Causa Operária: Como surgiu a ideia de realizar o documentário "Domínio Público"?
Equipe do filme: Começamos a questionar o projeto das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), principalmente pelo fato das favelas terem sido escolhidas por interesses privados. Durante a fase de pesquisa, descobrimos que Eike Batista junto com a Coca-Cola, a CBF e outros investidores estavam financiando o projeto de segurança pública do Governo Estadual, numa aliança que ainda envolve o munícipio e a união. Dentro das favelas, vimos que a realidade é muito pior e que existe um projeto de cidade muito perigoso sendo posto em prática.
Causa Operária: Quais as dificuldades para arrecadar os recursos necessários para a elaboração do filme de maneira independente?
Equipe do filme: As dificuldades para arrecadar recursos para esse tipo de projeto são imensas. Infelizmente, os meios de financiamento para projetos culturais no Brasil dependem de editais e leis de incentivo que pertencem ao governo ou grandes empresas. Não é interessante para eles patrocinarem um projeto que pretende investigar a corrupção e sujeira do nosso País, quando eles mesmos estão envolvidos na jogada. Fizemos a primeira parte do filme na guerrilha, com pouquíssimo dinheiro, conseguido através da produção de um evento cultural. A equipe abriu mão dos salários e os equipamentos foram cedidos gratuitamente por parceiros. Foi muito difícil e demorado chegar até aqui, fazendo na raça. Faltam apenas dois anos para a Copa do Mundo e queremos construir, em pouco tempo, um filme realmente profundo que investigue e denuncie os problemas, alertando a sociedade mundial para os problemas que estamos passando no Brasil. A bandalheira é tão grande que não cabe em um curta-metragem!
Decidimos partir para o financiamento coletivo, que é uma maneira das pessoas comuns apoiarem projetos em que elas acreditam e com contribuições que vão desde R$10,00 até R$5.000. De acordo com o valor, a pessoa recebe um kit de recompensas em troca. Faltam apenas 24 dias de campanha para conseguir os 58% restantes do valor total pelo Catarse. É um sistema de tudo ou nada, ou seja, se não alcançarmos a meta no final, o dinheiro volta para os doadores e não terminaremos o nosso filme. Para assistir o vídeo e conhecer mais o projeto, é só acessar o link: catarse.me/dominiopublico
Causa Operária: O que vocês puderam testemunhar em relação à ação das UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) nas favelas do Rio de Janeiro?
Equipe do filme: A população carioca, principalmente das classes trabalhadoras, vive sob a ditadura do medo, seja do tráfico, da polícia ou das milícias. A truculência dos policiais com os moradores foi relatada em várias comunidades. Há imagens do filme mostrando uma ação da UPP da Mangueira, onde aparece um policial empurrando um garoto e outro apontando o dedo na cara de uma moradora. Houve o caso da UPP tomar para si, espaços públicos dos moradores, como no Morro da Providência, em que os vestiários da quadra de futebol foram invadidos para servir de base para os policiais da ronda noturna naquela região da favela.
Causa Operária: Na opinião de vocês, qual é o objetivo do governo com as UPPs?
Equipe do filme: A discussão mais importante, não é se as UPPs são boas ou ruins, se os policiais fazem um bom trabalho ou não. A polícia carioca é considerada uma das piores e mais corruptas do País, e não é de hoje. É importante entender qual a intenção por trás desse projeto.
A UPP é o braço do Estado dentro da favela e é esse braço que dá liberdade ao Estado para fazer o que bem entender dentro desses lugares. Logo depois da instalação das UPPs, chegam as obras impostas autoritariamente, sem nenhum diálogo com os moradores. As áreas escolhidas são justamente aquelas no entorno dos grandes investimentos para a Copa e das Olímpiadas: Zona Sul, Zona portuária, entorno do Maracanã, Cidade de Deus (Barra), etc. Muitos moradores estão sendo sistematicamente removidos dessas favelas localizadas em lugares que receberão investimentos e sofrerão uma enorme especulação imobiliária. Estima-se que mais de 30.000 já foram despejados das suas casas, muitas vezes, sem receber uma indenização adequada nem outra casa para morar. A intenção por trás disso tudo é fazer uma limpeza social e criar um novo mapa da cidade do Rio de Janeiro, onde os ricos viverão nos morros e os pobres serão removidos para periferias distantes, criando bolsões de miséria e violência, longe dos olhos da opinião pública e dos turistas. O Rio é uma das poucas metrópoles do mundo onde o pobre ainda vive no morro, com belo visual e localizado em áreas nobres. Nos países desenvolvidos, quem mora no morro, geralmente, são os mais ricos, como ocorre em Bell Air ou Beverly Hills, por exemplo. Esse é o grande projeto por trás das obras no Rio de Janeiro.
