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120111_arnaldoEuskal Herria - Gara - [Jon Juaristi, traduçom do Diário Liberdade] "O Estado deverá assumir umha gestom política para construir um cenário de soluçons definitivas".


Continua preso no cárcere de Logronho, mas segue sendo o maior referente da esquerda abertzale e nom perde detalhe da evoluçom de uns acontecimentos que ele e outros companheiros encarcerados começaram a desencadear com sua iniciativa política. A entrevista foi realizada por GARA uns dias dantes da declaraçom da ETA, mas mantém intacto seu valor, já que Arnaldo Otegi dava por certo nela que a organizaçom armada se comprometeria com a Declaraçom de Bruxelas.

Arnaldo Otegi é o interlocutor principal da esquerda abertzale e o seu maior referente, ainda que continue preso. O político de Elgoibar fala para GARA depois de ter sido entrevistado no El País e no The Wall Street Journal. A entrevista produziu-se logicamente antes da mensagem da ETA de segunda-feira, mas todas as perguntas e todas as respostas estám aqui. Ainda que Otegi se encontre fechado sob sete chaves e tencionem atirá-las ao fundo do mar, esta é voz dele.

Num mundo ideal, um jornalista e um fotógrafo compartilham espaço e tempo com a pessoa que desejam entrevistar; recolhem os seus gestos e gravam as nuances, escuitam as suas palavras e desenvolvem um diálogo verbal e gráfico. Aqui e agora, neste mundo, a Arnaldo Otegi é preciso fazer-lhe chegar um questionário e procurar fotos de arquivo que ilustrem a entrevista. Este, folga dizê-lo, nom é um mundo ideal.

A entrevista foi realizada poucos dias antes da declaraçom da ETA, que adiantava a ediçom digital de GARA na segunda-feira ao meio-dia e sobre a qual informávamos ontem em profundidade em nosso jornal. Nas seguintes páginas, Otegi antecipa acontecimentos, seqüências de factos e situaçons, algumhas positivas, outras nom, e reflete e responde em profundidade sobre todas elas. Essa capacidade converte umha série de perguntas enviadas a umha prisom num diálogo direto com a sociedade basca. Este é o resultado.

Diário Gara - Na entrevista que você nos concedeu há dous anos, já propunha como necessária umha readequaçom da estratégia política da esquerda abertzale.

Arnaldo Otegi - Efetivamente, essa necessidade respondia à urgência de despejar umha equaçom estrutural para o nosso processo de libertaçom, que de maneira muito resumida poderíamos formular assim: se levamos mais de umha década considerando que existem condiçons objetivas para a mudança política em Euskal Herria e no entanto dita mudança nom se produz, qual era a razom (ou as razons)?

As respostas possíveis podiam ser fundamentalmente duas: ou bem nos equivocávamos com respeito à existência dessas condiçons, ou entom a esquerda abertzale como motor principal da mudança mantinha umha estratégia inadequada para que este se materializasse. Procurar a resposta adequada a essa interrogante é o alicerce sobre o que construímos, desenvolvido e definido nosso debate e aposta política.

Nesse esforço de readequaçom também referia como necessário levar em conta alguns factores que você definia como inovadores no ámbito internacional.

Apontava fundamentalmente para dous: por um lado, a constataçom inclusive no próprio espaço europeu da absoluta viabilidade do projeto independentista se se atingiam maiorias populares mediante estratégias pacíficas e democráticas; e, por outro, num ámbito social apontava para a existência de novas experiências transformadoras construídas a partir de estratégias de acumulaçom, fundamentalmente na América Latina, o que comummente se conhece como "o socialismo do século XXI".

Além destes fatores, hoje incluiria a feroz ofensiva do capital contra o Estado do Bem-estar como elemento de análise central e que deve ocupar um espaço também na readequaçom da nossa estratégia.

Dois anos após aquela entrevista, leva, de novo, mais de um ano em prisom. Porque acha que fôrom detidos em outubro de 2009 quando parece evidente que o Governo espanhol conhecia o trabalho que estavam a fazer?

