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130411_santamarinhaGaliza - Galizalivre - É conhecida a achega da comunidade emigrante, em todos os campos, à construçom nacional galega desde o século XIX.


Menos se tem reparado, porém, na decantaçom arredista de parte do associativismo além mar, e do contributo juvenil para as posiçons mais avançadas. Um dos protagonistas desta linha foi Antom Santamarinha Delgado, fundador das Mocidades Galeguistas de Bons Aires na década de 50, e participante entusiasta das inúmeras iniciativas que oxigenavam, a milhares de quilómetros, umha Terra postergada. Médio século depois, lembramos com Antom aquele reverdecer juvenil.

Como começa o teu compromisso?

É umha cousa progressiva, nom há um momento determinado. Eu nasço em Melilha, porque meu pai era militar, e instalo-me na Crunha de meninho. Por umha banda, adquiro consciência porque meu pai é republicano e, como tal, padece repressom ao triunfar o golpe. Eu daquela tinha oito anos, e lembro mui bem as visitas a meu pai na cadeia do Castelo de Santo Antom. Também, durante a primeira pós-guerra, sou enviado a casa dos meus avôs, a Guitiriz, e lá entro em contacto com o mundo rural, as tradiçons, a língua galega...que eu nom conhecia tam diretamente, pois fora educado em espanhol.

E na Crunha dos anos 40 ou 50, que vias podia ter um moço para adquirir certa consciência?

Poucas. Eu lembro daquela a penúria material da pós-guerra, lembro que meu pai nom podia encontrar trabalho pola famosa 'Lei de Responsabilidades Políticas'. Eu o que tinha eram certas inquedanças culturais: o bibliotecário do meu liceu, o Eusébio da Guarda, permitia-nos olhar nos fundos, e quando se relaxava o controlo, procurávamos nos livros 'pouco habituais'. Também recordo um certo papel das associaçons folclóricas, como Follas Novas. Numha ocasiom, no Teatro Rosalia, o público protestou abertamente porque nom se fechava o ato com o hino galego, e ao final conseguiu-se que se interpretasse. Isto foi a inícios dos anos 50. Nesses anos começo as minhas primeiras colaboraçons com a imprensa sobre temas históricos e culturais, sempre com a Galiza de fundo.

Depois vem a tua marcha à emigraçom...

Vem, sim. Sigo os passos do meu pai e da minha irmá, vou-me triste, com um amor à Galiza e à Crunha, mas ainda sem formular politicamente. Daquela ali sobrava o emprego, eu ia com o meu título de Magistério, e emprego-me de administrativo numha empresa de produtos lácteos.

Todos os emigrantes consciencializados falam da importáncia do Centro Galego.

Claro, claro. Eu vivia a sete 'quadras' do prédio. Começo a frequentar a biblioteca, dirigida por Luís Ares. Este foi o meu mestre, e o mestre de todos nós. Era betanceiro, fora membro da 'Pondal', e dirigia mui bem os interesses dos moços que frequentávamos a biblioteca, dando-nos livros dos clássicos, que se Rosalia, que se Curros. Com ele conhecemos a nossa história, a história das Irmandades...havia aquela fraternidade, o tratamento entre nós era de "irmaos".

Quando concretades o projeto das Mocidades?

Precisamente, a pedido de Ares, que fai a proposta de nos reunir. Éramos arredor de quinze moços e moças, que nos vemos numha junta no Centro Ourensano. Ali estava Neira Vilas, Moreda, os filhos de Abraira, as filhas de Ares...e claro, escolhemos o Centro Ourensano porque esse era o local onde se reunia a Irmandade Galega e nós, dumha maneira ou outra, éramos as suas juventudes. Depois reclamamos mais autonomia com a Irmandade, mas no fundo éramos isso, as sua seçom juvenil.

Abraçades entom o arredismo?

