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flavianoBrasil - Jornal Vias de Fato - [Inaldo Serejo] Estou chegando do Charco, tua terra, quase liberta. Cheguei já era noite banhada pela lua, minha companheira de estrada quase intrafegável. Durante a viagem fiquei imaginando como seria a minha chegada a essa tua terra. Finalmente ouvi o som dos tambores. Vinha do Acampamento – dois barracos cobertos com palha de babaçu, sem paredes, alguma dezenas de redes de dormir estendidas esperando corpos cansados da faina diária, mas afagados pela certeza do dever cumprido.


Foto: Flaviano Pinto, quilombola assassinado por mandantes do fazendeiro  Manoel Gentil Gomes aos 45 anos.

No centro, tambores e fogo. Homens, mulheres – adolescentes e jovens e adultos. Aos poucos entre abraços e sorrisos fui levado à roda e logo comecei acompanhar a música. Mais tarde quis saber sobre a vida no acampamento – já são 21 dias. No meio da noite acordamos com o barulho da chuva. Foi preciso reorganizar as redes armadas num barraco com a cobertura melhor. Finalmente todos voltamos a dormir até os primeiros raios de sol.

Caro Bic – como me ensinaram os que mais tempo conviveram contigo - todos sabemos o quanto tu gostaria de estar vivendo este momento tão importante para os negros e as negras do Charco e Juçaral. 
A retomada do território banhado por teu sangue está se dando num momento lindo. Os paus d’arcos amarelos aqui e acolá ponteiam o céu azul de setembro, suas pétalas douradas cobrem o chão e num bailado sutil as sementes se lançam para a continuidade da vida. O mulunduzeiro que se levanta bem no coração do território está lindo. Seus galhos desfolhados e acinzentados não permitem que ele se encha de soberba apesar de suas flores num róseo suave e intenso. As folhas se deixam cair. Tu também, Bic, entregaste a tua vida e nós plantamos o teu corpo na terra – a tua terra. 

No dia 30 de novembro 2010 – há exatos 30 dias do teu Martírio-Páscoa – o velho Gorel profetizou: “as nossas lágrimas de dor misturadas ao sangue do nosso Bic serão a tinta nova com a qual escreveremos uma nova História”. 

Durante o tempo que estive com o teu povo ouvi sobre o tempo do cativeiro – cativeiro recente. As lembranças do sofrimento continuam vivas. Entendo. Elas continuam ‘vivas’ para que nunca haja escravos em nosso meio. Tal como no Memorial da Páscoa Judaica o relato do tempo da escravidão é parte constituinte da celebração. Mas “Javé ouviu o nosso clamor e viu nosso sofrimento por causa dos nossos opressores e desceu para nos libertar”. 

Todos os que lutamos pela libertação da Terra e dos seus filhos e suas filhas podemos cantar: “Virá o dia em que todos ao levantar a vista veremos nesta terra reinar a liberdade”. 

Durante todo o dia vi meninos e meninas tocarem os tambores. Às vezes os toques eram misturados, mas carregam as energias da Mãe-África. Em algum canto sempre havia pequenos grupos conversando e/ou realizando alguma atividade – o acampamento é mesmo uma escola. Ao final do segundo dia, numa roda de conversa, “novas” lembranças do tempo do cativeiro. Bete partilhou um constrangimento vivido por ela quando foi dispensada durante o corte do arroz por não servir pra nada – detalhe: era quase meio dia e ela saiu sem pagamento e sem comida. 

Flaviano, o povo está feliz. Nos rostos há expressão da realização da justiça. Todos os dias chegam notícias e solidariedade de quilombos e pessoas de lugares diversos deste Brasil. As bandeiras do MOQUIBOM estão ponteando o caminho ao território. A foto de Doroty, mártir de toda a Amazônia, está ao lado da tua como seta a apontar o rumo da Terra Sem Males, o Quilombo-Páscoa.

Sei que tu não precisas desta carta. Tu estás presente na vida do quilombo Charco. Eu, sim, às vezes fico distante. Tu és PRESENÇA! Aliás, é por causa do teu sangue derramado brutalmente por mãos assassinas do latifúndio que o teu povo retomou o território do Charco, assim se manifestou nosso amigo Aquiles. Na reunião que marcou a data da retomada do território todos reafirmaram o compromisso de lutarem até o cumprimento da Palavra: 

“Ele vive viverá em Paz e sua descendência possuirá a terra”. 

É isso, meu camarada, por aqui continuaremos a luta dos nossos ancestrais para libertar a terra. E em cada palmo afagado e abraçado sentiremos tua presença e a de todos os que tiveram suas vestes lavadas no sangue do Cordeiro.

Maranhão - Tempo das Flores dos Ipês


Inaldo Serejo é Coordenador da CPT/Maranhão


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