Faz um mês concederam-lhe o Prêmio Reina Sofía de Poesia e agora recebeu o doutorado honoris causa em Huelva (Andaluzia). Gosta de prêmios e distinções?
Não. Não gosto de nenhuma homenagem. Tenho que os suportar, embora também não sejam muitos. Quase não tive prêmio nunca. O Rainha Sofía é só o segundo prêmio internacional de poesia que tenho.
Para o Nobel foi várias vezes candidato.
Assim me disseram, sim.
Gostava?
Seria muito incómodo. Já tenho bastante popularidade, que me supõe muita incomodidade em minha vida. O Nobel seria insuportável. Só gostaria pelo dinheiro que dão, para o dar aos pobres.
Dizem que sua poesia é indefinível. O que acha?
Minha poesia é muito variada, porque escrevo sobre toda classe de temas. O estilo não varia mas os temas sim. Tenho muita poesia de juventude, de amor às raparigas, e depois, de amor a Deus, depois de uma conversão. Depois tenho poesia política, poesia revolucionária, também documental, histórica, crônica... De tudo. O que carateriza a minha poesia é que é tão variada como a prosa. Na prosa, pode ser escrito tudo. Minha poesia também trata de tudo.
Você qualifica sua poesia com frequência como revolucionária.
É parte de minha poesia o tema político, social e revolucionário. Mas também tenho poesia mística, histórica e científica; de temas do universo, de cosmologia, de ciência. escrevi de tudo.
Por que se inspira tanto na ciência?
A ciência descobre-nos todos os mistérios do universo. A cada vez descobre-nos mais coisas da criação. O livro científico sobre o universo para mim é também como uma oração. Revela-me também ao criador de tudo isto e me acerca muito a Deus. Há um cientista inglês, um biólogo, que diz que a ciência conduz mais a Deus que a religião, e eu assim o acho.
Há que fazer mais acessível a poesia para todos os públicos?
Para mim é importante que a poesia se entenda. Trato de fazer isso. Faço um grande esforço para que a poesia seja compreensível.
Você que a viveu de primeira mão, pode nos contar que fica da revolução sandinista?
Nada. Há uma ditadura familiar, de Daniel Ortega, sua mulher e seus filhos. E uma grande corrução com a que se estão enriquecendo incrivelmente.
Dói-lhe que acabe tudo assim?
Claro que sim. Foi o mais importante de minha vida essa revolução que tivemos, muito bela, a mais bela que houve.
Segue sofrendo a América Latina?
Bom, há de tudo. Também há revoluções muito belas. Eu estive com todas elas, mas na Nicarágua perdemos. O terceiro volume de minhas memórias chama-se A revolução perdida porque já não há revolução na Nicarágua, há em outros países.
É necessária uma nova revolução?
Na Nicarágua e no mundo inteiro. A revolução deve ser mundial. E revolução quer dizer reino de Deus na terra.
No contexto atual, tornam agora mais necessárias que nunca?
Fizeram falta sempre, desde que há exploração e injustiças no mundo. Ou seja, desde que há civilização.
Os países árabes, Estado espanhol e o 15-M, o México na atualidade... Os jovens estão recuperando o espírito?
Isso foi sempre. A revolução é de toda a história da humanidade. Os profetas da Bíblia, que são se não? Dão a mensagem de mudança, denunciam injustiças e anunciam um reino novo.
Será que é necessário aprofundar mais?
Naturalmente. Além disso, as revoluções fracassam e há que voltar a fazê-las.
Agora o maior autoritarismo é o que marcam os mercados?
É, sim. Há mais injustiças agora das que teve jamais no mundo.
Está fracassando o capitalismo?
Naturalmente que está fracassando. O capitalismo é um suicídio. Continuar nele seria o suicídio do planeta.
O marxismo tem mais motivos que nunca?
Para mim sim. Eu acredito no marxismo embora ainda não se tenha alcançado. Mas o mesmo acontece com o cristianismo. Chesterton, o escritor humorista inglês católico, dizia que o cristianismo não fracassou porque não se pôs em prática nunca. O mesmo pode ser dito do marxismo; não fracassou porque não se pôs em prática. Igual o comunismo que o cristianismo.
Que mensagem lança ante o caos atual?
Que outro mundo é possível. E agregaria que um outro mundo é necessário. E junto do bispo Casaldáliga do Brasil, diria também que uma outra Igreja é possível.
El Diario de Sevilla