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Chacina-em-santos lanchoneteBrasil - Brasil de Fato - [José Francisco Neto] O caçula de Maria Helena, José Rodrigo de Pina, 25, foi assassinado com um tiro nas costas e outro no rosto, na Vila Mathias, Santos (SP). Pina e os amigos foram atacados por um grupo de homens encapuzados, duas horas após a morte de um policial militar. Outras cinco pessoas também foram assassinadas horas depois em outros bairros


A Vila Mathias, na cidade de Santos (SP), não é mais a mesma. A rotina mudou drasticamente e o medo tomou conta dos moradores da região depois da chacina que vitimou três jovens, no último dia 7 de outubro, véspera das eleições municipais. "Eu fechava tarde o comércio no final de semana. Agora não sei como será daqui pra frente. Isso atrapalhou muito o meu comércio", comenta Marina dos Santos, dona da lanchonete que fica próxima ao local em que ocorreu o primeiro assassinato.

Não bastasse a dor de perder o filho, dona Maria Helena, 55, foi tratada de um modo no mínimo questionável para reconhecer o corpo. "Qual dos oito abatidos a senhora veio reconhecer?", perguntou o funcionário do Instituto Médico Legal (IML). O caçula de Maria Helena, José Rodrigo de Pina, 25, foi assassinado com um tiro nas costas e outro no rosto. Pina e os amigos foram atacados por um grupo de homens encapuzados, duas horas após a morte de um policial militar. Outras cinco pessoas também foram assassinadas horas depois em outros bairros.

"Um carro preto parou, três homens desceram, colocaram o capuz e começaram a atirar", disse uma das testemunhas que não quis se identificar. Todos estavam reunidos próximos à lanchonete de Marina. O local, aparentemente tranquilo, é um conhecido ponto de encontro da juventude local.

O primeiro alvejado foi Fábio Manoel França, 29, que morreu na hora. Ao ver o amigo baleado, Pina correu aproximadamente 20 metros até entrar num beco sem saída. Um dos homens encapuzados foi atrás dele e atirou. Caído e baleado nas costas, Pina foi executado com mais um tiro no rosto.

Os homens ainda correram atrás de Melissa Gouveia, de 36 anos, a terceira e última vítima do bando. Cansada, Melissa se escondeu atrás de uma árvore, onde foi executada com diversos tiros no peito. Todas as outras pessoas que estavam na rua correram desesperadas para dentro de suas casas. "Se não tivessem corrido, tinha morrido mais gente", diz a testemunha.

O policial morto horas antes era Marcelo Fukuhara, conhecido como Japonês. Sargento da Força Tática da Polícia Militar, tinha 45 anos e foi executado com cerca de cem tiros de fuzil na Ponta da Praia.

Outra pessoa, que também não quis se identificar, disse que a polícia chegou minutos após a chacina. "Parecia que tudo já estava previsto. Aconteceu a chacina e em questão de minutos chegou uma viatura da polícia e cercou tudo. A perícia chegou em menos de uma hora. Duas horas depois o rabecão já estava recolhendo os corpos. Tudo muito estranho. Parece que já sabiam o que ia acontecer", relata.

No IML

Ao chegar no IML a família de Pina encontrou os portões fechados. Porém, do lado de dentro, motos e viaturas da Polícia Militar faziam escolta para a família de Fukuhara, o que causou indignação em Ida Teles, irmã de Pina. "Estava fechado o IML só para mim, porque pro policial estava aberto. Queria saber por qual motivo", questiona.

Só depois que o corpo do policial deixou as dependências do IML é que a família do rapaz pôde entrar. A mãe não teve forças. "Eu não tive coragem de ver meu filho naquele estado", diz Maria Helena, com as mãos trêmulas e sob o efeito de calmante.

No necrotério, Ida encontrou as três vítimas jogadas nuas em cima de uma mesa. Ao abraçar o corpo do irmão, sentiu a bala alojada em seu abdômen. "Beijei e abracei ele. Como ele é magrinho, quando passei a mão no abdômen, senti a bala. Quando levantei seu pescoço para abraçá-lo tinha um buraco na nuca. Conforme ele levou o tiro, os dentes dele todos estouraram e o tiro saiu pela nuca. Ficou um buraco enorme", conta, também abalada.

Chacina-em-santos mariahelena1À base de calmante e sem comer desde a morte de seu filho, dona Maria Helena não se conforma com o assassinato de Pina. "Na minha lógica, eu enterrei meu pai, enterrei minha mãe e queria que meu filho me enterrasse. Não eu enterrar meu filho. Foi o momento que eu nunca imaginava passar na minha vida", disse entre prantos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Outros casos

Duas horas após a chacina na Vila Mathias, ainda na madrugada de sábado para domingo (7), outra ação aconteceu no bairro da Areia Branca, zona noroeste de Santos. Uma casa foi invadida e um casal foi alvejado. Carlos Roberto de Jesus, 53, morreu na hora. Já a namorada dele, Tatiane Fonseca de Oliveira, 27, conseguiu escapar depois de levar um tiro na perna. Quase no mesmo horário um homem foi morto no Jardim Saboó, também na zona noroeste da cidade.

Por volta das 5h da manhã, Fábio Rodrigues Lourenço, 36, foi assassinado por homens em um carro escoltado por uma moto. No mesmo ataque, José Oliveira dos Santos, 62, ficou ferido.