Si, sem dúvida. Porque as nossas influências eram dos homens da Pondal, os que ficavam, que daquela teriam entre 40 e 50 anos. Lemos Castelao também, Castelao é outra influência importante, mas nós remarcávamos o nosso arredismo.

Que relaçons havia com o resto da comunidade galega?

Em geral boas. A mim, por exemplo, as Mocidades mandam-me a participar na Federaçom de Sociedades Galegas, com umha influência importante dos comunistas, e nesse ambiente, daquela baixo a influência da URSS, havia essa compreensom pola soberania dos povos, as repúblicas confederadas. E nós, nas Mocidades, sem adscriçom mui concreta, éramos gente de esquerdas, progressista, assim que nom tinha por que haver problema. Outra cousa eram os galegos despolitizados, que eram muitos. Em geral gente mui humilde, do rural, sem inquedanças, e para tratar com eles precisavas de falar outra linguagem, nom meter-te em grandes termos...

E mantínhades discussons com o resto de galeguistas?

Nom, a relaçom era fraterna. Ora, com essa distinçom, que eles na sua maioria eram federalistas, e diziam aquilo de "nós somos galegos e espanhóis", cousa que para nós nom era concebível. Lembro, como anedota, o Congresso da Emigraçom Galega de 1956, um acto precioso, multitudinário, onde se comemoravam os cem anos do Banquete de Conxo. Pois no meio do discurso de Suárez Picalho, vai um dos filhos de Abraira e berra: "morra Espanha!". Imagina-te, na sala um silêncio sepulcral. Entom Picallo para, dá-se a volta, bebe um copo de água e diz: "ouvim algo de 'morra'. Pobre o povo que precise da morte de outro para ele viver".

Qual era a vossa actividade principal?

Sobretodo estar nos centros galegos, organizar festas, fomentar a nossa cultura. E depois responder às aldragens contra os galegos, que eram muitas: burlas aos galegos na imprensa argentina, interpretaçom do 'Cara al Sol' nalgum centro galego, como o lucense...organizávamos boicotes e repartíamos propaganda.

Algum de vós, como Moreda, decide-se a vir luitar à Terra.

Sim, Moreda sim. Mas foi umha decisom mui pessoal, dele. Lembro que me comentara a ideia e eu, estando de acordo, digem-lhe: "tem tino Antom, porque estás fichado, eles sabem que vinheche para aqui, vam saber porque voltas à Galiza, vam ter-te mui controlado". Ele tinha-o claro e foi alô. Depois as Mocidades esmorecem.

Por que razom?

Pois pola vida que leva cada quem. A finais dos 50 ou começos dos 60, a gente vai-se metendo na sua vida laboral, em responsabilidades familiares, filhos...e muitos das Mocidades eram filhos de galegos, e galegos de coraçom, mas já eram argentinos. E outros continuamos a nossa atividade noutros campos, escrevendo livros, colaborando em programas de rádio, dando cursos de galego reintegrado, em colaboraçom com Higino Martins...

Muitos anos depois vem a tua volta à Terra. Que sensaçons experimentas?

Ambíguas. Começava a década de 80, levava quase 30 na Argentina. Nom topei a Galiza ideal, senom a Galiza real. Começo a trabalhar numha editorial, e o primeiro que me chama a atençom é o recuar da língua. Volto a Monte Alto, o meu bairro, que era umha aldeia galega nos 40, e topo-me um bairro urbano e espanholizado. Depois cumpro um dos meus sonhos e compro umha casa na aldeia. Vaia decepçom ao ver os velhos educar os filhos em espanhol! Tanto me afetou que a revendi, e dixem "volto para Crunha". E desde entom aqui estou. Nom me podo queixar de como evolucionou a economia, no que a mim respeita, a mim e a minha dona foi-nos bem. Mas a atitude com a identidade, a cultura, o idioma, desastrosos. Isto fijo-me céptico com o futuro da Galiza.

Publicado primeiro n´A Revista nº 29


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