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111211_leo1Galiza - Diário Liberdade - [Antom Papaqueijos para o Diário Liberdade] Leva já uns quantos anos nos palcos, se nom o viste nas companhias teatrais Factoria ou Berrobambám, talvez o tenhas visto a zoupar numha guitarra que nunca fica com as seis cordas após um concerto.


Ou se nom, é que o viste de porta-voz do independentismo galego nalgum comício. Ou se calhar é que tens doze anos e resulta que é o teu professor de literatura. Leonardo Fernandes Campos nom perde o tempo: entre o lapso euclidiano que o leva de Coristanco -a sua Ítaca particular- até a zona franca de Vigo dá-lhe tempo para botar um par de repichocas-punk, gravar um programa de Komunikando.tv ou escrever um poemário. Ou todo isso junto mas vestido de folclórica, com certeza. Agora mesmo tem, no mínimo, quatro propostas musicais diferentes, amanhá se calhar terá três ou seis.

DL - Que tal, Leo, todo bem?

Leo - Pois por aqui, já vês, imos-lhe indo, vamos tirando, que ainda menos mal, que nom digo eu que, assim a todo, ora bem, nom obstante, pois ló, entom, coma quem que, eu que sei, é-che o que há, it's ok.

DL - Começa o exame! O senhor me defina:

Mata Má: Coristanco.

Diglossia: Neocolonialismo.

Punk: Punk és tu.

Pseudo-carolíngio: tardocananeo.

Cago em Cristo: Sim!

DL - Quando nasce o Leo Arremecaghoná e por quê?

Leo - O mal humor do Leo, lá polos anos 1994-1995, tentando fazer um espetáculo de canta-autor que nom me pudesse agradecer nengum poder político. O primeiro tema, antes. O espetáculo propriamente dito nos anos 1997 e 1998 de convidado na turné galega de Albert Pla.

111211_leo2DL - Punk... por boca açom? Provocaçom? por vocaçom?

Leo - É, por todo isso. É falar por nom ficar calado, quero dizer, porque ninguém esteja calado/a. Colheitar umha reaçom sexa do signo que for. Que aconteça algumha cousa.

DL - Ator? Filólogo? Poeta? Que se passa, os que somos probes temos que saber fazer de todo?

Leo - (Risos) O primeiro é ser pessoa, o resto som di-versons dessa pessoa indivisível. E sim, temos que multiplicar-nos.

DL - Presta ser um solista? É mais fácil que tocar num grupo?

Leo - Vai-mo perguntar o baixista de Ondas Martenot... Antes preferim o formato solo porque me parecia que andava mais solto, que podia fazer qualquer cousa. Agora descobrim que há gente com a que, tocando, podo fazer qualquer cousa. Como solista levas mais o peso de entrada, mas penso que todos e todas devemos sair ao palco sempre a levar todo o peso, como se tocássemos sozinhos e sozinhas.

DL - Quem caralho é o Henriquinho?

Leo - Um betinho de Vigo amigo vosso, se quigerdes. É o reverso do Leo i Arremecághona, seu irmao gémeo, que estudou no colégio privado. Está influído fifty-fifty por Iván Ferreiro e Galícia Bilingüe. Um heterónimo plataforma que me permite dar saída a melodias mais pop que inexplicável e massivamente me começárom a assaltar quando toco guitarra de uns anos para aqui.

DL - Labregos do Tempo dos Sputniks, Das Kapital, Ondas Martenot... A cabeça nom dá parado? Conta-nos um pouquinho de que vam esses negócios.

Leo - Pois nos Sputniks estou com os meus dous irmaos de luita, de camaradagem, da vida, o Vero da Estrada e o Garcia de Ordes. É um negócio meio orquestra revolucionária mínima cuja primeira intençom era recuperar cantigas de luita em galego, muitas delas com letra de Celso Emílio, o nosso poeta de referência, e estilos musicais de barricada: punk, rap, canta-autores/as...

Das Kapital nasceu um dia que Dáni Salgado -outro irmao- nos viu ao Marcos Paino e a mim a homenagear Rádio Oceano na Nasa. Ofereceu-se a escrever as letras. Agora toca o kaossilator e o adat. Agora somos sete: Chou e David Ageitos às guitarras e Tomás Ageitos ao som, com Mánu Paino de vez em quando na trombeta, e com mentes de continuar a crescer. Somos umha cousa assim como um grupo-manifa. Fazemos música eletrónica sob a palavra de ordem Socialismo ou Barbárie.

Ondas Martenot ajuntamo-nos, como sabes, para homenagear Lois Pereiro através dalgumhas das músicas de que ele gostava. Estamos eu, ti, Fram Amil, Cristina Asenjo e José Manuel Pereiro ocasionalmente e na posse do conceito. Foi a primeira vez que cantei um concerto inteiro com um grupo inteiro, com baixista e todo!