Fabricárom umha acusaçom falsa e encarcerárom-nos precisamente porque sabiam exatamente o que tencionávamos fazer e queriam impedir isso... mas chegárom tarde. Há um dado que temos que ter claro: aos fatores que assinalo na resposta anterior há que acrescentar no caso do Estado espanhol a profunda crise do que eles chamam "o modelo territorial". Essa crise de esgotamento do modelo autonómico já nom afeta só Euskal Herria, transladou-se também para a Catalunha depois da sentença do Constitucional. E daí, com a soma dos efeitos da crise económica quanto à solvência das administraçons públicas, ao próprio modelo constitucional. Hoje o Estado sabe que umha segunda transiçom é já inevitável. É aí (na preparaçom do terreno) onde devemos por exemplo localizar o documento patrocinado pela fundaçom Everis e elaborado por 100 agentes económicos do máximo nível, ou a inclusom -nem inocente nem casual- de umha pergunta relativa à necessidade de reforma da Constituiçom no último questionário do CIS. Além disso, é evidente que para encarar esse processo o Estado procura um cenário onde a esquerda abertzale esteja, se nom aniquilada, sim ao menos neutralizada politicamente, fora das instituiçons. Esse é o objetivo da repressom. Por isso a nossa evoluçom os apanhou com o passo trocado por completo.

Arnaldo Otegi é umha referência política, interlocutor principal, líder, símbolo, inclusive um número (utilizado na campanha que reclama a sua libertaçom). Talvez por isso essa obsessom com a sua pessoa que parecia refletir-se, por exemplo, no último julgamento [ato de Anoeta]?

Sobre a obsessom «pessoal» contra mim como interlocutor principal ou referente da esquerda abertzale, entendo que tem o objetivo complementar de mostrar e transmitir à sociedade basca umha espécie de efeito exemplarizante. Em qualquer caso, nom gosto de falar em termos pessoais. Por isso, agora que se me atribui a mim grande parte do mérito na evoluçom da estratégia da esquerda abertzale, quero manifestar que esta só foi possível pelo compromisso e contribuiçom de umha geraçom substancialmente mais jovem que a minha, que demonstrou umha grande maturidade e responsabilidade. Por isso rendo homenagem pública a todos e todas, especialmente a Sonia Jacinto, Arkaitz Rodríguez, Ollem Zabaleta... Eles tenhem muito maior mérito na mudança operada na esquerda abertzale.

A que se refere quando fala da inevitabilidade de umha segunda transiçom?

Consta-me que em núcleos políticos, económicos, mediáticos... do Estado tem-se hoje perfeita consciência da necessidade de revisom do modelo derivado da Constituiçom de 78.

Essa revisom e o debate sobre os conteúdos da mesma vai produzir-se, porque o modelo atual mete água por todos os lados. Mediante essa revisom vam querer-se atingir principalmente dous objetivos: neutralizar de forma definitiva os problemas "nacionais" no modelo "territorial" e aproveitar a crise para desmantelar o já de por si raquítico Estado do Bem-estar. Este é, nem mais nem menos, o desafio que enfrentamos.

No contexto deste debate pendente e inevitável, atrevo-me a aventurar quais vam ser as três grandes linhas de proposta que estarám sobre a mesa: terá umha posiçom que tratará de impedir o próprio debate porque entenderá que sua só abertura conduziria inexoravelmente à quebra de "Espanha" como projeto viável; é o pensamento de Ortega e Gasset actualizado. Os defensores de tal posiçom estarám dispostos só ao debate parcial sobre temas que nom consideram estruturais (maquilhagem, em definitivo).

A segunda posiçom proporá com absoluta clareza que a reforma deve de ter umha natureza claramente regressiva e reacionária, na qual proporám como objetivo, por exemplo, a recuperaçom por parte do Estado de competências cedidas às diferentes autonomias (educaçom...), além de umha modificaçom da lei eleitoral que garanta que os chamados "nacionalistas" nom se convertam afinal nos árbitros da gobernabilidade do Estado. O mecanismo para levar avante este tipo de reforma seria através de um grande Pacto de Estado entre o PP e o PSOE.

E em terceiro lugar vamos situar-nos os que propomos que a segunda transiçom deve dar passagem a um palco que aceite a plurinacionalidade do Estado e o direito a decidir livremente seu futuro de povos como o basco, catalám, galego... Este é o contexto para o que nos preparamos mediante a readequaçom da nossa estratégia.

Vai a esquerda abertzale pelo caminho que você esperava?

