A Petrobrás reportou, no segundo trimestre de 2012, o terceiro maior prejuízo líquido (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações) na história da empresa desde o início do Plano Real e o primeiro em 13 anos. O valor foi de R$ 1,346 bilhões, ante o lucro líquido de R$ 10,599 bilhões do mesmo período do ano passado, o que, por sua vez, representou queda de 33,3% em relação ao trimestre anterior. O pior prejuízo da história da empresa aconteceu em 1999, quando o real foi desvalorizado em 42,8%.
O resultado do primeiro semestre, de R$ 7,8 bilhões, representou a terceira parte do resultado do mesmo período do ano passado.
O valor acionário sobre o patrimônio líquido caiu para a pior relação (72,13%) desde o quarto trimestre de 1998. O valor das ações preferenciais chegou a cair abaixo dos R$ 19, muito distante dos R$ 43 de 2007.
A queda dos lucros da Petrobras não representa uma exceção, mas se soma à queda dos lucros das principais empresas do setor extrativista no Brasil. Os lucros da Vale caíram 60% no trimestre anterior devido à queda da demanda de minério de ferro na China e ao aumento da dívida da empresa, fortemente atrelada ao dólar, após a desvalorização do real.
A presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, emitiu um comunicado público direcionado aos acionistas da Petrobras onde pretendia explicar os principais motivos relacionados com o prejuízo da Petrobras.
Verdades e mentiras sobre o prejuízo da Petrobras – a desvalorização do real
A supervalorização do real foi apresentada durante muito tempo como um dos principais fatores que impediam a economia brasileira decolar, principalmente porque ela acentua a desaceleração industrial. Se bem que isso é um dos componentes da realidade, o buraco é muito mais embaixo. A desindustrialização é um processo que foi imposto pelo imperialismo, pelas políticas neoliberais, a partir da década de 1990, e acentuada pela nova divisão do trabalho, também imposta pelo imperialismo, após o colapso capitalista de 2007-2008 que transformou o Brasil num exportador de matérias primas. Esse mesmo processo, que direcionou as políticas públicas para favoreceu à indústria extrativista e a produção de produtos agropecuários, provocou a disparada das importações. Por esse motivo, a desvalorização do real levou ao aumento dos custos com as importações, mas não trouxe grandes ganhos para as exportações devido à queda da demanda mundial provocada pelo aprofundamento da crise capitalista. Além disso, outro efeito colateral muito crítico para a economia brasileira é que as principais empresas envolvidas na exportação de matérias primas, que são comercializadas por meio dos mercados futuros especulativos de commodities, aumentaram exponencialmente o endividamento em moeda estrangeira o que as deixou muito expostas à desvalorização do real.
Dito em outras palavras, a economia brasileira está presa aos mecanismos especulativos imperialistas onde qualquer melhoria em um determinado aspecto implica a piora em outro– um círculo vicioso onde a tendência é a contínua piora devido ao aumento do saque dos recursos do País, mediante vários mecanismos, promovido pelo imperialismo e a burguesia nacional submetida a ele.
A dívida líquida da Petrobras quase dobrou entre o segundo trimestre do ano passado e o mês de junho deste ano - de R$ 68,8 bilhões para R$ 133,2 bilhões. A seca do crédito internacional, com o aumento da aversão ao risco, piorou a situação ainda mais, pois diminuiu a captação de dívidas de longo prazo. O índice de dívida líquida medido pelo lucro antes dos impostos, juros, depreciação e amortização (Ebitda, na sigla em inglês), subiu de 1% no ano passado para 2,46% neste ano.
A receita da Petrobras foi beneficiada pela desvalorização do real e compensou a queda do preço internacional do petróleo nos últimos meses. Mas, por outro lado, aumentou os custos com a compra de combustíveis no mercado externo.
Verdades e mentiras sobre o prejuízo da Petrobras – o aumento das importações de derivados e de etanol
O crescente aumento da demanda por derivados do petróleo reflete a estrutura pró-imperialista do setor petrolífero brasileiro. O petróleo é exportado em estado bruto e representa uma das seis matérias primas que são o carro chefe das exportações brasileiras. Os EUA mantém superávit comercial com o Brasil (um dos poucos países em escala mundial que consegue esta proeza) importando petróleo bruto e exportando derivados do petróleo e etanol.
