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130810_condor01Paraguai - Diário Liberdade - No passado mês de Março, o luitador antifascista paraguaio Martín Almada visitou a Galiza para dar a conhecer a história das ditaduras latino-americanas e o papel ianque na chamada Operaçom Côndor.


Almada, preso e sobrevivente da ditadura paraguaia, investigou durante 15 anos e acedeu aos arquivos da Operaçom Côndor no Paraguai, conseguindo apresentar provas do envolvimento dos Estados Unidos nas estratégias repressivas das ditaduras do continente americano nos anos 70 e 80.

É membro do Comité Internacional de Apoio ao Tribunal Russell e símbolo da Defensa dos Direitos Humanos da América Latina.

O Diário Liberdade mantivo umha conversa com Martín Almada, da qual extractamos a seguir o que consideramos os conteúdos de maior interesse para as nossas leitoras e leitores.

Com o passar dos anos, como interpreta a sucessom de ditaduras militares que aplicárom umha violência brutal contra os diferentes povos da América Latina? Porque se verificou aquela deriva reaccionária?

Entre os anos 40 e 45, os EUA estavam muito atarefados com a II Guerra Mundial, depois entrárom na Guerra do Vietname, onde sofrêrom um estrepitoso fracasso militar. Quando, depois de todo isso, se reorientárom para a América Latina, vírom que havia, tal como acontece hoje, umha efervescência de povos e governos que condenavam e contestavam o modelo capitalista de desenvolvimento.

Aí aparece um coronel na Guatemala, Jacobo Arbenz, que exige à United Fruit que pague os impostos; simultaneamente, aparecem Vargas, Perón, na Argentina, Paz Estensoro na Bolívia; aparece Fidel Castro, em Cuba... e depois Allende, que foi a gota que fijo transbordar a água do copo.

Entom, o secretário de Estado norte-americano da altura, Henry Kissinger, Prémio Nobel da Paz e, para nós, o maior assassino, di: "Isto é intolerável". Ordena a Pinochet e a Banzer liquidarem o comunismo na América Latina com o mesmo método que no Estado espanhol, a via fascista da violência. A morte, a perseguiçom, os fusilados, as valas comuns... a estratégia aplicada por Franco, violência brutal, assustar as pessoas, introduzir o medo. A do Estado espanhol foi umha experiência pré-Côndor, que foi importada e deixou como saldo mais de 100.000 vítimas na América Latina.

As vítimas fôrom as dirigências da classe operária, sindicais, estudantes, professorado, jornalistas, religiosos e religiosas, juízes, fiscais, dirigentes camponeses e indígenas... a classe pensante latino-americana foi quebrada entre 75 e 85. Isso explica que hoje, no Paraguai, por exemplo, contemos com umha classe política, deputados e senadores, medíocres e corruptos. Essa é a herança do Côndor, com a decapitaçom da classe pensante.

Naqueles anos instalou-se o fascismo, que exacerbou o nacionalismo racista, com caudilhos "pola graça de Deus".

O seu trabalho de investigaçom da Operaçom Côndor levou a desvendar as responsabilidades envolvidas nas diferentes ditaduras do continente. Pode comentar-nos qual foi o papel do imperialismo ianque nesse operativo repressivo?

Todos os males vinham de Washington, do império, a partir do que interpreta como umha rebeliom do seu pátio das traseiras. Os EUA consideram-se um império eterno, quando na verdade eles tenhem o seu tempo histórico e, para evitar a sua decadência, eles optam pola saída violenta. A Escola das Américas é criada nessa concepçom, para criar as classes dirigentes da América Latina, na zona do Canal do Panamá, depois transferida para o Forte Benning, no estado norte-americano de Georgia, que hoje continua a funcionar.

Quando Obama assumiu o poder, ele recebeu umha carta do Paraguai a pedir-lhe que essa escola de assassinos fosse destinada a outros fins, como o ensino dos direitos humanos e a ecologia, porque hoje os países latino-americano continuam a enviar oficiais e estudantes a "formar-se" nessa escola, com excepçom da Cuba, Venezuela, Argentina, Equador e a Bolívia.

Acha que vai ser possível apurar todas as responsabilidades em relaçom aos crimes cometidos polos regimes militares naqueles anos?

Sobre aquilo que se passou na América Latina, como antes no Estado espanhol, nom se pode virar página sem mais. Os Estados Unidos tenhem que pedir perdom à América Latina e, tarde ou cedo, haverá justiça. Existe um Tribunal Internacional, em Haia, e algumha vez nós chegaremos ali. As compensaçons económicas deverám ser pagas, quer polos assassinos directamente, quer polos EUA, responsáveis políticos por aquele império do caos.

130810_condor02Como é hoje a situaçom política no Paraguai? Responde Fernando Lugo às expectativas criadas polos sectores mais desfavorecidos?

Eu sou dos que apoiam o governo Lugo, mas sofremos muito porque na verdade ele nom está colmatando essas expectativas. Ele luita com a sua herança, com 70 anos de ditadura, cuja constituiçom atribuia aos representantes do povo, e nom ao povo, a governaçom e a deliberaçom. A constituiçom da pseudodemocracia que hoje temos di que a soberania reside no povo, e Lugo tem um ouvido para a constituiçom e outro para o clamor popular. Todo passa polo congresso e isso pode dar no mesmo fenómeno das Honduras, onde Zelaya fijo umha consulta nom vinculativa e nom se lhe permite aplicá-la. No nosso caso, Lugo tem minoria no Parlamento e também está ameaçado de golpe de estado, com o poder judicial e o ministério público também contra, igual que a embaixada norte-americana e o papa. Todo contra Lugo e o povo a acompanhá-lo...

Qual é a sua opiniom sobre outros processos de corte anti-imperialista existentes no continente, como o venezuelano ou o boliviano?

Nós estávamos habituados a olhar para a Europa e o que de ali vinha, mas agora vemos que a Europa está esgotada. É umha Europa indiferente, mesmo gregária dos Estados Unidos, com umha economia periférica e marginal. Por exemplo, a crise criada polos EUA e que afecta directamente o Estado espanhol.

Nesse contexto aparecem processos como o de Chávez, Morales, Correa... temos gente que reclama justiça, porque há muita injustiça. Temos sede de justiça e o actual sistema republicano já nom nos serve. O poder judicial está à margem da lei, por exemplo, e isso nom fai sentido...

Há hoje uma estratégia dos EUA em relaçom à América Latina?

Sim, a doutrina Monroe (América para os americanos) continua vigente e está globalizada, com o submetimento dos seus aliados na América Latina, África e mesmo na Europa. Nom admitem a dissidência nem de pensamento. Imponhem o neoliberalismo selvagem, o mercado sobre o estado, como se mercado arranjasse todo, quando nom arranja nada. Isso levou ao desastre actual. Reparemos que o Banco Mundial aplica receitas que nunca figérom sair nengum país da pobreza. Nom se regista nengum caso na história.

No Estado espanhol existem denúncias por parte de organismos internacionais e de defesa dos direitos humanos por torturas. Como podem ser evitadas?

Existem declaraçons e tratados internacionais que Espanha já assinou, o problema é quando todo fica em declaraçons. Muitos fascistas continuam no poder, incluído um ex-ministro de Franco, aliás originário da Galiza, que continua no Senado, em lugar de no cárcere, que é onde deveria estar. Existem, sem dúvida, impunidade e corrupçom.

Fotos e texto: Diário Liberdade.


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