Agro-pachanga na chousa, esplendor festeiro e reivindicativo. Sacha na Horta é umha bomba de ritmo e retranca capitaneada por um trio vocal respaldadas por umha potente seçom de instrumentos de sopro, bateria, baixo, guitarra e piano. As letras do grupo som combativas mas com retranca, sorna e retrónica. Gostam da festa mas com sentidinho, sem perder o rumo e a consciência das cousas que nos arrodeiam. Mostramos a seguir esta entrevista acordada numha assembleia sacha-na-hortística e aprovada com o devido e democrático consenso entre regos de patacas e linhas de feijons.
Tendes muito por sachar, seica. Onde? Porquê?
Visto como vai o mundo e o país, temos; nom só nós, melhor seria dizer, há muito por sachar!
Cada umha de nós vai fazendo o que pode colaborando com diferentes iniciativas de trasformaçom social: no feminismo organizado, na defesa da língua, no ambiente ou no associacionismo em geral. Como banda, tentamos contribuir para que a língua galega tenha presença na música introduzindo essas temáticas nas nossas letras através de vozes e estilos diversos.
Para quando o esperado novo disco?
O primeiro disco Temos muito por sachar gravamo-lo há já um par de anos. Porém, nom foi até o ano passado que o publicamos, sob a licença creative commons, na Regueifa, à que estamos muito agradecidas por nos dar a possibilidade de o editar.
Este disco som cinco temas que pretendemos ampliar e editar em suporte físico a nom muito longo prazo. Mas nom se preocupar, mal esteja havemo-lo fazer saber!
Há algum grupo que se vos assemelhe? Como vos definis? Pachanga-Funk?
Temos a certeza de que nos parecemos a muitos grupos, mas agora mesmo nom nos vem nengum à cabeça.
Agro-pachanga poderia servir de etiqueta ampla em que fossem recolhidos diferentes gostos e estilos musicais que combinamos na banda e que pensamos que é um dos sinais de identidade do grupo. Somos Os Ecléticos, apanhamos e juntamos todo de que gostamos.
Contai para os nossos leitores e leitoras a história de Sacha na Horta
É fruto de umha arroutada das noites compostelanas. Há anos, quatro do Sacha na Horta inicial partilhavam andar em Compostela. Numha viagem a Barcelona algumhas entrárom de penetra no autocarro dos músicos que iam apresentar o CD A Per Loca. Na viagem conhecêrom o Manu Paino e o Martinho Mato, que entom tocavam na Matraca Perversa e em Galegoz, e criárom os alicerces do grupo. Depois somárom-se os demais.
De volta à Galiza, e quase como brincadeira -muito tivérom a ver também os efeitos do álcool- decidimo-nos apresentar ao A Polo Ghit. Concurso que, por acaso, ganhamos. A partir daí, consolidou-se o grupo, basicamente porque o prémio era tocar em Cuba e nom se podia deixar passar a oportunidade. Prestava-nos a história e vimos que o grupo tinha possibilidades e acordamos ir avante com o projeto.
Desde entom a banda foi variando. Fundamentalmente, porque as três cantantes fôrom embora polo mundo adiante e rapidamente procuramos novas vozes para continuar. Eis o Sacha de hoje, diferente mas com a mesma essência e com mais força do que nunca!
Quem fai as composiçons? De que falam as vossas letras? Barbeito por direito?
As composiçons, reflexo do grupo, pretendem ser fruto de decisons coletivas baseadas no consenso. Algumha aparece com umha proposta de letra ou de música e logo pomo-nos todas maos à obra para achegar o que mais nos presta. O mais complicado é arrancar, mas umha vez que há a semente o resto medra só.
As letras falam um pouco de todo. Pode-se resumir com as cousas que nos passam pola cabeça: desde as ressacas cafeteiras, a nossa visom do mundo, do conflito lingüístico, da crise ambiental... Sempre tentando dar um ponto de humor retranqueiro.
Qual o objetivo e o plano de dominaçom mundial de Sacha na Horta?
(Risos) Somos ruins e podemos ser piores! Temos grandes planos para espalhar a nossa cosmovisom polo planeta. No entanto, somos conscientes de que há que ir passo por passo e algum dos primeiros é continuar na linha de compromisso de fazer música na nossa língua, com mulheres à frente achegando a sua voz e a sua presença e introduzindo nas nossas letras as cousas que nos preocupam, que nos divertem. Todo isso com o desejo de criar espaços lúdicos e comunicativos em que partilhar estas inquietudes com a gente.
Gostais da Compostela de começos de século XXI? Entre boémios, padres, funcionários e estudantes, trabalha alguém?
Sim, filhinho, sim, ainda que a moitas nos custe. A verdade é que nengumha das componentes somos picheleiras de nascimento mas escolhemos a cidade para morar e trabalhar no que se puder. A capital, a pesar de tornar-se por momentos umha espécie de borbulha absorvente e cansativa tem umha mistura e um fervedouro de gentes diferentes que a convertem num lugar privilegiado para botar a andar iniciativas e projetos socioculturais ou políticos.
Agora unha perguntinha fácil: a problemática da música galega em 10 linhas!
Dói a cabeça só pensar nisso.
As problemáticas som já logo infinitas.
Por um lado, os escassos apoios à música galega, tanto por parte de políticas públicas e privadas. Faltam ferramentas para a difussom. O público nom conhece grupos do País fora de certos ambientes. Se houvesse mais difussom sairiam novos projetos musicais em galego, mais diversos, e seria umha boa forma de combater esse auto-ódio que se visualiza também na nossa música.