Causa Operária: Qual é o objetivo dos empresários que apoiam as UPPs?
Equipe do filme: O objetivo dos empresários em qualquer investimento é extrair o lucro máximo. O modelo neoliberal de gestão, onde as decisões do governo devem sempre favorecer ao mercado, transformou o Estado em um mero balcão de negócios. Os grandes capitalistas financiam campanhas políticas, investem em projetos do governo, para ter um retorno muito maior depois, seja em forma de isenções fiscais, licitações ou outros privilégios. Esse pequeno grupo de empresários passa a administrar a cidade em função dos seus interesses privados e sem se importar com o bem-estar da população. Por isso, a prioridade das obras são teleféricos e não hospitais e escolas. Os mesmos empresários que financiam o projeto de segurança pública, são aqueles terão seus investimentos valorizados por causa das remoções nas favelas onde foram instaladas essas UPPs. Além disso, muitos dos terrenos esvaziados pelas remoções serão concedidos a esses empresários pelo governo, para construírem seus prédios e venderem seus apartamentos. Isso acontece em grande escala na Zona Portuária, onde 70% das terras são públicas e estão sendo concedidas para um consórcio empresarial. Enquanto isso, a Constituição diz que terra pública deve ser prioritariamente utilizada para habitação de interesse social.
Vocês acham que Odebrecht, OAS e Carioca Engenharia construirão habitações de interesse social?
Causa Operária: Qual é a posição dos moradores em relação às UPPs?
Equipe do filme: O ponto positivo para os moradores é que a presença da polícia acaba com as invasões e troca de tiros. O tráfico para de ostentar armas e continua fazendo suas atividades de maneira discreta, deixando aquela gorjeta para o cafezinho toda semana. Por esse motivo, parte dos moradores é a favor das UPPs. A outra parte que sofreu abusos, ameaças e violência por parte dos policiais é contra.
O Vidigal foi a primeira favela que visitamos, antes da instalação da UPP. Lá a maioria dos moradores relatou que a comunidade era muito tranquila, há cinco anos não havia tiroteios e que eles preferiam que continuasse do jeito que estava, sem a UPP.
Causa Operária: Como os moradores da favela reagiram durante as entrevistas?
Equipe do filme: Os moradores sempre foram muito receptivos e simpáticos com a gente, pois entenderam que o filme serviria para chamar a atenção da sociedade para os problemas que eles estão enfrentando nas favelas.
Causa Operária: Em quais favelas o filme se passa?
Equipe do filme: O filme se passa no Morro do Vidigal, Vila Autódromo, Morro da Providência e o resto da Zona Portuária (Gamboa, Saúde, etc.). Temos imagens do teleférico do Complexo do Alemão e da UPP da Mangueira que foram cedidas por um colaborador do projeto. Ainda fizemos algumas imagens no entorno do Maracanã e em Brasília durante a viagem para entrevistar o Romário.
Causa Operária: Como as denúncias do Jornal Causa Operária ajudaram vocês no projeto?
Equipe do filme: Conhecemos o Jornal Causa Operária durante nossa pesquisa para o filme. Infelizmente a grande mídia brasileira sempre omite as informações para enganar a população e parecer que tudo vai bem. É futebol, Copa do Mundo, festa, alegria e orgulho nacional! Enquanto isso, o dinheiro público vai embora. Não para o ralo, mas para o bolso de empreiteiras, bancos, patrocinadores do evento, FIFA, políticos, donos de terra, etc. Muitas pessoas ficaram chocadas com o nosso vídeo e não tinham ideia do que se passa por trás da chegada desses megaeventos. É fundamental o trabalho de jornais engajados como o Causa Operária para alertar a população sobre a sujeira e as injustiças do nosso País.
Causa Operária: Vocês gostariam de comentar mais alguma questão?
Equipe do filme: Acabamos de lançar dois vídeos de 3 min. O primeiro é o "Porto, Maravilha Para Quem?" sobre a relação entre os trabalhadores do porto, a rede Globo, os empresários e o Museu do Amanhã. O segundo se chama "Lei Elite da Copa", sobre os absurdos que envolvem a Lei da Geral da Copa. Basta acessar a aba atualizações dentro da nossa página do Catarse para conferir os vídeos.


