própria organizaçom.

180711_juvenil01Carlos Garcia Seoane – De Briga, pensamos que a atomizaçom independentista responde à existência de diferentes projetos e maneiras de ver a realidade, também da conceçom do que deve ser umha organizaçom militante. Desde a nossa formaçom em 2004, vimos um espaço vazio para ocupar, integrando independentismo, esquerda e feminismo como eixo estratégico. Além disso, na altura faltava também umha setorializaçom do discurso, no tratamento dos temas com visom juvenil. Tentamos construir discurso e prática orientada à juventude trabalhadora, especialmente agredida nesta sociedade, no quadro dos objetivos estratégicos da independência nacional, o socialismo e a superaçom do patriarcado.

Achamos legítimo o trabalho de cada entidade particular, sem apelar continuamente à unidade se nom houver condiçons para tal. Se se derem as condiçons, pode haver unidade, se nom, existe total legitimidade para o trabalho particular de cada organizaçom.

Laura Sousa – Nom é tam importante falar de porque há três organizaçons diferentes e sim porque nom damos feito trabalho conjunto no dia a dia. Há diferenças de conceçom, mas deveríamos ser capazes de colaborar, como se tem feito em momentos concretos da luita diária, como já aconteceu nas greves gerais. Nom é preciso obsessionar-se com juntar siglas, se bem nom é positivo haver três organizaçons, deve haver condiçons para avançar na unidade.

Adiante alimenta projetos como as Redes Escarlata, a Liga Estudantil e outros, além do trabalho próprio como organizaçom da mocidade. O que representamos para o País deverá ser este que o avalie mas, quanto a mim, concordo com a conceçom política, nacional-popular, situando o povo trabalhador como motor da mudança no País.

DL – Que análise e que aposta fazedes para mudar a grave situaçom que vive a nossa comunidade lingüística e qual o papel do mundo lusófono nesse processo?

Maria – Há tantas frentes abertas, que fica complicado atender todas. Até agora, a língua era umha frente prioritária na AMI, mas na última assembleia demos umha volta para nos centrarmos em fortalecer a organizaçom e na luita anticapitalista, deixando o da língua um pouco mais de parte, em maos de entidades mais centradas nisso.

Internamente, temos avaliado que a gente nova começa a ser analfabeta em galego. Isso trespassa-se à militáncia e por isso temos um protocolo para a formaçom interna, como forma de apoio.

Por outra parte, depois da saída da cena de Galicia Bilingüe, tem caído um pouco o ativismo e haveria que retomá-lo.

Quanto ao mundo lusófono, é a nossa referência e está assim nos nossos Estatutos, utilizando a norma reintegracionista também porque é um elemento transgressor contra o espanholismo.

Carlos – Para nós, a língua é um dos principais traços identitários, parte da base da construçom nacional. A nossa orientaçom é reintegracionista, como recurso na recuperaçom dos direitos lingüísticos, como parte do movimento normalizador. A nossa militáncia tenta responder na rua às agressons nesse ámbito, como já figemos quando Galicia Bilingüe tentou socializar o ódio ao galego numha campanha por toda a Galiza.

No plano institucional, parece claro que o PP aposta no esmagamento da comunidade lingüística, com a aprovaçom de decretos muito agressivos que mesmo vam contra o Estatuto de Autonomia, evidenciando o fracasso da receita autonómica para a recuperaçom da língua. O aumento da populaçom espanholfalante reforça essa análise, já que o suposto objetivo da igualdade entre as duas línguas nom se conseguiu, aumentando a marginalizaçom do galego devido à perda de falantes e de apoios institucionais. A juventude padece em primeira pessoa essa nova fase, com umha perda acelerada de falantes. Daí a importáncia do trabalho que pudermos fazer as entidades juvenis nesse plano.

Laura – Para nós, o problema é de autoperceçom. Enquanto a gente nom se autoconscientizar sobre a sua verdadeira identidade, pouco poderá ser feito. O Carlos é de Narom, mas eu, que sou de Sada, vejo o mesmo panorama. O pessoal de menos de 30 nom chega a 3% de falantes de galego, numha populaçom de umhas 13 mil pessoas. Neofalantes como eu temos que explicar porque usamos a língua que nos é própria. Falar galego nom é assumido como algo natural e mudar isso é muito duro. Nom há umha linha estratégica clara para conseguir isso.

Nós trabalhamos nas Redes Escarlata e na plataforma Queremos Galego que, ultimamente, está a ter umha deriva um pouco estranha, sem luitar todo o que deveria pola língua, como vimos na falta de convocatória nacional no passado 17 de maio. As mudanças no tema lingüístico devem ir da mao doutras mudanças.