DL - Política... Inevitável falar de política. Como vês a cousa neste (im)País? Que é o que temos que fazer?

Leo - Resistir, convencer e revoltar-nos. Para mim a soluçom tem que vir de baixo e à esquerda, por muito tempo que levar. A humanidade leva umha faísca de tempo tentando emancipar-se e quase nunca o deu feito. Estamos em guerra mas há que refletir. Havemos conseguir aquilo de que sejamos capazes. Quanto menos me ençoufe na merda, quanto mais consiga nom envolver-me no sistema, mais livre serei. Minha avó dizia: "Eu quero-me melhor solta". Eu também.

DL - Fala-nos um pouquinho de como evoluiu Vigo nos últimos 20 anos? És otimista?

Leo - Gosto de Vigo com gheada. É caótico mas é real. Fala-se muito mais galego que o que se bota de ver, porque o nosso é um problema de visibilidade. Vigo nom é Vigo com gheada. Vigo é o decorado de cartom pedra das quatro ruas de nariz em pé que os almofadinhas pretendem fazer passar por Vigho. Mas Vigho há que vê-lo no Google Maps. Cenital. As ruas com nome de pássaro presas polas ruas com nome de prócer. Se achegas a imagem do satélite podes ver os cortelhos das galinhas por entre os prédios. Amo com xenreira a minha cidade. E também o meu País.

111211_leo3DL - Qual o melhor lugar da Galiza para morar? E para beber? Qual o pior lugar da Galiza?

Leo - Para morar acho que penso que é Compostela, onde de facto moro. Também gostei de morar em muitos outros lugares: Vigo, Laracha, Caiom, Mugia, Cangas, Moanha...

Para beber, para além de Compostela, Lugo e Ourense (levam aparelhado o comer). Som duas cidades legais para ir de farra.

O pior lugar da Galiza é bem pequeno, o nosso Vaticano: o Paço de Sam Caetano. Agora alargárom-no com a Cidade da Cultura. Figérom-na porque se supom que da outra, de Compostela, querem fazer a Cidade da Incultura. É o nosso gulag cultural. Querem fechar toda a cultura de Compostela e do (Im)País ali. Alguns e algumhas já fôrom polo seu próprio pé.

Já sei que nom é legal mas fai-me um ránking de:

Leo - Tés razom, é chato de caralho!

-5 poetas: Ferrim, Celso Emílio Ferreiro, Rompente, Ronseltz e Lois Pereiro.

-4 bandas: Os Resentidos, Sex Pistols, Velvet Underground, The Stooges e a Psicofónica de Conxo.

-3 solistas: Woody Guthrie, Bob Dylan, Jonathan Richman, Albert Pla, Suso Vaamonde e MinieMero.

-2 políticos: Bakúnine e José Manuel Beiras.

DL - És professor de ensino médio, e tens trabalhado por toda a Galiza. Como vês as novas geraçons? Vamos como os caranguejos, recuando? Ainda há esperança?

Leo - Sempre há esperança. A minha experiência é pequena, e em todo o caso particular. Tenho muita esperança posta nos cativos e cativas porque ainda nom lhe devem nada a ninguém. Nom estám cheios de merda. Podem e devem escolher entre viver de pé ou morrer de nojo de joelhos.

DL - Que é isso de Há cu? Quem tem cu tem medo?

Leo - É. E enquanto houver cu há esperança. É um livro de haikus que figem lá atrás e que lhe serviu de inspiraçom ao Leo i Arremecághona para o seu terceiro disco, que vai sair antes que o segundo.

DL - De que vai isso de komunikando.tv? Como é a rodagem de um episódio?

Leo - É o braço audiovisual de Komunikando.net. Na altura, um programa de sketches que escreve Denis Mutante e dirige Marcos Paino. Umha forma de fazer tele e humor em galego sem um cam e sem lhe dever nada a ninguém. Dade-lhe umhas vistas.

111211_leo4DL - Que tem pensado fazer o Leo em 2045? Continuar a tocar?

Leo - Se continuar vivo! (título do 2.º disco do Arremecághona), é.

DL - A tua trilha sonora para:

-A declaraçom da independência da Galiza: Um orgasmo.

-O enterro de Manuel Fraga: Abaixo a Dentadura, de Bibiano.

-O espetamento do próximo superpetroleiro contra a Corunha: La Vida Sigue Igual, de Julio Iglesias.

-Ir dormir: Anem al llit?, de Albert Pla.

-Solicitar umha hipoteca ao Banco Pastor: Jailhouse Rock, de Elvis.

-Olimpíadas 2028 em Vigo: Vigo '92 dos Resentidos.

DL - Galiza é um país que trata bem os seus artistas?

Leo - O Leo - Nengum país, nem hoje nem nunca, tratou bem os/as verdadeiros/as artistas.



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