Os investimentos no setor de refino ficaram estancados durante 40 anos e foram retomados, de maneira muito precária, na metade da década passada. Mas a prioridade é a E&P (Exploração e Produção), que consome em torno a 70% dos investimentos, pois o papel do Brasil é a produção e exportação de matérias primas.
O parasitismo do setor sucro-alcooleiro é o outro motivo da disparada das importações de combustível. O setor que passou a ser dominado por grandes especuladores financeiros nos últimos cinco anos, vivencia uma profunda crise apesar de representar o maior tomador de recursos altamente subsidiados pelo BNDES.
Numa recente entrevista do presidente da Usinas Itamarati, Sylvio Nóbrega Coutinho, que é uma das maiores produtoras de açúcar e etanol do País, esta situação ficou muito bem ilustrada já que se trata da situação geral do setor. Dos R$ 680 milhões de faturamento esperados para a safra atual, menos de 20% deverão provir da venda de etanol hidratado, que tem como destino a mistura com a gasolina. O percentual da cana moída usado para esta finalidade será reduzido de 63% para 55% da produção. Em torno de 45% do faturamento virá da venda de açúcar, outros 30% do álcool anidro e 5% da venda de energia gerada pela queima do bagaço de cana. O principal motivo para esse direcionamento é que o preço do açúcar está alto nos mercados de commodities. O fato de não conseguir abastecer a demanda doméstica em etanol hidratado pouco importa ao usineiros, pois o prejuízo é "socializado" pelo governo do PT, através da Petrobras, que, simplesmente, tem aumentado as importações dos EUA. O problema adicional que enfrentará esta política entreguista é que aconteceu nos EUA uma das piores secas da história o que provocou a perda da maior parte da colheita do milho, e da soja, a partir do qual é produzido o etanol. Os ganhos que o Brasil poderá obter nas exportações de milho e soja os perderá devido às importações de álcool que verão os preços aumentar nesta safra.
A maior parte dos insumos, adubos e fertilizantes usados na produção agrícola são importados, e os altos preços são usados pelas multinacionais como uma das maneiras de repassar lucros para as matrizes. Os usineiros alegam que o custo de produção do combustível, o etanol, aumentou em 40% nos últimos anos, o que somado à disparada do endividamento está inviabilizando o setor, que está em crise desde 2008. Desde então, mais de 30 usinas estão paradas no País e outras 40 foram coloca- das à venda. A dependência do setor das multinacionais impede o setor reagir, pois ele é uma das fontes de lucros fáceis que são repatriados para as matrizes. O aumento da lucratividade é conseguido mediante o aumento do parasitismo financeiro (obtenção de empréstimos do BNDES e aplicação na especulação financeira), assim com a superexploração dos trabalhadores (aumento das denúncias do uso do trabalho escravo por exemplo) e a depredação do meio ambiente em larga escala.
Verdades e mentiras sobre o prejuízo da Petrobras – queda dos preços nos mercados nacional e internacional
Segundo o comunicado da Petrobras, os preços dos derivados vendidos no Brasil estiveram, durante a maior parte do trimestre passado, defasados em
relação aos praticados internacionalmente e o reajuste no preço do diesel e da gasolina que não teriam sido sentidos ainda.
Sobre os preços domésticos defasados, o valor dos combustíveis praticados no Brasil, no mercado consumidor, não é nada barato, muito pelo contrário. Nos EUA, por exemplo, um galão (3,8 litros) de gasolina custa menos de US$ 3,5, aproximadamente, R$ 2 por litro.
A queda dos preços internacionais do petróleo ao final do segundo trimestre teria gerado perdas nos estoques das refinarias no exterior. A produção das refinarias da Petrobras no exterior (EUA e Japão) é muito baixa na comparação com as 13 refinarias localizadas no Brasil. A área de Refino da Petrobras (que pertence à área do Abastecimento, que inclui logística e comercialização) tem os piores níveis de retorno, na comparação com as 15 maiores empresas do setor, pois é altamente dependente das importações já que não consegue refinar a quantidade suficiente para atender a demanda doméstica.
