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190313 felicianoBrasil - Mario Enzio - [Mario Enzio] Contra a força não há argumentos. Monteiro Lobato

 


Quando trato de assuntos polêmicos, gosto de separar o que é evidente, aquilo que não se precisa provar, que tem consistência em leis científicas, daquilo que ainda precisamos provar. E busco na moral prática meus argumentos de defesa. Vejo na fábula o que me leva a acreditar que estamos entregando coisas importantes nas mãos de gente sem preparo para exercer determinada atividade.

É o caso do eleito em uma reunião fechada, contra a vontade de outros pares e de muitas pessoas que se opuseram ao novo presidente da Comissão de Direitos Humanos, deputado Marco Feliciano. Ele causou polêmicas com seus comentários, como em um discurso durante um congresso evangélico afirmou que a "aids" era o "câncer gay". Acrescentou que "a própria ciência revela o predomínio de infecção por esta doença em pessoas manifestamente homossexuais, tanto é verdade que quando se doa sangue na entrevista se for declinada a condição de homossexual essa doação é recusada". Em 2011, publicou no "twitter" que os descendentes de africanos seriam pessoas amaldiçoadas. Disse, ainda, que "a maldição que Noé lançou sobre seu neto, Canaã, respinga sobre o continente africano, daí a fome, pestes, doenças, guerras étnicas!"

Se quisermos falar de coerência, tolerância e consistência, temos que entrar no campo da filosofia. E para filosofar temos que acreditar em algo. Não podemos ficar no campo das suposições, que estão além da nossa capacidade de comprovação racional. Vamos encarar que o campo de assuntos que estamos entrando, nesse debate de quem deve cuidar de nossos interesses em direitos humanos, se prende a dois extremos: uma diferença entre teologia e filosofia.

As duas conduzem sua argumentação de modo semelhante, quer fosse por dedução, raciocínio ou lógica. A teologia baseia-se na verdade revelada pela fé. A fé é aquilo que se acredita, sem contestar em muitos casos. A filosofia, entretanto, não exige tal crença. Em uma época medieval, entretanto, ela – a filosofia – partia de que princípios eram evidentes, em nosso campo de experiências, em relação ao mundo que era percebido, usando somente a razão. Na verdade, filosofia e teologia, muitas vezes, se misturavam, e a civilização era dominada pela religião na época medieval. Infelizmente, na atualidade, é isso que se vê com um movimento que quer dominar por uma estrutura de crenças.

Sabemos que é difícil distinguir mentes refinadas, de como conseguir separar ao máximo o que é evidente na gestão da coisa pública é o que são os interesses teológicos. O pressuposto de estar aberto aos questionamentos, mas não deixar que a religião domine a civilização pós-moderna, como dominou na era medieval é a verdadeira questão. Tudo que podemos ver são figuras sombrias de opiniões retrógradas e desestruturadas de ciência em meio a esses devaneios teológicos no Congresso Nacional.

Um assunto é respeitar o que são as crenças outra é ser apenas movido por elas. A opinião que deve ser seguida é para se distinguir o que é ciência e o que é fé. Essa afirmação que a teologia e a filosofia estão unidas nos dias de hoje é preocupante ao saber que ainda somos medievais em nossas soluções.

(*) Escritor e mestre em Direitos Humanos.


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