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020413 brasil inflacao no brBrasil - PCO - Até o próprio Banco Central passou a reconhecer que a inflação superará o teto da meta no próximo trimestre. O que está por trás?


Agora foi a vez do próprio BC (Banco Central) prever que a inflação ficou fora de controle. A previsão para o próximo trimestre, documentada no recente relatório trimestral da inflação, é o estouro do teto da meta da inflação oficial medida pelo IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado), com 6,7%. No acumulado dos últimos 12 meses, o IPCA já superou bastante a inflação oficial do ano passado; de 5,84% passou para 6,31%.

A previsão para este ano, quando apenas decorreram três meses, aumentou em quase 1%, para 5,8%.

Os números em si mesmos devem ser interpretados por imensa cautela devido às manipulações estatísticas. Não por acaso, o IPCA é utilizado como índice de referência para reajustar o salário mínimo e, desta maneira, repassar o peso da crise sobre os trabalhadores desgastando o poder de compra. Mas, de qualquer maneira, é incontestável, até pelos próprios índices oficiais, a tendência incontida de aumento da inflação a partir do início do ano passado.

São dois os fatores que têm provocado a disparada da inflação, tanto no Brasil quando no restante do mundo. A monetização da dívida pública e a especulação financeira, principalmente nos mercados de energia e de matérias primas.

O Tesouro Nacional tem passado a emitir títulos públicos podres, sem lastro produtivo, em escala crescente, além do governo brasileiro também ter aumentado a dívida externa. Os recursos são repassados para o BC, que por sua vez os repassa para os bancos públicos (BNDES, CEF e BB), com os capitalistas como destino final. As grandes empresas também tomaram centenas de bilhões de empréstimos no exterior. A fiança e a responsabilidade por esses empréstimos é do estado.

Os investimentos privados praticamente sumiram da economia brasileira. Os capitalistas acentuaram o parasitismo no estado, que aparece como o grande concentrador da crise capitalista. Ao mesmo tempo, tem sido gerada uma bomba relógio de potencial muito mais explosivo. Quanto mais ela crescer, mais forte será a queda. Mas quais seriam outras alternativas?

Para a equipe econômica neoliberal a única alternativa possível são mais medidas neoliberais. Basicamente, maior entrega dos recursos nacionais ao imperialismo e à grande burguesia local, e mais monetarismo. Por esse motivo, além dos novos pacotes bilionários para aumentar a entrega do País ao imperialismo, aumentaram as pressões para voltar a subir a taxa de juros Selic. Os lucros dos especuladores financeiros não podem ser afetados, afinal, são eles quem controlam os principais mecanismos da economia. Ao mesmo tempo, o risco é jogar o País na depressão econômica e entravar os próprios mecanismos das especulação financeira. Ou seja, um círculo vicioso provocado pelo parasitismo da economia nacional e as amarrações imperialistas.

O BC também poderia liberar parte dos quase R$ 600 bilhões de depósitos dos bancos, acumulados por meio de operações de até 90 dias, operadas com títulos do Tesouro. Equivale a 25% do estoque total do crédito. Na avaliação dos economistas burgueses e da direita, esse volume de recursos seria suficiente para provocar a queda dos juros sobre o crédito ao consumo e à produção, o que, na teoria, provocaria a queda da inflação. Na realidade, a situação não é tão simples e a equipe econômica do governo do PT sabe muito bem disso. A liberação desses recursos inflaria o crédito, mas também a inadimplência devido a que a produção real está em recessão e a tendência é ao desemprego. As bolhas financeiras seriam ainda mais inchadas e algumas delas adquiriram poderiam estourar, como a própria bolha do crédito e a bolha imobiliária.

Alguns dos truques usados pelo governo para camuflar a inflação

Na realidade, a inflação é muito maior que o percentual oficial registrado pelo IPCA. Mas o governo a camufla em cima de vários malabarismos contábeis. Um dos mais conhecidos consiste em reduzir o peso dos produtos mais impactados pelas pressões inflacionárias e  aumenta-lo em outros submetidos a menor pressão. A última operação, bastante grotesca, foi implementada em março do ano passado, para minimizar o impacto da subida dos preços dos alimentos.

Outro mecanismo consiste no agrupamento de produtos de consumo por famílias com poder de compra diferente, com o objetivo de ocultar que a inflação já adquiriu  conotações de inflação galopante quando é considerado o impacta sobre as camadas mais pobres da população. Outros dos truques é postergação de aumentos, como aconteceu recentemente com as tarifas de ônibus.

Mais um truque consiste na redução artificial de preços de determinados produtos subvencionado por meio de recursos públicos. No ano passado, isso aconteceu com a redução do IPI (Imposto sobre os Produtos Industrializados) na linha branca, nos automóveis e na desoneração de vários outros setores. Recentemente, foram reduzidos os preços da energia, com o objetivo de favorecer principalmente a exportação de minerais metálicos, setor altamente consumidor de energia. A redução do impacto sobre a inflação será neutralizado em grande parte pelo uso das térmicas. Para conter a inflação em cima deste mecanismo, o governo tem assumido os ônus aumentando o endividamento público. Em outra palavras, o potencial explosivo tem sido jogado mais para a frente, o que inevitavelmente irá detonar no futuro em escala muito maior.