Sem dúvida vejo situada a esquerda abertzale onde esperava. Sinto-me muito orgulhoso do exercício de autocrítica tam honesto que realizamos. Acho que umha das chaves para incidirmos nos conteúdos dessa segunda transiçom pendente é a nova aposta estratégica realizada pela esquerda abertzale.

Qual é a fortaleza deste processo?

A fortaleza do processo (sabendo que teremos que superar umha feroz oposiçom ao mesmo) reside na nossa capacidade de antecipaçom política e na longa experiência de organizaçom e luita que demonstrou a nossa base militante.

E quais som as suas etapas? Que acontecimentos deveriam marcar seu imediato ou futuro desenvolvimento?

Entendo que o primeiro grande objetivo do processo em andamento (como está recolhido no Acordo de Gernika) é gerar as condiçons suficientes para que possa se desenvolver e atingir assim estádios de desenvolvimento superiores no futuro. Em qualquer caso, os acontecimentos que podem e deveriam se esperar, dito de forma resumida, deveriam ser: a assunçom por parte da ETA dos conteúdos da Declaraçom de Bruxelas e do Acordo de Gernika, a legalizaçom do projeto da esquerda abertzale e a desactivaçom das medidas de exceçom que se aplicam ao Coletivo de Presos e ao conjunto da esquerda abertzale. Isso sim, este palco de normalizaçom política deve ser impulsionado pela sociedade basca com a mobilizaçom e interpelaçom ao Governo por suas políticas atuais. Sem ativar a soma de forças, os compromissos e a luita democrática nom conseguiremos nosso objetivo de conquistarmos um novo cenário político.

Acha que tivo maiores ou menores dúvidas ou resistências internas que as previsíveis? E as externas, som também as previsíveis?

Quando decidimos abrir este processo de debate, em 2008, éramos muito conscientes de que na medida em que afetava questons essenciais da nossa estratégia necessariamente ia gerar resistências em algum setor da nossa ampla base social. O estranho (e preocupante) teria sido o contrário. Em qualquer caso, decidimos fazê-lo a nível nacional de Euskal Herria e sem dar margem algumha nem à ambiguidade nem muito menos à autocomplacência. E hoje a nossa base social está absolutamente coesa relativamente à nova estratégia. Isso é o importante.

Em definitivo, acho sinceramente que as resistências internas foram as que prevíamos ou inclusive me atreveria a dizer que menores.

Durante toda sua história, a esquerda abertzale tem tido umha visom muito concreta da luita armada. Mudou esta ou, como fixou a ETA na sua V Assembleia, "cada tempo exige umhas formas organizativas e de luita específicas"?

O debate sobre objetivos e instrumentos de luita é um debate inerente a todas as organizaçons verdadeiramente revolucionárias. As organizaçons revolucionárias devem-se ao povo e estám a seu serviço. Essa declaraçom da V Assembleia identifica-se plenamente com estas reflexons. nom conheci nunca militantes mais autocríticos ou críticos com a luita armada -por exemplo em termos de seu conveniência, de sua contribuiçom real para o processo e inclusive em termos éticos- que os próprios militantes da ETA. Pode acrededitar: nunca! Portanto, voltamos a reiterá-lo: os reptos do processo de libertaçom nacional e social hoje exigem, como bem recolhe a conferência ''Zutik Euskal Herria'', novos instrumentos organizativos. Por dizê-lo claramente: os tempos atuais exigem a superaçom definitiva de um ciclo político-militar e sua substituiçom por umha estratégia de organizaçom, acumulaçom e luita exclusivamente democrática. Como dizia o título do artigo de opiniom que escrevemos no cárcere de Estremera os cinco detidos: nova fase, nova estratégia, novos instrumentos e mesmos objetivos. Essa é a aposta já em andamento.

Fai falta umha sigla legal? A que preço? Como avalia a última iniciativa neste sentido apresentada em Iruñea a 27 de novembro, com cerca de 300 significados militantes anunciando um documento de bases para a criaçom de um novo projeto político e organizativo? O anúncio de que esse novo projeto político da esquerda abertzale cumprirá com a Lei de Partidos suscitou nom poucas reaçons...

Apoio total e incondicionalmente a iniciativa adotada para a criaçom de umha nova formaçom política feita pública em Iruñea, e felicito publicamente seus promotores.

