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021111_ses1Galiza - Diário Liberdade - [Antom Papaqueijos para o Diário Liberdade] Ficava claro que este país precisava de algo assim que o figesse rebulir e pôr em pé em só questom de segundos.


Maria Xosé, Sés, fai arder o palco em cada atuaçom. Energia, simpatia, umha voz potente e característica, ideias próprias e personalidade som os parámetros que definem a equaçom rockanrroleira desta rapariga.

Umha mulher todo-o-terreno que em poucos anos vai ser umha referência básica do nosso rock. Fagam apostas a que isto vai ser assim!

Antom Papaqueijos: De Maria a Chama-lhe Xis e de Chama-lhe Xis a Sés. Como foi a metamorfose?

Sés: É que Maria Xosé era Maria Xosé em Chama-lhe Xis e foi Sés desde que véu ao mundo. Eu fum igual sempre, mas Chama-lhe Xis era um grupo e Sés sou eu. Metamorfose individual nom houvo, polo menos no plano musical, no pessoal houvo a lógica, levando em conta a responsabilidade que implicou a mudança.

Pandeireteira rockeira ou vice-versa?

Pandeireteira e rockeira. Eu sou cantareira a muita honra e com muito orgulho, mas sempre escuitei rock & roll. Tirava um disco de Rumbadeira do leitor e botava um de Janis Joplin.

Se calhar a nível técnico nom há nengumha retroalimentaçom, mas sim a nível emocional, a força e o caráter ou a força de caráter. Eu considero-me pandeireteira ao jeito das pandeireteiras velhas, que tenhem a sua vida e os seus trabalhos, mas que nada lhes diverte mais que botar umha moinheira, cantá-la ou bailá-la.

Nom sou nem nunca fum umha rapariga que vivesse a sua cultura no palco ou para o palco. O cenário a mim vinha-me meio imposto pola educaçom das escolas tradicionais. Porém, sempre cantei a todas as horas, sempre que me fosse possível, ainda hoje. E o que che quero dizer com o ser ao jeito de antes é que aquelas mulheres eram e som mulheres luitadoras, mulheres 4x4, que botavam o dia bourando e que tinham esse génio que as movia e as fazia cantar e berrar. Isso é atitude rockeira, meu! Isso sim é rock&roll!

Acabas de editar o disco novo Admirando a Condición, fala um pouco dele aos leitores e leitoras que ainda nom o ouvírom.

O disco é um disco bem feito, independentemente de mim. Foi gravado, misturado e masterizado nos estúdios Bruar da Corunha por Nico Bieites e Xavier Ferreiro, dous craques que me ensinárom um mundo de cousas sobre o que é gravar música -que nom é brincadeira nengumha-. Por seu turno, Marcos Martínez desenhou-no, maquetou-no e tirou-me as fotos (isso sim que é um mérito), assim foi que ficou bem bonito.

A banda que toca comigo também é um luxo. É quase um sonho, todos e todas profissionais impressionantes. Só por isto tem garantia de qualidade 'material', quer dizer, de qualidade técnica como para pagar os pouco mais e dez euros que custa. A qualidade mais abstrata, a artística, essa depende da valorizaçom individual, do gosto de cada quem.

Em Admirando a condición há um monte de músicas, músicas em plural. É um disco muito ecléctico que se mexe entre duas Américas e umha Galiza sempre presente de jeito imperante. O rock & roll e o mais blues tem gosto ianque e o latino sabe a umha América Latina que tivem nos ouvidos desde a infáncia. A Galiza está nas letras, na sorna, na insurgência e na irreverência, no jeito e no génio. Porque a Galiza está em mim, que me partem os dentes de poder dizer que sou umha mulher galega. Afinal é um disco de cantautora dentro dum formato musical tam elaborado como diverso.

Quem toca habitualmente contigo? É a mesma banda com parcerias?

O único parceiro até o momento foi Xavier Ferreiro. Gravou as percussons em Pepa e Non son fada, duas cançons do disco, e estivo na apresentaçom.

A banda foi sempre a mesma. Aixa Romai, Lucia Souto e Carla Álvarez nos coros, que som o meu orgulho, as mulheres que me acompanham no caminho e o que imprimem o ponto especial à banda, já que no País nom abundam os coros nas formaçons. Elas som incríveis, vocal e pessoalmente, e dam-lhe um jeitinho ao conjunto bem legal. Tito José Calvinho é o guitarrista. Um desses músicos que o achega todo: a qualidade técnica, a presença cénica, o estilo e a boa onda. Davi Paz é saxofonista, produtor musical e também fijo os arranjos comigo. Os outros companheiros da seçom de instrumentos de sopro som José Rodrigues, saxo, e Moncho Cês, trombeta; Miguel Queixas na bateria, Christian Leggiero no piano e Octávio Vargas no baixo. Todos e todas som ótimos e responsáveis dum som final que nom seria o mesmo sem eles e elas, sem o seu contributo e o seu bom gosto.

Preferes o acústico ou o formato big band?

Gosto de tocar e cantar mais que comer, seja como for.