Simplesmente considerando os truques mencionados o IPCA provavelmente esteja pelo menos em torno aos 10% no acumulado dos últimos 12 meses. A inflação para as camadas mais pobres da população provavelmente se situe pelo menos em 15%, dado o astronômico custo dos alimentos e da energia, e os aumentos nos transportes e na moradias.

A subida dos preços dos alimentos

Apesar das manobras do governo do PT na tentativa de conter a subida dos preços dos alimentos, com a redução de tributos, os preços não cederam nem um milímetro. Segundo o último informe do IPCA-15, relativo ao período compreendido do dia 15 de fevereiro ao dia 15 de março, vários produtos da cesta básica continuam em franca disparada – o preço do feijão carioca aumentou 11,68%, os ovos 7,66%, a farinha de trigo 6,33%, as frutas 2,54%, o frango 1,80% e o pão francês 1,77%.

No acumulado dos últimos 12 meses, até março, a alta dos alimentos chegou a 34%, ou mais de cinco vezes acima da inflação oficial. A alta dos preços dos cereais, que incluem arroz e feijão, os principais do consumo popular, foi de 34,09%. Os alimentos semielaborados e industrializados sofreram altas de 16,50% e de 11,44%, respectivamente. A farinha de mandioca acumulou alta de 140,6%.

Os preços das frutas, verduras e legumes acumularam altas de 33,36%. Só o preço do tomate aumentou em  105,87%, a batata 86,51%, a farinha de mandioca 140,57%, a cebola 58,83% e a cenoura, 43%. Hortaliças e verduras, juntas, 23,39%. Tubérculos, raízes e legumes tiveram alta de 76,54%. Farinhas e massas aumentaram 34%. Cereais, leguminosas e oleaginosas, 29,31%. A alimentação no domicílio ficou 14,52% mais cara.

A última vez que aconteceu uma situação similar foi em 2008 devido ao impacto da crise capitalista mundial. A inflação, assim com a crise em geral, tinha sido contida por meio de bilionários recursos repassados para os capitalistas e a inundação do mercado com crédito. Esses mecanismos entraram em colapso no ano passado. O governo está tenta-los renova-los com mais medidas neoliberais, mas as chances de sucesso são quase nulas. O estado se encontra muito enfraquecido devido à paralisia econômica geral. O melhor que conseguiu fazer no ano passado foi evitar o colapso generalizado e garantir os lucros dos capitalistas.

A política agrícola está direcionada à especulação financeira

A propagandeada safra recorde de 185 milhões de toneladas de grãos pouco tem ajudado para reduzir as pressões inflacionárias. A maioria da produção é composta por soja, que é destinada à exportação especulativa por meio das bolsas futuro de commodities. Em conjunto com o milho, representou 70% da safra e tem como destino engordar o gado que irá parar principalmente nas redes de fast-food para alimentar o lucro das multinacionais.

O direcionamento do País à exportação especulativa de meia dúzia de matérias primas (minério de ferro, petróleo cru, soja, carne, açúcar e café), imposto pelo imperialismo após o colapso capitalista de 2007-2008, obrigou ao direcionamento das políticas e recursos públicos justamente para favorece-las. Por esse motivo, a falta de incentivo aos demais setores levou às importações dispararem, inclusive as relacionadas a alimentos básicos, dos quais o Brasil já foi autossuficiente, tais como o trigo e o arroz.

A safra da soja cresceu 23,6% e a do milho 4,36% neste ano, segundo a Companhia Nacional do Abastecimento (Conab). Já a produção de arroz, que nem sequer consegue atender a demanda doméstica, cresceu 3,9%, enquanto que a do feijão da primeira safra, que está em fase de colheita, caiu em 6%.

A política agrícola para os alimentos de consumo popular é um desastre, ou quase inexistente. A produção depende em 85% da agricultura familiar, que recebe créditos pífios e nenhum incentivo real do governo, sem contar com o fato de que a reforma agrária foi totalmente paralisada pelo governo Dilma. O crédito e os recursos públicos são direcionado para o chamado agronegócio, a união entre as multinacionais imperialistas e os latifundiários, o setor mais reacionário da burguesia nacional. O objetivo é obter divisas, por meio das exportações, para manter em pé a especulação financeira em cima da dívida pública. Como as exportações de minério de ferro caíram, devido à crise da China, e o déficit dos combustíveis e derivados não para de crescer, neste ano, o grosso dos recursos será destinado ao agronegócio. As consequências são conhecidas: menos áreas para plantar alimentos, maior pressão para aumentar a fronteira agrícola sobre as áreas preservadas, e maior violência no campo devido ao aumento da pressão sobre os pequenos camponeses, quilombolas, terras indígenas e camponeses sem terra.


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