Sobre a necessidade de dispor ou nom de umha sigla legal, eu formularia essa pergunta nestes termos: para fazer frente com eficácia aos desafios que referi, precisamos estar em igualdade de condiçons que o resto das formaçons políticas? Precisamos dotar-nos de instrumentos organizativos que nos permitam enquadrar os setores mais conscientizados e combativos do povo trabalhador? Precisamos estar presentes na luita institucional? E no desenvolvimento da luita de massas?... E a resposta é sim, sem dúvida.

Quanto ao preço, vou dizer-lhe duas coisas: o preço por exemplo de aceitar as condiçons da Lei de Partidos é insignificante se comparado com o preço que pagaria nosso povo se nom estivermos nas melhores condiçons para avançar no processo de libertaçom nacional. E em segundo lugar, há um único preço que nom pagaríamos nunca: renunciar à luita por conquistar umha Euskal Herria independente e socialista.

Percebe ansiedade pela próxima cita eleitoral? E, se a percebe, acha que essa ansiedade pode afetar a aposta -em longo prazo- da esquerda abertzale? Como se pode ou se deveria gerir essa ansiedade? Ou, dito de outro modo, que importáncia tem o tempo (tempo real, tempo político)?

Percebo em primeiro lugar umha crescente ansiedade nos setores unionistas porque sabem que com a nossa mera presença eleitoral toda a realidade virtual que trataram de construir em torno da "mudança" se derrubaria como um castelo de cartas. Além disso, nossa presença tanto nas municipais como nas forais deixaria em evidência a autêntica falsidade das soflamas em torno da nossa suposta debilidade ou inclusive de nossa derrota política. É triste dizê-lo, mas alguns situam a permanência da vulneraçom de direitos básicos em relaçom a seus cálculos eleitorais. A sociedade deve dar-se conta da falsidade e cinismo de muitos discursos, de muitos líderes políticos que exigem condenaçons à esquerda abertzale quando nom foram ainda capazes de condenar o franquismo.

Dito isto, também percebo umha verdadeira ansiedade na nossa base social fruto de anos de restriçons e limitaçons a nosso direito à participaçom eleitoral. Bem, o primeiro que quero transmitir é que é fundamental a nossa presença nas eleiçons de maio, nom somente para superar umha realidade de segregaçom político-ideológica que manipula a vontade da sociedade basca e o seu quadro institucional, como fundamentalmente para abordar a irreversibilidade do processo democrático com o conjunto de agentes políticos e sociais.

E em segundo lugar, como já se transmitiu publicamente, a nossa aposta vai além destas eleiçons e tem umha componente estratégico.

Porque era necessário o acordo estratégico com EA?

Em primeiro lugar, deveríamos distinguir com clareza o nosso próprio projeto político por um lado e nossa política de alianças necessária para fazer avançar o processo. Se quigermos construir um Estado, nom devemos perder a perspectiva que isso só será possível, em primeiro lugar, tendo claro que o motor ou a contradiçom principal que vertebra o processo de libertaçom é a que se dá entre Euskal Herria por um lado e os estados espanhol e francês por outro. E, em segundo lugar, que precisamos de nos afastar permanentemente dos interesses partidários, da politicagem, para desenvolver desde agora umha autêntica e genuína política de Estado. É no quadro destas consideraçons onde há que gerir as contradiçons que sem dúvida som inerentes a todo processo político. As contradiçons de caráter de classe, ou outras em nossa política de alianças, devem ser geridas e resolvidas com inteligência, sem que os ramos nos impeça em nengum caso ver o bosque.

A atual situaçom de crise exigirá oferecer alternativas concretas, tenhem-nas?

O objetivo que persegue a atual ofensiva capitaneada pela oligarquía financeira é evidente: desmantelar o Estado do Bem-estar ou, dito de outra maneira, destruir todas e a cada umha das conquistas atingidas nas últimas décadas pelo movimento operário.

O cenário que nos propom o capitalismo nom oferece dúvidas: que as seguintes geraçons vivam pior que as anteriores, com mais medo e com menos direitos. Essa é sua alternativa. Sendo isto assim e o unindo em parte com a pergunta anterior, proporia duas reflexons: defender hoje as conquistas operárias, populares, materializadas no que se tem vindo a chamar o Estado do Bem-estar é um objetivo revolucionário e antioligárquico. E dois: a defesa de tais conquistas precisa de propiciar umha aliança ampla de setores que vam desde o socialismo à social-democracia, atingindo comunistas, setores cristaos de base... Por conseguinte, também o bloco independentista deve ser o quadro para essa aliança.