A receita líquida da Petrobras, entre abril e junho, alcançou R$ 68,047 bilhões, alta de 11,5% em igual comparação. A variação positiva reflete o maior volume de combustíveis no mercado doméstico, assim como os maiores preços de venda de diesel e gasolina.
O preço do barril do petróleo no mercado internacional, se bem caiu de US$ 128, no início do ano, para um pouco acima dos US$ 103, no caso do tipo leve, e de US$ 99 para US$ 88 no caso do tipo pesado, são valores promovidos artificialmente pelos especuladores financeiros que obtêm enormes taxas de lucro nos mercados futuros de energia. As taxas de lucro da Petrobras deveriam ser muito altas, pois o custo médio de produção no Brasil é um pouco superior aos US$ 20 o barril. O custo de produção das grandes multinacionais petrolíferas é de pouco mais de U$ 5 a US$ 10, o que revela o enorme parasitismo do setor.
O problema de fundo da Petrobras é a submissão aos monopólios imperialistas que levam o grosso dos lucros por meio da especulação financeira, o regime de concessões, a monopolização dos serviços e do fornecimento de peças e equipamentos entre outros.
As importações de GNL (gás natural liquefeito) direcionado para atender à demanda das termelétricas levou à queda do lucro da unidade de Gás e Energia de R$ 747 milhões, no trimestre anterior, para R$ 86 milhões. E isto não tem nada a ver com preços abusivos pagos pelo gás boliviano. Muito pelo contrário. No governo de Evo Morales o preço da BTU (unidade de medida térmica) passou de espoliadores US$ 2 para um pouco mais de US$ 4. O custo de produção na Bacia de Santos é de US$ 6.
No comunicado de Maria das Graças Foster se afirma que a Petrobras irá reconquistar a lucratividade e que os reajustes de 3,94% no preço do diesel e de 7,83% no preço da gasolina, valendo desde 25 de junho, e o novo reajuste de 6% no diesel, em julho, serão determinantes. Pode ser que esses aumentos reduzam uma parte dos prejuízos da Petrobras, repassando os custos para o povo brasileiro. Mas os problemas estruturais continuarão os mesmos. Por esse motivo, conforme a crise capitalista continuar se aprofundando, o imperialismo tentará impor uma maior entrega dos recursos nacionais, ao mesmo tempo que os altos custos envolvidos na produção do Pré-Sal poderão inviabilizar a ampliação da produção ou levarão à exploração e produção, cada vez mais, depredadora, como pode ser visto, por exemplo, na produção de gás, a partir do xisto, nos EUA e no aumento exponencial dos vazamentos de petróleo em escala mundial.
Verdades e mentiras sobre o prejuízo da Petrobras – outros fatores
De acordo com a direção Petrobras, outros fatores que provocaram o déficit trimestral foram os maiores gastos investidos no aumento da eficiência operacional dos campos maduros, perfurados principalmente no período de 2009 a 2012, com destaque para áreas de novas fronteiras, e a diminuição da produção de óleo devido à realização de paradas para manutenção.
Obviamente, esses fatores tiveram um certo impacto, mas não podem ser usados como justificativas. As paradas para manutenção são rotina nas áreas de exploração e produção em qualquer petrolífera e fazem parte de um programa estrito, estabelecido com muita antecedência. Da mesma maneira, os grandes projetos que têm sido implementados para aumentar a eficiência operacional têm sido projetos de longa (ou muito longa) duração com provisionamento orçamentário também feito com muita antecedência. É o caso do chamado Gedig (Gerenciamento Digital Integrado), que tem como objetivo levar para terra o gerenciamento das plataformas, que é um projeto multimilionário implementado, principalmente, pela multinacional francesa Schlumberger.
Em resumo, por trás dos vários motivos e desculpas da direção da Petrobras oculta-se uma das pontas do iceberg do fracasso do modelo econômico imposto pelo imperialismo, após o colapso capitalista de 2007-2008, que transformou o Brasil num fornecedor de matérias primas, por meio dos mercados especulativos de commodities, e que é o verdadeiro responsável pelo aumento do saque dos recursos do País e pela crescente desindustrialização.