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Com a banda o trabalho bota por fora. Sobe-che a adrenalina e sentes-te acompanhada.

Com Tito, a duas guitarras e voz, é umha música meio despida, sincera, crua e de muito perto, polo que favorece umha interaçom com o público que enriquece o espetáculo. A gente canta e até fala, dá muitas risadas, porque o Tito é muito engraçado e o bom humor está muito presente durante todo o concerto.

Há quem diz que gosta tanto do acústico como da banda ou mesmo mais. Eu acho que é diferente. Nom sei se ganha mas, por certo, nom perde. E também diria que do acústico adoro o facto de estar mais perto do público ao que canto, porque em acústico eu canto muito ao pessoal.

Muitos conhecemos-te a partir da oficina musical A Corunha Som, com Santiago Auserón. Como foi esse negócio? Foi ali quando decidiste pular ao alto do palco?

Eu nom o decidim, nem eu nem Gaitas, Miki e Arom, os meus companheiros. Decidírom-no por nós, porque começamos a ter um monte de concertos sem chamar a nengumha porta, o que foi umha sorte incrível e umha surpresa.

Santiago apoiou-nos muito, gostava do que fazíamos e no obradoiro tratou-se a música pola música, a arte pola arte, arte sem parvoíce dessa que tanto nojo me dá. Sempre digo, muito sinceramente, que Santiago me surpreendeu para bem. Ensinou-me muito. Isso de "Ei, que homem, é bestial", inteligente, simpático, bom, amável e afetivo conosco, aberto de mente, respeitoso com a língua. Um homem tremendamente culto, daí vem todo o resto. A cultura em sentido amplo estivo presente todo o tempo, polo que aprendemos de todo e a compartilhá-lo todo. Ele ajudáva-nos e fijo com que todas ajudassem a todas, fazíamos coros e ele também no-los fazia. Nom havia nariz em pé, nom havia jerarquias, havia convívio no senso estritamente horizontal e muito bom ambiente, dávamos muitas risadas. Adorei aquilo, e, aliás, figem amigos.

Como vês o rock galego de agora? Tem futuro?

Vejo-o bem; silenciado, abandonado e infra-valorizado, como toda a música galega, mas bem. Bem feito. Mais bem feito que nunca e mais fodido que nunca, por rock e por galego.

E digo por rock, porque o rock é música, a música é cultura e a cultura no neoliberalismo económico vale o mesmo que a merda. Ou igual vale menos, nom sei a como vai agora o carro de esterco!

Quanto ao futuro, o rock galego tem o mesmo futuro que o adjetivo galego, mas isso já nom sei quanto é em tempo real. Enquanto existir umha identidade de nosso, que eu concebo ligada indiscutivelmente à língua galega, existirá rock galego, porque sempre haverá a quem lhe ferver o cu.

Eu sempre digo que a Galiza é roqueira e folque. Folque pola importáncia social que continua a ter o substrato tradicional e rock porque sim, porque o rock é um estilo que combina muito bem com a nossa identidade, no urbano e no rural. Porque a Galiza nom é só rural mas sim é muito rural e disso temos que estar bem orgulhosas, que foi o povo camponês e marinheiro que nos fijo sobreviver apesar de aturar muitos vexames e muitas penúrias. O rock dá-se de caralho num galpom, for mais blues ou mais punk. As rockeiras e os rockeiros de verdade, de verdade da boa, nom tenhem tontaria nem comungam com a frescura. Quantos grupos saírom do rural que fôrom decisivos para a nossa história musical? Eis os Zënzar.

Eu fago rock e blues com gravata. Mas fago-cho à vontade tanto numha garagem como num galpom. E sei que isto nom ia incluído na pergunta, nom penses, mas a irreverência do rock e o falar do que che petar também há que predicá-lo com o exemplo. Há que cagar sempre um pouquinho por riba das imposiçons!

As raparigas sodes minoria no rock. O rock é um mundo de playboys malhados. Há soluçom?

O rock é umha música. Porém, tu bem sabes que é umha atitude também. A sociedade é machista e o patriarcado cria-nos para querer ser princesas. Educa-nos na submisom e na docilidade, por isso há mais mulheres que se achegam ao lirismo e às músicas que ensinam esse papel de feminidade que ao rock, ao blues ou ao punk. Estes últimos tenhem esse carácter forte e rebelde que se associa mais ao homem, à masculinidade. No entanto, é mentira que só esteja nele. E mais na Galiza, que nom há terra de mulheres luitadoras e de carácter como ela -eu tenho umha cançom que diz nom som fada nem princesa, nem dou se nom quero dar- e isso pode-o dizer toda aquela que quiger e se interessar por sair desse lixo de educaçom, porque a opressom existe, mas também existe a libertaçom, só há que luitar por ela, individual e coletivamente. E direi-che mais, para ser rockeira fai falta ser como umha é, sem complexos e com fortaleza de carácter, e para isso é mais necessário um cartom da biblioteca que umha camiseta dos Ramones.

Quanto à soluçom para sair da situaçom eu vejo-a muito clara: nomear-me a mim presidenta da I República Socialista Galega, nom é?

Janis Joplin ou Andrés do Barro?

