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160613 giuliana valloneBrasil - PCO - Publicamos aqui o relato de manifestantes e jornalistas que foram vítimas da repressão policial na última manifestação contra o aumento da passagem em São Paulo.


“Apesar de prezar pela não violência em meus atos e buscar proteger a integridade daqueles que se manifestam nas ruas, mais uma vez sofro com a força dos fracos, com a violência física policial. Estou com o tornozelo quebrado em duas partes, aguardando desde a madrugada [do dia 14 de junho], pela cirurgia de implante de pinos e placas de titânio que ocorrerá as 17h.

“Tive meu pé esmagado por um carro, que busquei conter em meio às bombas, a fim de garantir a integridade física dos manifestantes que tentavam fugir do covarde cerco. Mesmo com o pé preso sob a roda, pedia para que o carro desse ré, fosse para trás, voltasse. Em meio aos meus gritos e tapas no capô, explodiu a 2 metros de mim uma bomba. Nesse momento o carro foi em frente, fugindo e quebrando o segundo osso.

“Quase cego do gás e surdo, fui apoiado por um companheiro desconhecido enquanto 4 bombas explodiam literalmente em nossas costas enquanto descíamos em busca de refugio. Consegui ainda, para não ser levado pelos covardes da tropa me esconder numa caminhonete estacionada, que depois prestou socorro e me levou ao hospital. Será um longo processo de recuperação e meditação sobre esses ferros do Choq_ que entrarão no meu corpo. Força serena para aqueles que continuam na rua.

“Nossa luta é maior, nossas armas tem que ser muito mais sofisticadas do que as armas brutas deles. Não podemos nos rebaixar aos fracos. Não podemos engolir o medo. Nossa caminhada é mais longa. Vamos seguir na mesma direção do começo do ato, com alegria, condenando a violência e celebrando a liberdade que clama por uma outra lógica da cidade!”

Paulinho Inn Fluxus

Membro do Tanq_ Rosa Choq_, um grupo de intervenção artística que se auto classifica como “uma arma estética em pleno disparo”

“A policial perguntou: ‘por que você está de cabeça erguida?’ Aí eu falei: ‘estou de cabeça erguida porque não tenho motivo para baixar a cabeça’. No que passamos na calçada, no escuro, levei uma borrachada na barriga. Aí ela falou, ‘agora você baixou a cabeça’. E aí me trouxeram para cá [78º DP].”

Arthur Cuzziol

Estudante de Direito na FMU

“Eles jogaram bombas de gás em três locais, impedindo que eu pudesse sair por qualquer um deles e pegaram um monte de gente que estava lá. Quando foram ver a minha mochila, não me deixavam ver o que eles estavam fazendo, só senti que estava mais pesada depois, quando peguei aqui na delegacia. Tinham duas pedras dentro, mas não fui eu que coloquei.”

Estudante de 16 anos

68 não acabou, está de volta. Governador sem critério, sem noção, juntar todo aparato que a gente paga, cada bala, cada bomba, eles fazem isso daqui com a população. Acabei de passar por uma barreira e só ficaram presos lá fotógrafos e jornalistas. Cidadão que está andando e quer retratar o que está acontecendo, não pode. Isso é ditadura, eu estou com vergonha desse país.

Manifestante que não quis se identificar

“Vim para participar de uma manifestação que é legítima, onde tem família, onde tem idoso, criança, estudantes, jovens das mais diversas cidades (...) eu nunca vi em toda a minha vida, nas mídias que eu acompanho, uma repressão tão brutal e sem sentido como eu vi hoje acontecendo na av. Paulista em São Paulo”

Ramón

Estudante de Ciências Sociais

“Por favor, não machuquem os meninos, eles não fizeram nada contra vocês”. Em resposta um policial respondeu: “Então toma, sua hipócrita filha da puta!”, e atirou uma bomba de gás lacrimogêneo.

Mulher negra, junto ao grupo de 20 pessoas, entre trabalhadores e idosos, que estava observando a polícia que ia em direção de manifestantes

“Acabei de sair do trabalho e estou tentando voltar para casa. Nem sei porque apanhei”

Valdemir de Souza

Auxiliar de escritório havia acabado de sair do trabalho e colocou uma camisa no rosto, devido ao gás lacrimogênio. Ao passar por um policial, este o espancou, mandando-o mostrar o rosto.

"Já tinha saído da zona de conflito principal --na Consolação, em que já havia sido ameaçada por um policial por estar filmando a violência-- quando fui atingida. Estava na Augusta com pouquíssimos manifestantes na rua. Tentei ajudar uma mulher perdida no meio do caos e coloquei ela dentro de um estacionamento. O Choque havia voltado ao caminhão que os transportava. Fui checar se tinham ido embora quando eles desceram de novo. Não vi nenhuma manifestação violenta ao meu redor, não me manifestei de nenhuma forma contra os policiais, estava usando a identificação da Folha e nem sequer estava gravando a cena. Vi o policial mirar em mim e no querido colega Leandro Machado e atirar. Tomei um tiro na cara. O médico disse que os meus óculos possivelmente salvaram meu olho.