Por outra parte, há que ter em conta que o imperialismo cultural ao povo, e mais à juventude, mete-se-lhe polos olhos, através dos meios de comunicaçom grupos foráneos, quando ainda nom se conhecem os de aqui, e sempre música comercial: a que lhe interessa vender ao poder. Ao final parece que só há umha corrente musical mundial.
Pensais que dá para falar de um sistema musical galego do mesmo jeito que há um sistema literário galego?
Com certeza. O sistema musical galego existe e é amplo, antigo e muito rico. Outra cousa é que no momento atual nom conte com os apoios e a difussom institucional com o que conta por exemplo a literatura, que tampouco é que para esta última seja incrível. Pode dizer-se que há umhas raízes instaladas no contexto cultural galego, e que desde há muito tempo existem músicos na Galiza que se exprimem em galego, ora ao comporem letras ora ao se promoverem. Todos esses que durante anos decidírom que a sua arte seria no nosso idioma, têm duplo mérito, porque sacrificárom ter apoios, difussom, projeçom foránea... em troca de ser agentes sociais com um labor sociocultural. Todos esses conformam o Sistema Musical Galego.
Que tem a música galega que nom tem outra? Que lhe falta?
Para começar, tem Sacha Na Horta (risos).
Tem umha tradiçom musical antiqüíssima. A riqueza da nossa música popular é infinita, e nom me quero remontar ao cancioneiro medieval, que aí está! Ao escuitares um grupo que se exprime em língua galega polo geral podes compreender melhor o que dim, a língua é o reflexo dumha realidade concreta, da nossa realidade; non só entendes as palavras, comprendes de que falam.
Sacha na Horta aposta na unidade lingüística galego-portuguesa. Por quê?
Somos um grupo que fai musica em galego coma umha escolha coletiva consciente. A norma em que nos exprimimos varia segundo quem escrever. O reintegracionismo é a opçom de umha parte do grupo sem isto gerar nengum tipo de conflito. Outros expressam-se na norma ILG e outros podem denominar-se ácratas lingüísticos, nem respeitam a etimologia da palavra. Temos, de facto, um tema que fala sobre isto, o de Busco Amante Galego-falante! Tentamos unir grupúsculos. O que nos interessa é o uso da nossa língua, a perpetuaçom da oralidade do idioma!
Sois um dos poucos grupos musicais com presença de mulheres. Porque ainda sois minoria as raparigas nisto do rock? Somos os rockeiros uns machistas?
O machismo nom é património dos rockeiros, infelizmente, é a tónica imperante na nossa sociedade.
Existem muitos clichês. A música de mulheres galega costuma vincular-se ao tradicional ou à cançom galega de verbena. É preciso criar espaços próprios de mulheres também na música. Som horas de dar cabo da insegurança das mulheres que promovem os diferentes setores sociais do País, é o momento de lançar-se porque temos direito a gozar tanto como os homens. E que já paremos de comernos a cachola co tema de demostrar doblemente por non ser homes. Som horas de deixar ver que somos capazes.
De que grupos galegos gostais? E estrangeiros?
Vem-me à cabeça um que berrava algo como "vacas à rua, a luita continua" (risos). Com certeza, muitos da nossa geraçom, implicados: Ataque Escampe, DKTC, O Leo, Sonoro Maxim, Havelas Hainas, Som do Galpom... Só por dizer alguns.
De fora muitíssimos ho! nom vês que fora é muito grande.
O primeiro e último disco que comprastes fôrom?
O do primeiro grupo nom se pode dizer. Todas temos um passado obscuro que pode ir de Mecano às Spice Girls.
Os últimos, cada umha comprou o seu, que aqui nom fazemos vaquinha para estas cousas: desde um grupo de cantantes suecas ELLESKA, muito boas, aló na cima do mundo, até o último de Ataque Escampe que som vizinhos de Compostela!
O vosso concerto para lembrar para sempre é...
O primeiro. Apesar de todos os falhos e inseguranças porque criamos espaços comunicativos, apresentamo-nos e ligamos. Via-se aí o começo de algo interessante!
O vosso concerto para esquecer...
Non vamos dizer o lugar mas foi umha combinaçom perfeita de todo: falhos técnicos, cansaço, desorganizaçom e inclemências do tempo. Nom faltou de nada!
Com quem partilhais cenário com gosto?
Com ninguém que já somos muitas e boa falta nos fai o espaço. Somos um monte de gente! (risos)
Com muitos e diversos, seria sintoma de que os festivais apostam por músicas diversas. Ora bem, cuidado! É mais fácil dizer com quem nom compartilharias. Nom vamos dizer nomes, mas preferimos que certos personagens se limitem aos seus espaços. Parecemos da máfia, me ca!
Tendes os temas registados? Creative Commons? SGAE?
Registados sob licença Creative Commons.
A propriedade inteletual é um roubo, isso temo-lo claro. Da nossa perspectiva fazemos música, em primeiro lugar, como veículo de expressom. Para poder viver dela preferimos cobrar um caché digno que nos permita viver do trabalho na música para além de partilhá-lo ao vivo com o público.
Os intermediários dam-nos nojo! A SGAE fede. Nom é umha ferramenta que nós podamos usar. Do nosso trabalho nom se aproveita ninguém.