Em outro caso, Vagner de Jesus Santos e Reinaldo Santos Moreira Filho, 24, foram baleados, mas sobreviveram.

Três dias antes, na quinta-feira (4), sete pessoas foram assassinadas na periferia do Guarujá (litoral de São Paulo) em menos de 20 horas. Segundo testemunhas, todos os crimes foram cometidos por dois homens, que estavam em uma moto.

Da mesma forma que ocorreu no domingo, a série de assassinatos aconteceu poucas horas após a morte de um policial militar em São Vicente, litoral de São Paulo, e um atentado contra outro PM no Guarujá.

Guerra declarada?

Com frequência, organizações de defesa dos direitos humanos denunciam que essas chacinas na Baixada Santista são mais um capítulo do confronto entre policiais e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Já o governador de São Paulo Geraldo Alckmin e o secretário da segurança pública, Antônio Ferreira Pinto, tentaram contemporizar o problema. Disseram que não há uma guerra entre a PM e o crime organizado. Pinto foi mais categórico e negou a existência de grupos de extermínio.

"Não tem grupo de extermínio, não tem a mínima hipótese de isso acontecer. Não descartamos nenhuma hipótese, mas também não podemos dizer que tem envolvimento de policiais. Pode haver uma briga de quadrilhas e no oportunismo querer creditar à polícia. Temos que apurar com bastante serenidade", afirmou em coletiva de imprensa na terça-feira (9), em Santos (SP).

O doutor em Antropologia e pesquisador do Departamento de Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade do Texas (EUA), Jaime Amparo Alves, declara que, apesar de faltarem provas concretas, não deixa de ser preocupante que as chacinas ocorram após o assassinato de policiais.

"As organizações de direitos humanos têm denunciado uma consistente 'metodologia da morte' em todos os casos: indivíduos encapuzados passam pela via, assassinam pessoas geralmente com passagens pela prisão. Em seguida, a polícia aparece para atender a ocorrência. Está aberto mais um capítulo do nosso horror: quando o Estado se comporta como bandido, qual a sua legitimidade? Quem de nós está salvo?", questiona Amparo, que também estuda a violência contra a juventude nas periferias de São Paulo.

A pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP, Camila Nunes, acredita que a postura de negação por parte do governo estadual e do secretário é extremamente nociva. Segundo ela, não assumir um problema que está em evidência pode trazer complicações, tanto para a população quanto para a polícia.

"Essa negação dos problemas afeta não só a sociedade e as pessoas que moram nas periferias, mas também as bases policiais que ficam com uma situação de incerteza do que está acontecendo. Quando o policial resolve agir por si mesmo, pois ele não pode contar com o seu comando, abre um campo de ilegalidade que pode tender para uma explosão da violência", explica.

Mentira sobre antecedentes

As esquivas do secretário da Segurança Pública não pararam por aí. Diante da onda de violência na Baixada Santista e do reforço da segurança na região, Pinto disse ao jornal A Tribuna, de Santos, estar certo de que os conflitos são locais, envolvem o tráfico de drogas e "todas as pessoas que morreram tinham antecedentes criminais".

Chacina-em-santos antecedente 0A família de José Rodrigo de Pina ficou indignada com a declaração do secretário."Tacharam que todos que morreram tinham passagens na polícia, mas meu filho não tinha. Tiramos o antecedente dele e provamos. Meu filho não era bandido", exclama Maria Helena de Pina, 55, mãe da vítima.

Diante da afirmação da mãe, depois de breve consulta ao sistema da Secretaria de Segurança Pública, a reportagem do Brasil de Fato constatou que realmente seu filho não possuía antecedentes criminais.

Em nota, a assessoria do secretário disse que a declaração foi dada no domingo (7 de outubro), quando ainda estava "no calor das apurações".

Policiamento trouxe pânico

Após a onda de violência na Baixada Santista (SP), que resultou na morte de 18 pessoas em apenas quatro dias, a Polícia Militar reforçou o efetivo de policiais na cidade O patrulhamento inclui equipes da Rota deslocadas da base, na capital.

Porém, os moradores da Vila Mathias se sentem inseguros com o policiamento. Ouvidos pela reportagem do Brasil de Fato disseram que a presença da Rota e de outros Batalhões da Polícia Militar causam ainda mais medo nas pessoas.

"Não tem mais ninguém na rua. As pessoas ficaram com medo. A presença da polícia não traz segurança, pelo contrário, traz mais medo ainda", disse uma comerciante que preferiu preservar sua identidade.

Para o analista criminal e especialista em segurança pública Guaracy Mingardi, a opção de policiar as ruas é ineficiente. Segundo ele, a medida que o governo do estado deveria adotar é uma investigação mais apurada.

"Não adianta ficar mandando gente armada pra rua. Mesmo porque, em algumas vezes, nessas chacinas há uma suspeita muito grande de terem sido praticadas por policiais militares fora de serviço. A coisa não funciona assim. Você precisa colocar a polícia civil para investigar", ressalta.

Para Camila Nunes, a militarização nas ruas também não é o melhor caminho. De acordo com ela, o policiamento é uma medida de desespero cujo objetivo é causar impacto na opinião pública.

"A única coisa que interessa para o Governo Estadual é a opinião pública, ainda mais em momentos próximos a eleições. Existem interesses que vão muito além de interesses coletivos, sobretudo no bem estar da população pobre que vive nessas áreas conflagradas", ressalta.


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