Quanto à lusofonia, internamente convivem as dus normas (ILG e AGAL), mas como organizaçom defendemos a norma de consenso de 2003. A existência da lusofonia parece-nos positiva, sempre que nom caiamos nos argumentos do inimigo, valorizando postivamente esse mundo por ter mais falantes e converter a língua num produto de mercado. A língua deve ser valorizada polo seu caráter cultural próprio e nom cair no argumentário do inimigo.

Carlos – Eu diria que nos falta um movimento normalizador coeso e isso sim é algo enfraquecedor. Aqui sim devia haver unidade para fazer frente às ofensivas, pois existem mínimos para um consenso e está nas nossas maos conseguirmo-lo, pois aí sim coincidimos.

Maria – O inimigo é muito grande e às vezes vemo-nos ultrapassados pola sua força, mas de facto temos conseguido muitas cousas nos últimos anos. É o caso dos centros sociais, que oferecem recursos e espaços para sustentar e construir falantes. A açom normalizadora deveria ter dous pés: a de rua contra o inimigo e a construçom de espaços normalizados e normalizadores.

180711_juvenil02DL - Antes saiu o tema da crise económica, que afeta a juventude de maneira particular. Gostávamos que apresentássedes as vossa análises.

Laura – A crise é natural dentro do sistema capitalista. Também a fraqueza das mulheres e da juventude é típica nas crise. Ambos setores cumprem um rol complementar que os obriga a assumir trabalhos precários e salários inferiores, além da emigraçom, às vezes inclusive pagando por conseguir um trabalho no estrangeiro, como vim recentemente na TVG: um casal galego ia à Suíça e pagava para poder conseguir um emprego de baixa qualificaçom. Só a mudança poderá acabar com a crise.

Carlos – O sistema pode readequar-se se nom houver respostas. As agressons som cada vez mais freqüentes. Se antes havia umha por ano, agora sucendem-se as reformas e ajustes que aumentam a exploraçom burguesa contra a maioria, especialmente sobre a juventude. Briga analisou todo isto no seu último congresso, chegando à conclusom de que está crise é global, nom simplesmente financeira.

É o sistema capitalista em conjunto que se vê atravessado por umha crise económica, energética, alimentar, ideológica... isso explica o questionamento do modelo de dominaçom burguês na atualidade. Os valores da sociedade burguesa estám também em crise.

Jovens, mulheres e pessoas de mais idade sofrem mais os efeitos das crises. O atraso da idade da reforma, graças à colaboraçom das cúpulas de CCOO e UGT, mostra como se generalizam os ataques. No que nos toca como jovens trabalhadores, devemos contestar a crise do capital coordenando a defesa popular mediante a organizaçom, que sirva para nos defendermos através do sindicalismo nacional e de classe. É importante que os sindicatos se abram à juventude, nom só de maneira burocrática, como fijo a cúpula da CIG no nosso último congresso. Deve ser aberto no dia a dia à incorporaçom da juventude trabalhadora para fazer frente às agressons.

Ao mesmo tempo, é preciso politizar e espalhar consciência de classe. Aprender das agressons, tirar liçons e defender as conquistas históricas...

Maria – Sim, todo vai muito depressa. Reformas, resgates... nom se dá entendido nem digerido o momento em que estamos. Em todo o caso, vai haver espaços para a luita e teremos que estar aí. Temos que ver que posiçom tomamos: ajudar a que se reforme o sistema? Tentar que caia? Há que definir novas estratégias a nível social, pois vai haver umha luita por direitos fundamentais por parte das classes populares.

O Estado está também a fomentar a emigraçom, sobretodo através das universidades: leitorados, bolsas erasmus... na minha promoçom a maioria da gente anda polo mundo fora.

As batalhas fundamentais estám na rua e até agora nom estamos conseguindo parar os pés ao inimigo, que tem os seus planos bem traçados e nós ficamos escassas de força na resposta, enquanto se estende a concorrência e a insolidariedade. As pessoas nom querem saber de revoluçons, querem um trabalho rápido e bom, e haverá que readequar discursos, propor luitas... é um momento interessante e veremos no que dá.

DL – O movimento de massas do 15 M enquadra-se nesse novo panorama originado pola crise capitalista. Que opinades sobre esse movimento, que tem originado alguns debates controversos?

Carlos – É umha mostra da frustraçom e da crise generalizada que vivemos. A caraterizaçom de classe apresenta a pequena-burguesia à frente. A pequena-burguesia que ficou na ruína, junto a setores do estudantado hiperformado, com nom sei quantos masters, e que nom se dá situado, por exemplo, à frente de umha grande empresa, como corresponderia numha situaçom de funcionamento normal do sistema.

O movimento tem sido bastante inovador, isso deve reconhecer-se. Apanhou toda a gente de surpresa e fomentou a participaçom nas ruas, trazendo de novo a política ao seu espaço natural de debate, fora das insituiçons. Ora, o discurso tem sido hegemonizado pola pequena-burguesia...

