O caso que envolveu o menino Juan, baleado em uma operação policial e que permaneceu desaparecido por 16 dias expôs o massacre colocado em prática pela polícia em nome do combate ao tráfico de drogas. No dia 20 de junho, policiais do vigésimo Batalhão da Polícia Militar foram até o morro Danon, em Comendador Soares, na Baixada Fluminense, "apurar" denúncias contra traficantes de droga. Durante a operação ocorreu uma troca de tiros entre traficantes e policiais e o resultado foi uma pessoa desaparecida, um morto e dois gravemente feridos.
Após a ação, os policiais que participaram registram o caso como "auto de resistência", ou seja, onde a PM mata e fere os suspeitos após tiroteio entre as duas partes. Apresentam armas e drogas para justificar isso e não comentam nada sobre a pessoa desaparecida, o menino Juan.
O desaparecimento da criança vem à tona apenas quando a família denuncia. A partir daí, começa uma operação para ocultar os fatos. Primeiro, a polícia não realiza a perícia no local. Segundo, os quatro policiais envolvidos diretamente na ação no morro Danon não sofrem nenhuma punição e sequer é aberta uma investigação, sendo eles apenas transferidos para trabalhos internos como forma de "abafar" a polêmica.
O desaparecimento do menino Juan toma conta do noticiário e a polícia muda de tática para esconder seus crimes. Os policiais vão para a "geladeira" da corporação e apenas oito dias depois do ocorrido é realizada a perícia. Na perícia, o chinelo do garoto é encontrado. Só neste momento começam as buscas.
Alguns dias depois é comprovado mais um crime da polícia. Um dos baleados, apontado como sendo traficante pelos policiais no "auto de resistência", ficou cinco dias algemado no hospital. A família do rapaz comprova que ele trabalha e que a versão da polícia era um farsa.
Dez dias após a ação policial é encontrado um corpo que poderia ser de Juan, no entanto, a perícia descarta a possibilidade e diz que o corpo achado era de uma menina. Quatro dias depois, após dois exames de DNA fica comprovado que o corpo de fato era de Juan.
Estes fatos, que ganharam destaque e fez do caso um dos assuntos mais comentados da semana levanta várias questões.
O procedimento policial no caso Juan foi o mesmo praticado em todas as supostas investidas da polícia contra os traficantes de drogas que dominam os morros cariocas. A polícia vai investigar e combater o crime, ocorre uma troca de tiros, alega-se que os baleados eram traficantes etc. O caso Juan expôs que tudo isso é uma grande farsa para esconder que as operações são na verdade uma política para reprimir a população pobre. No morro do Danon, onde a repercussão do caso e diversos outros motivos permitiram uma apuração e a descoberta dos fatos que nunca vem à tona, ficou esclarecido que todas as pessoas atingidas pela repressão não eram criminosos, portanto, não trocaram tiro com a polícia e que todas as informações repassadas pela polícia sobre a operação eram falsas.
Fora isso, moradores da comunidade afirmaram que viram o menino sendo levado em uma viatura da polícia após ser atingido por um tiro. Seu corpo foi encontrado ao lado do vigésimo Batalhão, local onde trabalham os policiais envolvidos na operação no Danon e a perícia inicial, que apontou que o corpo era de uma menina, constatou que além de ser atingida por disparos a pessoa morta também havia sido golpeada na cabeça.
Diante de todos estes fatos não pode existir dúvidas, Juan foi executado pela polícia.
Outro fato também ajuda a esclarecer. Os quatro policiais envolvidos diretamente na morte de Juan têm juntos 36 casos de mortes após supostos confrontos.
A única conclusão que se pode tirar de todos estes dados é que não estamos diante de um mero acidente ou erro policial como tenta fazer crer a imprensa. Mas diante de uma política do próprio governo que vem usando o pretexto do combate ao tráfico para impor uma repressão contra a população pobre.
Neste sentido, a versão de que os atos da polícia de esconder os verdadeiros culpados da morte de Juan são erros é uma tentativa de esconder o massacre praticado pelas forças de repressão, pois o que ocorreu no morro do Danon é a mesma coisa que acontece em outras favelas, principalmente onde são instaladas as UPP's.
Tais casos não causam maior repercussão porque há uma solidariedade da classes médias conservadoras e da burguesia com a repressão indiscriminada contra a população pobre, um fato histórico no Brasil.
É preciso exigira a punição de todos os assassinos de Juan e, mais do que isso, lutar contra a repressão policial e exigira dissolução da polícia, pois ficou provado que ela serve apenas para atender aos interesses da burguesia. No caso do Rio, ela tem sido o principal instrumento para colocar a cidade sob estado de sítio.