No acordo recolhe-se também a relaçom preferente com a maioria sindical, vê a ELA disposta a se implicar no caminho para a independência?

Tanto ELA e LAB como o conjunto da maioria sindical devem fazer desde seu próprio ámbito umha contribuiçom ao fortalecimento de umha autêntica alternativa nacional e social.

Dito isto, observo com satisfaçom a presença do sindicato ELA em numerosas mobilizaçons, ainda que considere que a sua falta de adesom ao Acordo de Gernika nom é coerente quando as condiçons de meio que sempre exigiu estám dadas. Em qualquer caso, estou convencido de que ELA também irá adotando progressivamente novos e decididos compromissos. Estou convencido disso.

Este PNV é parceiro de processo ou obstáculo?

O processo que pusemos em marcha deve servir também para umha definitiva clarificaçom estratégica em Euskal Herria. Os que aspiramos a criar um Estado fazemos umha aposta de soma. O senhor Urkullu mente quando diz que nom foi convidado a conformar essa aliança, ou ao Acordo de Gernika: se o PNV nom está é porque decidiu nom estar. E decidiu isso porque acha que ainda tem margem suficiente para desenvolver umha política "soberanista de romagem" por um lado enquanto mantém umha férrea aliança com o PSOE (e se se desse o caso com o PP), se fazendo corresponsável da brutal política de cortes sociais do Governo espanhol ou vascongado, e atuando como se fosse um porta-voz do Ministério de Interior quanto às avaliaçons sobre as posiçons da esquerda abertzale. Hoje, o EBB decidiu voltar a procuraro acordo, a colaboraçom com o Estado na confrontaçom democrática que se abriu em torno dos conteúdos da segunda transiçom.

Esse cenário é o atual, mas as posiçons nom som imutáveis, a sua evoluçom vai depender da fortaleza dos independentistas. A partir daí o prognóstico é claro: manteremos espaços de colaboraçom às vezes e de confrontaçom outras. Por isso, a esquerda abertzale sempre estará disposto a espaços de colaboraçom e encontro para construir entre todos um palco de reconhecimento- alicerce nacional e respeito à vontade popular democrática.

Entre outras coisas, diz Zapatero que a evoluçom da esquerda abertzale é o fruto positivo da estratégia que o Governo espanhol levou no anterior processo. Que lhe responde?

Já expliquei onde devemos encontrar as razons para a mudança da nossa estratégia, portanto nom compartilho essa afirmaçom salvo se a entendêssemos no sentido de que efetivamente figemos umha autêntica e profunda autocrítica em torno da posiçom que mantivemos no processo de diálogo anterior, onde cometemos gravíssimos erros, dos quais extraímos as pertinentes conseqüências e que nom voltaremos a cometer nunca mais.

Que papel deveria ter o Governo espanhol no novo processo? Como pode conseguir a esquerda abertzale ou a sociedade basca que também o Estado espanhol mude de ciclo?

O Estado, tenhamo-lo claro, nom tem nengum interesse em mudar de ciclo porque entende que no atual ele ganha e os bascos perdemos. Quando mudará o Estado de ciclo? Quando através de nossa luta, acumulaçom de forças e através da confrontaçom democrática chegue à conclusom de que nom o fazer lhe traz mais custos que benefícios.

Porque é importante o apoio exterior? Porque acha que os assinantes e impulsionadores da Declaraçom de Bruxelas estám sendo em verdadeiro modo desprezados tanto em Madrid como por alguns partidos em Euskal Herria?

A presença de observadores internacionais permite-nos transladar a confrontaçom de ideias e propostas a um cenário e a um espaço onde nossas posiçons som infinitamente mais poderosas do que as do Estado, simplesmente porque além de razoáveis som escrupulosamente democráticas. Portanto, o desprezo que manifestam alguns setores com respeito à sua presença é diretamente proporcional à sua debilidade política.

Como está sendo atualmente sua vida em prisom relativamente a outras etapas?

Fazendo umha soma dos meus anos em prisom acho que comecei já a consumir o nono, portanto desde Herrera da Mancha até aqui vivi praticamente todas as fases que viveu o Coletivo ao longo dos seus anos de existência. Agora, e no cárcere de Logronho, sou o único preso político que "vive" no seu módulo.