"Cobri os dois protestos nesta semana. Não me arrependo nem um pouco de participar desta cobertura (embora minha família vá pirar com essa afirmação). Acho que o que aconteceu comigo, outros jornalistas e manifestantes, mostra que existem, sim, um lado certo e um errado nessa história. De que lado você samba?"

Giuliana Vallone

Repórter da Folha de S. Paulo atingida no olho por uma bala de borracha.

"Manifestantes cercados e atacados pela Força Policial: democracia, só que não
"São quase duas da manhã e estamos aqui, um grupo de nove jovens amigos/as, reunidos/as, agitados/as e não conseguimos dormir antes de denunciar o que vivemos hoje pelas ruas do centro de São Paulo.

"Era por volta das 18h quando descemos a Rua Augusta em direção ao Teatro Municipal para a concentração do Quarto Ato contra o aumento das tarifas.

"As notícias que circularam durante o dia prenunciavam que o a manifestação seria tensa. Mas, apesar do medo, estávamos leves e confiantes na democracia. Fomos nos incorporando a vários outros companheiros que seguiam para o ato. O que portavam? Flores, vinagre e câmeras fotográficas.

"Ao chegar no Teatro, o clima já estava tenso. A forte presença policial contrastava com o desejo de paz da maioria dos manifestantes, evidenciados em falas, gritos pela não violência e em atitudes absolutamente pacíficas.

"Seguimos com a multidão, reivindicando a revogação do aumento das tarifas e, mais do que isso, o direito ao transporte público, à cidade e, óbvio, a nos manifestarmos.

"Nossa intenção era parar a Paulista, chamar a atenção dos governantes e exigir o diálogo, mas quem parou a Paulista foi a polícia. Poucos metros de caminhada e o choque cercou os manifestantes e realizou a primeira dispersão. A partir daí éramos vários atos pela região central da cidade. Seguimos com um grupo que subiu a Augusta para tentar chegar a Paulista. Também fomos cercados, recuamos pela Bela Cintra e também ficamos sem saída. Fomos encurralados até chegar na Consolação. Vimos um cenário de guerra, vários dos grupos que haviam se dispersado voltaram a se encontrar, mas estávamos cercados pelo choque e pela cavalaria de todos os lados. Todos. Não havia para onde escapar e se proteger. Muitas bombas e balas de borracha atingiam os manifestantes. O desespero começou a tomar conta. Faltava o ar, os olhos ardiam, medo de perder os companheiros e, principalmente, o sentimento de indignação, humilhação e revolta. A solidariedade prevaleceu, quem tinha vinagre, oferecia, indicavam caminhos livres, davam as mãos.

"Conseguimos correr por uma das ruas. Recuamos. Tinha duas adolescentes conosco, estávamos preocupados, cansados. Precisávamos encontrar um local seguro. Seguimos pelas ruas paralelas à Consolação na região de Higienópolis. Estava deserta, nos sentimos a salvo. Encontramos mais um pequeno grupo de amigos numa padaria. Um alivio. Tomávamos uma água.

"De repente, onde não havia mais aglomeração de manifestantes, mais fumaça, mais barulho, mais bomba. Começamos a correr. Nos separamos dos outros. Nesse momento, éramos apenas nove amigos. Resolvemos caminhar calmamente, não haveria motivo para sermos atacados. Não fazíamos nada de mais. Estávamos enganados. Uma viatura parou diante de nós. Policiais apontaram a arma e ordenaram: “corram que vamos atirar”. Corremos e eles cumpriram a promessa. Atingiram uma amiga. Nos desesperamos. As ruas estavam desertas, não havia onde entrar. estávamos sozinhos. Humilhados e indignados pela arbitrariedade, pela violência, pela covardia, gritamos por socorro.
"Duas moças passavam de carro, se escandalizaram com a covardia que presenciaram. Pararam o carro e disseram para entrarmos. Nove pessoas num Palio. A solidariedade e o senso de justiça nos salvou. Elas moravam por ali e nos levaram para o apartamento, para ficarmos em segurança até que pudéssemos sair.

"Mais amizade, mais solidariedade. Fizemos um pedido de ajuda pelas redes sociais. Precisávamos de dois carros para nos tirar dali em segurança. Poucos minutos e dezenas de ajuda foram oferecidas. Fizemos e recebemos diversos telefonemas para saber dos outros amigos/as espalhados/as, feridos/as, presos/as. Havia uma rede de pessoas trocando informação, solidariedade, força. Fomos acolhidos num local seguro, onde passaremos a noite.

"Como nos sentimos agora? Humilhados e indignados, sim. Mas não derrotados. O que vimos hoje nos fez ver o tamanho do desafio que temos para consolidar a democracia e também nos fez sentir que somos fortes, somos muitos e somos bons. Partilhamos de momentos emocionantes de luta, coragem, lucidez. Fomos acolhidos e recebemos imensa solidariedade que alimentaram ainda mais o nosso sentimento de força. Essa rede pode crescer, temos certeza. Não vamos recuar. Enquanto a passagem não baixar, São Paulo vai parar."

Ingrid Evangelista, Juliana Giron, Paolla Menchetti, Rafael Lira, Vanessa Araújo Correia, Vânia Araújo Correia, Victória Satiro, Vitor Hugo Ramos


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