Janis Joplin. Andres rules e tal, mas Janis forever. O ideal seria um híbrido, a Janis cantando Sam Antom acompanhada da Big Holding Company. Aí sim ia dançar até o apontador!

Janis ensinou-me que esse nervo e essa visceralidade, de que eu me envergonhava, podiam pegar muito na alma do povo. O seu génio pegou na minha e nom seria quem som se os seus vinis nom caíssem na minha mao de rapariga.

Janis era garra, era descaro e força e voz e berros e ritmo e alma e blues. E fai-me chorar num momento e, ao momento seguinte, descubro-me já berrando e cagando-me em todo. Era um absurdo no cenário, era única.

Quais as tuas bandas ou cantores a solo galegos favoritos?

Marful, Ugia Pedreira e Leo e arremecághona. E som-no dentro da música galega e internacional. Estám no top ten, porque tenhem qualidade, discurso e carisma para concorrerem com quem se lhes puger na frente. E isto nom o digo nem por que sejam galegas nem porque deixem de sê-lo, que eu nem sou chauvinista nem umha complexada.

Que precisa a indústria musical na Galiza para crescer e ultrapassar as nossas fronteiras?

Falta-nos base social que faga rendível umha indústria musical própria. Sem rendibilidade nom há desenvolvimento. Precisamos de consumidoras e consumidores, porque no capitalismo a promoçom cultural subsidiada nom está demasiado à ordem do dia. Os grupos som produtos e movem-se polas mesmas leis que o resto de produtos. É o mesmo Sés que o Cola-Cao. Se houver quem o compre vai ter quem o venda. Tu por isso nom sufras! A chave é como criar essa base social, como fazer que haja muita gente que almorce Sés.

021111_ses2Há umha cultura de concertos ao vivo na Galiza? Os festivais devem cobrar os ingressos?

Há, sim. Há cultura de concertos e de festivais, porque há cultura de festa, de verbena.

Quanto ao de cobrar o bilhete eu diria que sim. Numha sociedade ideal nom, mas na que temos sim. Seriam melhores, haveria melhores bandas, potenciaria-se a música local e a sua diversidade e a gente valorizaria mais todo em geral, porque olha só todos os imbecis que só valorizam o que lhes cobram.

Que é o melhor e o pior de ser galega ao ser música?

Ser galega nom tem nada pior. Adoro o blues e o rock e a música de canta-autor, e som mulher e galega. Pertenço a dous coletivos oprimidos, silenciados, discriminados e complexados. Que mais se pode pedir para ter alma de blues, carragem de rock e discurso de canta-autora?! Eu nascim para isto, meu!

A despeito de ser mulher -anúncios de pensos higiénicos de lado- e ainda por cima galega é bestial em verso alexandrino. Nom o troco nem tola.

Como é o ambiente cultural, musical e juvenil da Corunha de 2011?

É ruim. Mas eu nom acredito em localismos a este respeito. A devaluaçom cultural e o empobrecimento social no plano imaterial é um problema universal. O triunfo de políticas que perpetuam e agudizam a superficialidade e a ignoráncia é um problema do planeta Terra, nom da Corunha.

Qual o vosso melhor concerto? E o pior?

O melhor ainda nom o dei. O pior espero que fosse o primeiro porque se houver um pior que esse nom duro muito, nom na música, senom viva! Eu acho que me apedrejariam, e com razom.

Ganhas o Euro-milhom e para o festejar organizas um concertinho. A quem convidarias a tocar?

Como suponho que tenhem que estar vivos, a cousa reduz-se para caramba. E agora, aliás, já nem podo dizer Amy Winehouse nem Mercedes Sosa.

Levaria a Sabina, a Marful, a Leo e arremecághona, a Imelda May, a Elíades Ochoa, a Dylan, a M-clan, a The Creedence Clearwater revival, a Eliseo Parra... a um monte deles! E já nom che digo se com o Euro-milhom me tocasse umha "espírita". Ia ser umha festa rachada!

Copyright ou Copyleft?

Direi-che que é agora quando começo a informar-me disso. Admirando a condición está em copyright quase che digo que polas pressas e o desleixo, mas caso haja um outro nom creio que seja assim.

A cultura é um património coletivo, ainda que também acredite na importáncia da autoria. O mau é a péssima gestom dos direitos patrimoniais individuais, que levou quase a criminalizar o copyright em determinados setores. Se calhar, se fossem geridos doutro jeito nom seria assim. Eu nom quero que ninguém cobre ao dono dum bar por botar o meu CD, nem que ninguém tenha que pagar por versionar-me, mas sim cobraria a umha Televisom por usar um tema meu de sintonia, por todo o que isso implica, e isso digo-o com a boca muito aberta.

Se a política económica a esse respeito fosse social, outro galo cantaria. Eu nom cobro o mesmo por cantar num pub ou num centro social que para umha instituiçom ou empresa que esteja podre de dinheiro, se houvesse umha regulaçom das taxas dentro da gestom das autorias e umha vara de medir coerente seria umha cousa, mas ao estar como está sou do copyleft.

E obrigada pola entrevista!!



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