Laura – Nós concordamos. Foi umha birrinha da 'classe média', que viu desaparecer os seus privilégios, como a precarizaçom da classe trabalhadora também os tocava e saírom à rua. Contodo, o movimento é positivo porque mostra as contradiçons do sistema e fai crítica do sistema, com propostas como, por exemplo, a nacionalizaçom da banca, que antes só a esquerda radical fazia.

O espantáneo pode ser revolucionário porque nom sabes no que vai dar, apesar das tentativas de Izquierda Unida e UPD de vetar discursos e reconduzir o movimento dos indignados. Por todo isso, há que participar, o movimento político é chave e nós como esquerda real devemos desmascarar a falsa esquerda e fazer propostas.

Maria – Nós pensamos que é um movimento do sistema, como se vê polo eco mediático que tem tido. Quando as cousas molestam, nom tenhem essa atençom dos meios. Nom sabemos no que vai acabar, mas em Lugo vemos que a atividade é menor. As reivindicaçons som insuficientes, pois nom chega com se indignar. Há que atuar, levar a indignaçom à prática e isso nem o contemplam.

Haverá que ver como introduzir o nosso discurso e politizar gente. Nós temos tido e temos as nossas dúvidas. Optamos por fazer trabalho paralelo e levar o discurso se for possível, combatendo acusaçons que nos tenhem feito denunciando.

Laura – Também em Cangas nos tenhem acusado de sermos "políticas", mas achamos positivo levar o discurso e escuitar a sociedade que está ali. A maioria da sociedade nom é independentista nem socialista, mas temos que estar aí para mudar as cousas.

180711_juvenil03DL – Qual é o ánimo e as iniciativas com que afrontades o Dia da Pátria?

Carlos – Briga leva seis anos organizando a Jornada de Rebeliom Juvenil na véspera do 25 de julho, que inclui umha manifestaçom no centro de Compostela que tenta aceder à zona velha, bem como um concerto no Parque de Belvis. Para nós é umha data referencial e afrontamo-la com bom ánimo para voltar a levar à rua a nossa voz e o nosso discurso, reivindicando a rua como o nosso espaço principal de intervençom política.

As forças repressivas voltarám a estar diante de nós, evidenciando a existência de um conflito nacional, de classe e de género. A juventude independentista rodeada de polícias armados encenando a preocupaçom da dirigência política espanhola com a resposta da juventude consciente diante do estado de cousas que nos imponhem.

Briga investe semanas de trabalho para esta jornada. Quanto ao concerto, nesta ocasiom teremos um grupo de rapeiros portugueses, jovens afrodescendentes de Lisboa, que virám apoiar a nossa causa, os 'Nos Ki Nasi Homi Ki Ta Mori Homi', a banda basca Su Ta Gar e grupos galegos para reivindicar a nossa música na nossa língua: Raiva e os Cuchufeiros. O programa é ambicioso e variado, incluindo a combatividade e a festa para um dia de especial significado para a juventude galega que nom baixa a cabeça diante dos patrons nem veste a camisola da seleçom espanhola.

Maria – Nós vamos realizar a décima sétima rondalha e levamos cinco anos com problemas que, desde 2008, nos impedem acabar bem. Decidimos há anos abandonar a organizaçom do concerto, porque já há quem os faga, centrando-nos na rondalha e noutras atividades.

Nós nom estamos dispostas a ir rodeadas de polícia e queremos denunciar que nom se deixe entrar na zona velha, direito fundamental que devemos reconquistar. Vamos ver o que acontece...

Vamos também fazer um jantar e um concerto. Iremos à cadeia humana de Ceivar, que acaba onde nós fazemos o ato político. Depois disso, faremos a rondalha. É um dia de conflito e há que responder na rua como nos for possível. Vamos repartir um caderninho explicativo sobre todo isto para repartir nas ruas denunciando o que acontece nesse dia cada ano.

Laura – Para nós o Dia da Pátria também é um dia de luita, um capital simbólico para a confraternizaçom com os diferentes agentes do nossso movimento. Vamos participar nos atos que Causa Galiza programou, também na cadeia em prol dos presos de Ceivar, e no dia 25 no ato político da FPG no monte Pedroso.

Como Adiante, temos alguns atos modestos, como a precintagem das estátuas de libertadores americanos em Vigo, denunciando a perseguiçom política contra o independentismo, que se plasma em nom deixar sair a rondalha da AMI e na repressom contra a manifestaçom de BRIGA no dia 24 de julho.

DL - Para concluirmos, falai-nos das perspetivas de futuro para as vossas entidades...

Carlos – Nós só temos a perspetiva de continuar a organizar juventude trabalhadora em direçom aos objetivos estratégicos, esse é o nosso norte.

Laura – Nós também. Devemos aproveitar a crise para conscientizar e oferecer alternativas táticas, estratégicas e trabalharmos melhor.

Maria – O mesmo no nosso caso. Continuar a acumular e a dar guerra na medida do possível.


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