Em qualquer caso, além de muito desporto e muita leitura, trato sempre de seguir o conselho do líder sul-africano Nelson Mandela: continuar a formar-nos para quando recuperarmos a liberdade.

Qual acha que é o papel dos presos políticos neste processo democrático?

O Coletivo de Presos Políticos é um agente comprometido com o processo democrático. Os agentes políticos, sociais, sindicais deveriam abrir canais oficiais de comunicaçom com sua interlocuçom oficial. Isso permitiria, desde meu ponto de vista, atingir acordos que possibilitariam materializar nossos compromissos. É umha sugestom que lhes desejo transladar.

Como e quando se deveria abordar a questom dos presos no processo?

A liberdade do conjunto dos presos políticos deve ser abordada no início do processo de diálogo e negociaçom, como ámbito autônomo de negociaçom entre ETA e o Estado, sem esperar a acordos políticos de caráter resolutivo.

Que opina dos movimentos de presos que está a fazer o Ministério de Interior?

Todos os "movimentos" que o Ministério de Interior desenvolve através da aplicaçom do que se denomina como "política penitenciária" tiveram e têm um só objetivo: que a esquerda abertzale chegasse ou chegue a esta conjuntura histórica ou neutralizada, ou dividida, ou o mais debilitada possível, simplesmente porque entendiam que essa era a única garantia de que nom podamos condicionar de maneira eficaz seu projeto de segunda transiçom.

Que se pode fazer realmente e de modo eficaz para frear a repressom, os macrojulgamentos...?

Repito umha resposta que já dei a umha pergunta anterior: o Estado deixará de aplicar nos seus atuais parámetros a repressom quando em termos políticos, sociais e internacionais entenda que lhe gerar mais custos que benefícios.

Que pensa a cada vez que à esquerda abertzale se lhe exige umha condenaçom da ETA -inclusive agora, em pleno cessamento de suas atividades armadas- e mesmo se lhe pom como exemplo líderes como Nelson Mandela ou Gerry Adams?

Penso que também a Mandela ou a Adams lhes exigiam parecidas condiçons nos seus respectivos processos.

Insisto, ao Estado, aos unionistas, aos que vivem do conflito (securocratas) nom lhes interessa a mudança de ciclo que propugemos, singelamente porque som plenamente conscientes de que o mesmo trará como conseqüência a necessidade de que eles tenham que mudar o seu, e sabem que num ciclo de exclusiva confrontaçom democrática nós somos mais fortes que eles.

Em resumo, é você otimista sobre a capacidade da esquerda abertzale para provocar umha viragem definitiva do cenário?

Apesar do que já disse, eu me considero um otimista bem informado. Este otimismo nom significa nom ser consciente das enormes dificuldades e obstáculos que vamos ter que superar; por isso quero alertar os setores que com honestidade e boa vontade seguem achando que tal ou qual compromisso que adote a ETA (por exemplo com a Declaraçom de Bruxelas, coisa que nom duvido vai acontecer) vai trazer automaticamente umha modificaçom substancial da estratégia do Estado, que tal equaçom nom será linear. Ainda que seja evidente que o Estado terá que assumir umha gestom política para construir um cenário de soluçons definitivas. O processo de soluçons é um processo que deve ser propriedade de todos, e todos temos que coparticipar no mesmo. Isso sim, será a sociedade basca o único garante e protagonista real de poder levar o mesmo a bom termo.

Volto a repetir, sem organizaçom, soma e luita de confrontaçom democrática nom atingiremos nem o mais razoável de nossos objetivos.

Que mensagem quer transladar da sua cela da prisom de Logronho à sociedade?

Quero em primeiro lugar, e tendo em conta que nos encontramos em datas natalícias, mandar um forte abraço a todos os familiares de presos que as voltaram a celebrar em ausência dos seus seres queridos, alguns viajando milhares de quilómetros. Que saibam que os nossos coraçons e anseios estám e viajam com eles.

Aos militantes da esquerda abertzale, aos familiares dos últimos detidos, aos nossos jovens, a desempregados e desempregadas, à família euskaldun que acaba de perder Xabier Lete, a todos umha mensagem que recolhi da campanha eleitoral dos colegas da FMLN de El Salvador: acima de todo «sorria, vamos luitar».

Irabaziko dugu!


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